MANUAL OFICIAL

 

DA

 

LEGIÃO DE MARIA

 

 

1ª edição no Brasil

conforme nova edição revista

e aumentada publicada pelo

Concilium em 1993

 

CONCILIUM LEGIONIS MARIAE

De Montfort House

North Brunswick Street

Dublin – Ireland

 

NOVA EDIÇÃO REVISADA NO BRASIL – 1996

 

Concilium Legionis –Dublin / Irlanda

 

Nada obsta:

       Joseph Moran, O.P.

       Censor Theologicus Deputatus

 

Imprima-se:

     +  Desmond Connell

         Arcebispo de Dublin

Hiberniae Primas

 

Dublin, 8 de dezembro de 1993.

 

 

SENATUS DO BRASIL

 

Nada obsta:

       Pe. Antonio Carlos Rossi Keller

       Censor “ad hoc”

Imprima-se:

                       Paulo Evaristo   Card. Arns

                       Arcebispo Metrop. de São Paulo

     São Paulo, 14. 6. 1996.

_____________________________________________________________

DISTRIBUIÇÃO DE MATERIAIS:

Vide relação anexa no final deste Manual.


Índice Geral dos Assuntos

                                                                                                               Página

Abreviaturas dos livros da Bíblia...........................................................        3

Abreviaturas dos Documentos do Magistério........................................        4

João Paulo II à Legião de Maria.............................................................        5

Nota Preliminar.......................................................................................       7

Perfil de FRANK DUFF.........................................................................       8

Fotografias: Frank Duff........................................................ face à pág.       8

                    [Altar] Legionário............................................. face à pág.   106

                    Vexilla........................................................... face às págs.146-7   

 

Capítulos:

1. Nome e origem....................................................................................       9

2. Finalidade da Legião...........................................................................     11

3. O espírito da Legião............................................................................     12

4. Serviço legionário...............................................................................      13

5. Espiritualidade da Legião....................................................................     17

6. Os deveres dos legionários para com Maria........................................     25

7. O legionário e a Santíssima Trindade..................................................     41

8. O legionário e a Eucaristia...................................................................     44

9. O legionário e o Corpo Místico de Cristo............................................     50

10. Apostolado da Legião.........................................................................    57

11. O plano da Legião...............................................................................    67

12. Fins externos da Legião.......................................................................   71

13. Condições de admissão na Legião.......................................................   80

14. O Praesidium.......................................................................................    83

15. Compromisso legionário......................................................................   89

16. Graus suplementares da Legião...........................................................    91

17. As almas dos legionários falecidos......................................................  102

18. Ordem a observar na reunião do Praesidium.......................................  104

19. A reunião e o membro.........................................................................   115

20. O sistema legionário não deve ser alterado.........................................   124

21. O místico lar de Nazaré.......................................................................   126

22. Orações da Legião...............................................................................   129

23. As orações são invariáveis...................................................................  133

24. Padroeiros da Legião............................................................................  134

25. O Quadro da Legião.............................................................................  143

26. A Tessera..............................................................................................  146

27. Vexillum Legionis................................................................................  147

28. Administração da Legião......................................................................  150

29. Lealdade legionária...............................................................................  168

30. Solenidades legionárias.........................................................................  170

31. Expansão e recrutamento....................................................................... 177


                                                                                                                      Página

32. Antecipando objeções prováveis............................................................    180

33. Principais deveres dos legionários..........................................................   188

34. Deveres dos oficiais do Praesidium........................................................    207

35. Receitas e Despesas................................................................................    217

36. Praesidia que exigem tratamento especial...............................................   219

37. Sugestões de trabalhos.............................................................................   227

38. Os Patrícios..............................................................................................   257

39. Principais diretrizes do apostolado legionário.........................................   269

40. “Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda a criatura”..............   304

41. “A maior das três é a caridade” ...............................................................   324

APÊNDICES:

Apêndice 1: Cartas e mensagens papais..........................................................   327

Apêndice 2: Alguns extratos da Constituição

                     Lumen Gentium do Vaticano II .................................................   332

Apêndice 3: Trechos do Direito Canônico sobre as

                    obrigações e direitos dos fiéis leigos na Igreja.............................   334  

Apêndice 4: A Legião Romana.........................................................................  336

Apêndice 5: A Arquiconfraria de Maria, Rainha dos Corações.......................   338

Apêndice 6: A Medalha da Imaculada Conceição

                    chamada “Medalha Milagrosa” ....................................................   340

Apêndice 7: A Confraria do Santíssimo Rosário...............................................  342

Apêndice 8: O ensino da Doutrina Cristã...........................................................  344

Apêndice 9: Associação de Pioneiros da Temperança

                    Total em honra do Coração de Jesus...............................................  345

Apêndice 10: O estudo da Fé..............................................................................  346

Apêndice 11: Síntese marial...............................................................................   349

Oração de S. Bernardo........................................................................................   352

Índice das referências bíblicas.............................................................................  353

Índice dos Documentos do Magistério................................................................. 355

Índice das referências papais................................................................................ 356

Índice dos Autores e outras pessoas de interesse.................................................. 357

Índice geral dos assuntos (pormenorizado) .......................................................... 360

Índice alfabético dos assuntos............................................................................... 366

Nota sobre as referências a Jesus Cristo................................................................ 373

Poema de José Maria Plunket................................................................................ 374

 

Abreviaturas dos Livros da Sagrada Escritura

Antigo Testamento

 

Novo Testamento

 

GN                Gênesis

EX                  Êxodo

JS                   Josué

1 SM              1 Samuel

1 Cr               1 Crônicas

Sl                    Salmo

Ecl                 Eclesiastes

Ct                   Cântico dos Cânticos

Eclo               Eclesiástico

Is                    Isaías]

Dn                  Daniel

 

Mt                  Mateus, Mc                         Marcos, Lc                          Lucas

Jo                   João    , At  Atos dos Apóstolos,  Rm                       Romanos

1 Cor            1 Coríntios, 2 Cor            2 Coríntios, Gl                  Gálatas

Ef                   Efésios

Fl                    Filipenses

Cl                   Colossenses

1 Ts               1 Tessalonicenses

1 Tm             1 Timóteo

2 Tm             2 Timóteo

Hb                  Hebreus

1 Pd    1 Pedro

1 Jo     1 João

Jd                   Judas

Abreviaturas dos Documentos do Magistério

 

DOCUMENTOS DO VATICANO II (1962-1965)

 

AA      Apostolicam Actuositatem (Decreto sobre o Apostolado dos Leigos)

DV      Dei Verbum (Constituição Dogmática sobre a Divina Revelação)

GS       Gaudium et Spes (Constituição Pastoral sobre a Igreja no Mundo Contemporâneo)

LG       Lumen Gentium (Constituição Dogmática sobre a Igreja)

PO       Presbyterorum Ordinis (Decreto sobre o Ministério e Vida dos Sacerdotes)

SC       Sacrosanctum Concilium (Constituição sobre a Sagrada Liturgia)

UR       Unitatis Redintegratio  (Reintegração da Unidade)

 

OUTROS DOCUMENTOS DO MAGISTÉRIO

 

AAS    Acta Apostolicae Sedis (Atos da Sé Apostólica)

AD      Ad diem illum (Jubileu da definição da Imaculada Conceição, S. Pio X, 1904)

AN      Acerbo Nimis (Ensino da Doutrina Cristã, S. Pio X, 1905)

CIC    Catecismo da Igreja Católica, 1992.

ChL    Christifideles Laici (A vocação e a missão dos fiéis leigos na Igreja e no Mundo,                                João Paulo II, 1988)

CT       Catechesi Tradendae (A catequese no nosso tempo, João Paulo II, 1979)

EI        Enchiridion Indulgentiarum (Lista oficial das indulgências e das leis que as regem. Sagrada Penitenciaria, 1968)

EN       Evangelii Nuntiandi (Evangelização do mundo moderno, Paulo VI, 1975)

FC       Familiaris Consortio (A família cristã no mundo moderno, João Paulo II, 1981)

JSE      Jucunda Semper (O Rosário, Leão XIII, 1894)

MC      Mystici Corporis (O Corpo Místico de Cristo, Pio XII, 1943)

Mcul    Marialis Cultus (A reta ordenação e desenvolvimento da devoção à Bem-aventurada Virgem Maria, Paulo VI, 1974)

MD      Mediator Dei (A Sagrada Liturgia, Pio XII, 1947)

MF      Mysterium Fidei ( O Mistério da Fé – sobre o mistério da Eucaristia, Paulo VI, 1965)

MN     Mens Nostra (Retiros, Pio XI, 1929)

PDV    Pastores Dabo Vobis (A formação dos sacerdotes nos tempos atuais, João Paulo II, 1992)

RM      Redemptoris Missio ( A validade permanente do mandato missionário, João Paulo II, 1990)

RMat   Redmptoris Mater (Maria, Mãe do Redentor, João Paulo II, 1987).

SM      Signum Magnum (Consagração a Nossa Senhora, Paulo VI, 1967)

UAD    Ubi Arcano Dei (A paz de Cristo no Reino de Cristo, Pio XI, 1922).

 

 

 

 

 

 

João Paulo II à Legião de Maria

 

Palavras do Santo Padre João Paulo II

A um grupo de legionários italianos em

30 de outubro de 1982.

 

1. As minhas boas-vindas são dirigidas a cada um de vós. É um motivo de alegria para mim ver-vos nesta sala em tão grande número, vindos das várias regiões da Itália, tanto mais que sois apenas uma pequena parte do movimento apostólico, que, no espaço de sessenta anos, se espalhou rapidamente pelo mundo e hoje, a dois anos da morte do seu Fundador, Frank Duff, está presente em muitíssimas dioceses da Igreja universal.

 

Os meus predecessores, a começar por Pio XI, dirigiram palavras de reconhecimento à Legião de Maria, e eu próprio, no dia 10 de maio de 1979, quando recebi uma das vossas primeiras delegações, recordei com grande prazer as ocasiões em que tinha estado com a Legião, em Paris, Bélgica, Polônia e agora, como bispo de Roma, no decurso das minhas visitas pastorais às paróquias da cidade.

 

Hoje, portanto, ao receber em audiência a peregrinação italiana do vosso movimento, gostaria de realçar aqueles aspectos que constituem a substância da vossa espiritualidade e o vosso modo de ser e de trabalhar dentro da Igreja.

 

Chamados a ser fermento

 

2. Sois um movimento de leigos que vos propondes fazer da fé a aspiração da vossa vida, para conseguirdes a santidade pessoal. Sem dúvida que é um ideal sublime e difícil. Mas hoje a Igreja, através do Concílio, chama todos os cristãos leigos a este ideal, convidando-os a participar do sacerdócio real de Cristo, que eles exercem pelo testemunho da santidade de vida, pela abnegação e caridade concreta; a ser no mundo, com o esplendor da fé, esperança e caridade, aquilo que a alma é para o corpo (Lumen Gentium, 10 e 38).

 

A vossa vocação própria, como leigos, isto é, a vocação a serdes um fermento no Povo de Deus, uma força inspiradora no mundo moderno, a conduzir o sacerdote ao meio do povo, é eminentemente eclesial. O mesmo Concílio Vaticano Segundo exorta todos os leigos a aceitarem com pronta generosidade, o chamamento a uma mais íntima união com o Senhor; considerando como de todos, aquilo que lhes é próprio, participam na mesma missão salvífica da Igreja, tornam-se seus instrumentos vivos, sobretudo onde, por causa das particulares condições da sociedade moderna – o aumento constante da população, a redução do número de sacerdotes, o surgimento de novos problemas, a autono-


mia de muitos setores da vida humana – a Igreja dificilmente pode estar presente e ativa (ibidem, 33).

A área do apostolado dos leigos está nos dias de hoje extraordinariamente dilatada. Por isso, o compromisso da vossa típica vocação torna-se mais urgente, estimulante, vivo e relevante. A vitalidade do laicato cristão é sinal da vitalidade da Igreja. O vosso compromisso legionário torna-se por isso mais urgente, considerando, por um lado, as necessidades da sociedade italiana e das nações de antiga tradição cristã, e, por outro, os brilhantes exemplos que vos precederam no vosso próprio movimento. Quero lembrar-vos apenas alguns nomes: Edel Quinn, com a sua atividade na África negra; Afonso Lambe, nas áreas marginalizadas da América Latina e, finalmente, os milhares de legionários assassinados na Ásia ou que terminaram a vida nos campos de trabalho.

 

Com o espírito e a solicitude de Maria

 

3. A vossa espiritualidade é eminentemente mariana, não só porque a Legião se gloria do nome de Maria como sua bandeira desfraldada, mas, acima de tudo, porque baseia a sua espiritualidade e apostolado no princípio dinâmico da união com Maria, na verdade da íntima participação da Virgem Maria no plano da salvação.

 

Por outras palavras, vós pretendeis servir cada pessoa, imagem de Cristo, com o espírito e solicitude de Maria.

 

Se o nosso único Mediador é o homem Jesus Cristo, como declara o Concílio, “a função maternal de Maria em relação aos homens de modo algum enfraquece o brilho ou diminui esta única mediação de Cristo; manifesta antes a sua eficácia” (LG 60). Por isso, a Virgem é invocada na Igreja com os títulos de Advogada, Auxiliadora, Perpétuo Socorro, Medianeira, Mãe da Igreja.

 

Daqui vem, que no seu nascimento e crescimento e no seu trabalho apostólico, olha para Aquela que deu Cristo à luz, concebido pela ação do Espírito Santo. Onde está a Mãe, aí está também o Filho. Aquele que se afasta da Mãe acaba, mais cedo ou mais tarde, por se distanciar do Filho. Não é de admirar que hoje, em vários setores da sociedade, notamos uma difundida crise da fé em Deus, precedida de uma queda na devoção à Virgem Mãe.

 

A vossa Legião faz parte dos movimentos que se sentem pessoalmente comprometidos a propagar ou fazer nascer a fé, mediante a expansão ou o renascimento da devoção a Maria. Deste modo, será sempre capaz de fazer quanto puder para que, pelo amor à Mãe, seja mais conhecido e amado o Filho – caminho, verdade e vida de cada pessoa.

 

É nesta perspectiva de fé e de amor que vos concedo, de todo o coração a Bênção Apostólica.       


NOTA DE ESCLARECIMENTO

 

A presente edição deste Manual recebeu revisão de linguagem a partir da edição de Portugal, traduzida diretamente do original inglês (Dublin – Irlanda).

 

A equipe responsável não fez qualquer alteração no conteúdo (não se contemplaram outros aspectos como: normas, orientações pastorais etc., bem como os nomes em latim, que foram mantidos), visto ser isso competência exclusiva do Concilium Legionis.

 

Buscou-se, sempre sendo fiel ao original, tão somente simplificar a linguagem, de modo a torná-la mais acessível e mais clara. Procurou-se adequar o vocabulário, o máximo possível, à realidade de comunicação e expressão do Brasil.

 

Que o mesmo Divino Espírito, que iluminou e animou este trabalho, venha a suprir, no coração e no entendimento da família legionária, as falhas que nossas limitações não conseguiram sanar.

 

Com carinho, pelas mãos de Maria,  

                                                                            EQUIPE DE REVISÃO

 

 

1921 – 1996

“LEGIÃO DE MARIA:

75 anos no Mundo e

45 Anos de Caminhada no Brasil”

 

Nota Preliminar

 

A Legião é um sistema que pode ser desequilibrado pela supressão ou alteração de qualquer das suas partes. Dela poderiam ter sido escritos os seguintes versos de Whittier:

 

“Arrancai um só fio, e danificareis a teia.

Quebrai uma que seja dos milhares de teclas,

e o estrago há de repercutir-se em todas elas”.

 

Por isso, se não estais dispostos a pôr em prática o sistema como vem escrito nestas páginas, por favor, não fundeis a Legião. Lede cuidadosamente a este respeito o capítulo 20: “O sistema legionário não deve ser alterado”.

 

Além disso, ninguém pertence à Legião, sem nela se haver filiado, através de um Conselho devidamente aprovado.

 

Se a experiência passada pode servir de exemplo, nenhum ramo da Legião falhará, no caso de se conformar fielmente com as normas aqui traçadas.


FRANK DUFF

 

Fundador da Legião de Maria

 

Frank Duff nasceu em Dublin, na Irlanda, a 7 de junho de 1889. entrou para o Funcionalismo Civil aos 18 anos. Aos 24, alistou-se na Sociedade de S. Vicente de Paulo, onde foi levado a um mais profundo compromisso com a sua Fé Católica e adquiriu, ao mesmo tempo, uma grande sensibilidade às necessidades dos pobres e desfavorecidos.

Juntamente com um grupo de senhoras católicas e o Padre Michael Toher, da Arquidiocese de Dublin, fundou o primeiro Praesidium da Legião de Maria, a 7 de setembro de 1921. A partir desta data até a morte, a 7 de novembro de 1980, orientou a extensão mundial da Legião, com heróica dedicação. Assistiu ao Concílio Vaticano II, como observador leigo.

Os seus ímpetos de profunda compreensão do papel da Santíssima Virgem no plano da Redenção, bem como do papel dos fiéis leigos na missão da Igreja, refletem-se no Manual, quase inteiramente, obras das suas mãos.

 

                             

                                                                  Frank Duff

 

[página 9]

LEGIÃO DE MARIA

 

“Quem é esta que avança como a aurora, formosa como a lua, brilhante como o sol, terrível como um exército em ordem de batalha?” (Ct 6, 9).

 

“O nome da Virgem era Maria” (Lc 1, 27).

“Legião de Maria! Que nome bem escolhido!” (Pio XI).

 

1

 

NOME E ORIGEM

 

A Legião de Maria é uma Associação de católicos que, com a aprovação da Igreja e sob o poderoso comando de Maria Imaculada, Medianeira de todas as graças, (formosa como a lua, brilhante como o sol e, para Satanás e seus adeptos, terrível como um exército em ordem de batalha), se constituíram em Legião para servir na guerra, perpetuamente travada pela Igreja contra o mal que existe no mundo.

 

“Toda a vida humana, quer individual quer coletiva, se apresenta como uma luta dramática entre o bem e o mal, entre a luz e as trevas” (GS 13).

 

Este exército, hoje tão numeroso, teve a mais humilde das origens. Não proveio de longas meditações: surgiu espontaneamente, sem premeditações de regras e práticas. Surgiu a idéia. Marcou-se uma tarde para a reunião de um pequeno grupo cujos componentes dificilmente supunham que estavam a ser instrumentos da Divina e amorosa Providência. O aspecto daquela reunião foi idêntico ao das reuniões legionárias que depois viriam a se efetuar em toda a terra. No meio do grupo, sobre uma mesa,


 [Capítulo 1        Nome e Origem       página 10]

 

com uma toalha branca, erguia-se uma imagem da Imaculada Conceição (igual à da Medalha Milagrosa) ladeada por dois vasos de flores e duas velas acesas. Esta disposição, tão expressiva no seu conjunto, fruto da inspiração de um dos primeiros a chegar, refletia perfeitamente o ideal da Legião de Maria. A Legião é um exército. E, antes mesmo de os legionários se reunirem, ela, a Rainha, já aguardava, de pé, aqueles que certamente atenderiam ao seu chamado. Não foram eles que a adotaram: foi ela que os adotou. E desde então, com ela marcharam e combateram, certos de que haviam de vencer e perseverar, precisamente na medida em que estivessem unidos a ela.

 

O primeiro ato coletivo destes legionários foi ajoelhar. Aquelas cabeças jovens e ardentes inclinaram-se. Rezou-se a Invocação e a Oração ao Espírito Santo; e depois, aqueles dedos que, durante o dia, haviam trabalhado arduamente, desfiaram as contas do terço, a mais simples das devoções. Terminadas as orações, sentaram-se e, sob a proteção de Maria (representada por sua imagem), aplicaram-se a procurar os meios de mais agradar a Deus e de O tornar mais amado neste mundo, que lhe pertence. Desta troca de impressões nasceu a Legião de Maria, com a fisionomia que hoje apresenta.

 

Que maravilha! Quem, considerando a humildade de tais pessoas e a simplicidade do seu procedimento, poderia prever, mesmo num momento de entusiasmo, o destino que em breve as esperava? Quem, dentre elas, poderia imaginar que estava sendo inaugurado um sistema que, sendo dirigido com fidelidade e vigor, possuiria o poder de comunicar, através de Maria, a doçura e a esperança às nações? Entretanto, assim havia de ser.

 

O primeiro alistamento dos legionários de Maria realizou-se em Myra House, Francis Street, Dublin, Irlanda, às vinte horas do dia 7 de setembro de 1921, véspera da festa da Natividade de Nossa Senhora. A organização nascente ficou conhecida no início como “Associação de Nossa Senhora da Misericórdia”, em virtude de o primeiro grupo ter tomado o título de “Senhora da Misericórdia”.

 

Circunstâncias, aparentemente casuais, determinaram o dia 7 de setembro, que parecia menos indicado que o seguinte. Só alguns anos depois – quando provas sem número de um verdadeiro amor maternal, levaram à reflexão – é que se compreendeu que, no ato do nascimento da Legião, esta recebera das mãos de sua Rainha uma enternecedora carícia. “Da tarde e da manhã


[Capítulo 2       Finalidade da Legião       página 11]

 

se fez o primeiro dia” (Gn 1, 5); e com certeza os primeiros e não os últimos perfumes da festa da sua Natividade eram os mais apropriados aos momentos iniciais de uma organização, cujo principal e constante objetivo consiste em reproduzir em si própria, a imagem de Maria, de maneira a glorificar melhor o Senhor e a comunicá-lO aos homens.

 

“Maria é a Mãe de todos os membros do Salvador, porque ela, pela sua caridade, cooperou no nascimento dos fiéis, na Igreja. Maria é o molde vivo de Deus, porque foi só nela que um Deus-Homem se formou, de verdade, sem perder qualquer traço da sua divindade; e porque só nela é que o homem pode verdadeiramente e de uma maneira viva, formar-se em Deus, na medida em que a natureza humana disto é capaz, pela graça de Jesus Cristo” (Santo Agostinho).

 

“A Legião de Maria apresenta a verdadeira face da Igreja Católica” (João XXIII).

 

2

 

FINALIDADE DA LEGIÃO

 

A Legião de Maria tem como fim a glória de Deus, por meio da santificação dos seus membros, pela oração e cooperação ativa, sob a direção da autoridade eclesiástica, na obra de Maria e da Igreja: o esmagamento da cabeça da serpente e a extensão do reino de Cristo.

 

A menos que o Concilium aprove e as reservas apontadas no Manual Oficial da Legião, a Legião de Maria está à disposição do Bispo da Diocese e do Pároco para toda e qualquer forma de serviço social e de Ação Católica que estas autoridades julguem convenientes aos legionários e útil à Igreja. Os legionários nunca tomarão sobre si qualquer destas atividades numa Paróquia sem a aprovação do Pároco ou do Ordinário. Por “Ordinário”, nestas páginas, entende-se o Ordinário local, isto é, o Bispo diocesano ou outra autoridade eclesiástica competente.


[Capítulo 3      O Espírito da Legião      página 12]

 

a) “O fim imediato de tais organizações é o fim apostólico da Igreja, isto é, destinam-se à evangelização e à santificação dos homens e à formação cristã da sua consciência, de modo que possam fazer penetrar o espírito do Evangelho, nas várias comunidades e nos diversos ambientes.

 

b) Os leigos, cooperando a seu modo com a Hierarquia, contribuem com a sua experiência e assumem a sua responsabilidade no governo destas organizações, no estudo das condições em que a ação pastoral da Igreja se deve exercer e na elaboração e execução dos planos a realizar.

 

c) Os leigos agem unidos, como um corpo orgânico, para que se manifeste com maior evidência a comunidade da Igreja e para que o apostolado seja mais eficaz.

 

d) Os leigos, quer se ofereçam espontaneamente quer sejam convidados à ação e à direta colaboração com o apostolado hierárquico, trabalham sob a superior orientação da mesma hierarquia, a qual pode aprovar essa cooperação com um mandato explícito” (AA 20).

 

3

 

O ESPÍRITO DA LEGIÃO

 

            O espírito da Legião é o próprio espírito de Maria, de quem os legionários se esforçarão, de modo particular, por adquirir a profunda humildade, a obediência perfeita, a doçura angélica, a aplicação contínua à oração, a mortificação universal, a pureza perfeita, a paciência heróica, a sabedoria celeste, o amor corajoso e sacrificado a Deus e, acima de tudo, a sua fé, virtude que só ela praticou no mais alto grau, jamais igualado. Inspirado nesta fé e neste amor de Maria, a Legião lança-se a toda a tarefa, seja ela qual for, “sem alegar impossibilidades, porque julga que tudo lhe é possível e permitido” (Imitação de Cristo, L. III: 5).

 

“O modelo perfeito desta vida espiritual e apostólica é a bem-aventurada Virgem Maria, Rainha dos Apóstolos: levando na terra uma vida semelhante à do comum dos homens, cheia de cuidados


[Capítulo 4      Serviço Legionário      página 13]

 

domésticos e de trabalhos, a todo o momento se mantinha unida a seu Filho e de modo singular cooperou na obra do Salvador... Prestem-lhe todos um culto cheio de devoção e confiem à sua solicitude materna a própria vida e apostolado” (AA 4).

 

4

 

SERVIÇO LEGIONÁRIO

 

1. O legionário deve “revestir-se da armadura de Deus” (Ef 6, 11).

 

A Legião Romana, cujo nome foi adotado pela organização, atravessou os séculos com uma gloriosa tradição de lealdade, de coragem, de disciplina, de resistência e de triunfos, embora a serviço de causas por vezes indignas, ou, pelo menos, puramente terrenas (Conferir Apêndice 4: A Legião Romana). Evidentemente que a Legião de Maria não pode apresentar-se à sua Rainha com menos virtudes que a Legião Romana, como se fosse uma jóia, mas sem as pedras preciosas que a enfeitam. As velhas virtudes daquele exército são, por conseguinte, o mínimo exigido para o serviço legionário.

 

S. Clemente, que foi convertido por S. Pedro e trabalhou com S. Paulo, propõe a Legião Romana como modelo a ser imitado pela Igreja.

 

“Quem são os inimigos? São os perversos que resistem à vontade de Deus. Lancemo-nos pois, resolutamente na batalha de Cristo e sujeitemo-nos às suas gloriosas ordens. Atentemos bem para os que servem na Legião Romana, debaixo das autoridades militares e notemos a sua disciplina, a sua prontidão, a sua obediência na execução das ordens. Nem todos são prefeitos ou tribunos ou centuriões ou chefes de cinqüenta homens ou de outro grau inferior de autoridade. Mas cada homem, na sua escala, executa as ordens do Imperador e dos seus Oficiais superiores. O grande não pode existir sem o pequeno, nem o pequeno, sem o grande. Uma certa unidade orgânica liga todas as partes, de modo que cada uma ajuda as demais e é ajudada por todas. Tomemos o exemplo do nosso corpo. A cabeça não é nada sem os pés e os pés não são nada sem a cabeça. Mesmo os mais pequenos órgãos do nosso corpo são necessários e de grande

 


[Capítulo 4      Serviço Legionário      página 14]

 

valor para o corpo inteiro. Com efeito, todas as partes trabalham unidas, em mútua dependência, e aceitam uma obediência comum para bem de todo o corpo” (S. Clemente, Papa e Mártir: Epístola aos Coríntios (AD. 96), cap. 36 e 37).

 

2. O legionário deve ser “uma hóstia viva, santa, agradável a Deus... não conformado com este século” (Rm 12, 1-2).

 

Deste alicerce, brotarão, no legionário fiel, virtudes tanto mais elevadas, quanto mais sublime é a sua causa, e, acima de tudo, uma nobre generosidade que será o eco das palavras de Santa Teresa d’Ávila: “Receber tanto e dar tão pouco em troca! Oh! É um martírio que me leva à morte”. Contemplando o Senhor Jesus crucificado que ofereceu por ele o último suspiro e a última gota de sangue, o legionário deverá esforçar-se por reproduzir no seu apostolado uma doação completa semelhante.

 

“Diz-me, meu povo: que mais devia eu ter feito pela minha vinha, além do que fiz?” (Is 5, 4).

 

3. O legionário não deve furtar-se ao “trabalho e à fadiga” (2Cor 11, 27).

 

Como recentes acontecimentos comprovam, haverá sempre lugares na terra, em que o zelo católico deve estar preparado para enfrentar a tortura ou a própria morte. Assim muitos legionários passaram o limiar da glória de maneira triunfal. Mas, em geral, a dedicação do legionário encontrará um campo de ação mais modesto, embora lhe ofereça ampla oportunidade para um heroísmo pacífico, que não será por isso, menos verdadeiro. O apostolado da Legião obrigará o contato com muitos que, preferindo ficar longe de qualquer influência salutar, manifestarão o seu desagrado ao receber a visita daqueles cuja única missão é espalhar o bem. É claro que todos poderão ser conquistados, mas somente o serão, à custa de um trabalho corajoso e paciente.

 

Olhares malévolos, injúrias e repulsas, caçoadas e críticas agressivas, o cansaço do corpo e do espírito, ânsias torturantes provenientes de insucessos e de dolorosas ingratidões, frio cortante, chuva que cega, lama e vermes, mau cheiro, ruas escuras, ambientes asquerosos, renúncia voluntária a prazeres legítimos, aceitação do sofrimento, próprio a todo o trabalho de apostolado, a angústia


[Capítulo 4      Serviço Legionário      página 15]

 

provocada em toda a alma delicada, perante a falta de religião e a libertinagem, a dor de quem partilha sinceramente o sofrimento do próximo – tudo isto não encerra encanto algum para a natureza; mas, suportado com doçura e até com alegria, levado com perseverança até o fim, aproximar-se-á, na balança divina, daquele amor, o maior de todos, que consiste em dar a vida pelo amigo.

 

“Que darei eu ao Senhor por todos os benefícios com que Ele me cumulou?” (Sl 116, 12).

 

4. O legionário deve “andar no amor, como também Cristo nos amou e se entregou a Si mesmo por nós” (Ef 5, 2).

 

O segredo do bom êxito junto do próximo está em estabelecer com ele um contato pessoal, contato de amor e de simpatia. Este amor deve ser mais do que aparência. Tem se de ser capaz de resistir às provas da verdadeira amizade, o que obrigará freqüentemente, a certo número de sacrifícios. Cumprimentar, em meios de certa distinção, alguém que pouco antes visitamos na cadeia; acompanhar publicamente pessoas andrajosas, apertar efusivamente mãos pouco limpas; compartilhar de uma refeição oferecida numa casa pobre ou suja: eis o que pode ser custoso para muitos. Mas, se assim não procedermos, a nossa amizade passará por simulação: perde-se o contato e a alma que estava a ser elevada afunda-se de novo na desilusão.

 

Na raiz de todo o trabalho verdadeiramente fecundo deve estar o firme propósito de uma doação total de nós próprios. Sem esta disposição, o apostolado não tem base. O legionário que delimita o seu zelo declarando: “Sacrificar-me-ei até aqui, mas não mais”, embora gaste grandes energias, realizará apenas um trabalho insignificante. Pelo contrário, se esta boa vontade existe, ainda que nunca ou só em pequena escala, seja chamada a atuar, não deixará de ser poderosamente produtiva em grandes obras.

 

“Jesus respondeu-lhe: darás a tua vida por Mim? (Jo 13, 38).

 

5. O legionário deve “acabar a sua carreira” (2Tm 4, 7).

 

Assim, o serviço a que a Legião chama os seus soldados, não tem limites nem restrições. Não se trata de um simples conselho de perfeição, mas de uma necessidade, porque, se não visamos a um tal objetivo, a perseverança no organismo é impossível. Man-


[Capítulo 4      Serviço Legionário      página 16]

 

ter-se durante uma vida inteira, no trabalho de apostolado, constitui por si mesmo, heroísmo que só será atingido por uma série contínua de atos heróicos que encontram a sua recompensa, na própria perseverança.

 

Mas a perseverança não é uma característica própria só do indivíduo. Todo e cada  um dos múltiplos deveres da Legião deve levar o cunho de um esforço constante. Mudanças acontecerão necessariamente: pessoas e lugares diferente que se visitam, trabalhos que terminaram, substituídos por novos empreendimentos. Tudo isto, porém, é o resultado da variação constante da vida e não o fruto de inconstância caprichosa e de uma curiosidade sedenta de novidade, que acaba por arruinar a melhor disciplina. Receosa deste espírito de instabilidade, a Legião apela incessantemente para um espírito cada vez mais firme dos seus membros, mandando-os depois de cada reunião para as suas tarefas, levando consigo uma senha imutável: “Firme!”

 

A execução perfeita depende de um esforço contínuo que, por sua vez, é o resultado de uma vontade indomável de vencer. Para obter esta firmeza da vontade é essencial nunca ceder, nem pouco, nem muito. Por isso a Legião impõe a todos os seus ramos e a todos os seus membros, uma atitude firme que não combine com a aceitação de qualquer derrota ou com a tendência que leve a qualificar este ou aquele pormenor do trabalho legionário com os termos de “prometedor”, “pouco prometedor”, “desesperador”, etc. A facilidade de classificar de “desesperador”, este ou aquele caso, acaba permitindo que uma alma de preço infinito continue livre e desenfreadamente a sua corrida descuidada para o inferno. Além disso, esse comportamento mostra que existe um desejo irresponsável de mudanças e de progresso visível, que tende a substituir o motivo mais sublime do apostolado, por outro menos elevado. E então a não ser que a semente brote debaixo dos pés do semeador, surge o desânimo e cedo ou tarde o trabalho é abandonado.

 

Mais ainda: a Legião declara com insistência que o ato de classificar qualquer caso de desesperado enfraquece automaticamente a atitude a assumir perante outros casos. Consciente ou inconscientemente, iniciar-se-á qualquer trabalho com espírito de dúvida, perguntando-nos se vale ou não o esforço a ser empregado. A menor sombra de dúvida paralisa a ação. E o pior é que a fé deixará de atuar com a intensidade que se espera dela nos empreendimentos da Legião, pois apenas se lhe permite modesta interferência, quando alguma coisa parece razoável. Então a fé, bloqueada dessa maneira e barrada as suas resoluções, apare-


[Capítulo 4      Serviço Legionário      página 17]

 

cerão imediatamente a timidez natural, a mesquinhez, a prudência do mundo, até ali abafadas, e a Legião vai se encontrar diante de um serviço feito por acaso ou indiferente, que constitui oferta vergonhosa, indigna do Céu.

 

Eis porque a Legião não se interessa senão secundariamente pelo programa de trabalho; ela se preocupa em primeiro lugar, com a intensidade do ardor colocado na sua realização. Não exige dos seus membros, riqueza ou influência, mas uma fé firme, não exige grandes feitos, mas, unicamente um esforço que não esmoreça; não exige talento, mas um amor que nunca se satisfaça; não exige uma força gigantesca, mas uma disciplina contínua. O trabalho do legionário deve ser inflexível e firme, recusando-se sempre a admitir qualquer desânimo. No momento da crise, deve ser uma rocha e em todos os momentos, constante. Deve esperar o bom êxito de maneira humilde, mas nunca ser seu escravo. Na luta contra os insucessos, deve ser um corajoso combatente, jamais desanimando, colocando-se sempre acima das dificuldades e monotonias, porque elas lhe oferecem ocasião de provar a sua energia e a sua fé. Pronto e resoluto, se o chamam; sempre alerta, quando na reserva; e mesmo sem combate, sem inimigo à vista, sempre de sentinela, pela causa de Deus. Com o coração cheio de ambições insaciáveis, mas contente com a função humilde de tapar uma brecha; nenhum trabalho excessivo; nenhuma tarefa desprezível demais; em tudo, a mesma cuidadosa atenção, a mesma paciência inesgotável, a mesma coragem férrea; em cada tarefa a marca profunda da mesma firmeza inalterável. Sempre a serviço do próximo, sempre à disposição dos fracos para os ajudar a atravessar as horas difíceis de desânimo, sempre de guarda, à espera do momento em que surpreenda naquele que até então teimava no erro, um sinal de sensibilidade; e sempre incansável à procura dos transviados. Esquecido de si mesmo: permanecendo junto da cruz de seus irmãos e não abandonando o seu posto, senão quando tudo estiver consumado.

 

Nunca o desânimo deve penetrar nas fileiras de uma associação consagrada à “Virgem Fiel” e que – para honra ou desonra – usa o seu nome.

 

5

 

ESPIRITUALIDADE DA LEGIÃO

 

As orações da Legião refletem os princípios básicos da sua espiritualidade. A Legião alicerça-se, em primeiro lugar, numa


[Capítulo 5      Espiritualidade da Legião      página 18]

 

inabalável Fé em Deus e no amor que Ele dedica a Seus filhos, de cujos esforços quer tirar motivo de glória. Por isso, deseja Deus purificá-los e torná-los fecundos e duradouros. Quando nos deixamos dominar pela indiferença ou por uma ansiedade febril, é porque pensamos que Ele não passa de mero espectador do nosso trabalho. Deveríamos antes tomar consciência de que, se as boas intenções brotam em nós, é porque Ele aí as semeou e só frutificarão, se a sua virtude nos amparar a todo o momento. Deus se preocupa mais com o bom êxito do nosso trabalho do que nós próprios: esta ou aquela conversão, em que nos empenhamos, deseja-a Ele infinitamente mais do que nós. Queremos ser santos? Por isso, suspira Ele mil vezes mais do que nós mesmos.

 

A convicção da colaboração onipotente de Deus, bondoso Pai, no trabalho da santificação pessoal e no serviço a favor do próximo, deve constituir o apoio fundamental para os legionários. No caminho do bom êxito, só pode haver um obstáculo: a falta de confiança. Tenhamos fé bastante e Deus se servirá de nós para conquistar o mundo.

 

“Porque todo aquele que nasceu de Deus vence o mundo; e esta é a vitória que vence o mundo, a nossa fé” (1Jo 5, 4).

 

Acreditar quer dizer “abandonar-se” à própria verdade da palavra de Deus vivo, sabendo e reconhecendo humildemente “quanto são impenetráveis os seus desígnios e desconhecidos os seus caminhos” (Rm 11, 33). Pela eterna vontade do Altíssimo, veio Maria a encontrar-se, por assim dizer, no próprio centro dos “desconhecidos caminhos” e dos “impenetráveis desígnios” de Deus e conforma-se a eles na obscuridade da fé, aceitando plenamente e com o coração aberto, tudo quanto é disposição dos desígnios divinos (RMat. 14).

 

1. Deus e Maria

 

Abaixo de Deus, é sobre a devoção a Maria, “maravilha inefável do Altíssimo” (Pio IX), que a Legião se fundamenta. Mas qual a posição de Maria em relação a Deus? Como todos os mortais foi tirada do nada; e embora Deus a sublimasse a um “estado de graça imenso e inconcebível”, diante do Criador Ela não passa do nada. Na verdade ela é, por excelência, a Sua criatura porque Ele a trabalhou mais que nenhuma outra. Quanto mais Deus opera maravilhas em Maria, tanto mais Ela se torna obra das Suas mãos.

 

Que grandes prodígios não realizou em seu favor!


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Com a idéia do Redentor, ela esteve presente no pensamento de Deus desde toda a eternidade. Associou-a aos secretos desígnios dos Seus planos de graça, tornando-a a verdadeira Mãe do Seu filho e daqueles que a Seu Filho estão unidos. Fez todas estas coisas porque, em primeiro lugar, Ele receberia de Maria, um ganho superior ao de todas as criaturas reunidas; e ainda porque estava, no Seu plano, de maneira inatingível às nossas pobres inteligências, aumentar por este meio, a glória que de nós próprios havia de receber. Assim, a oração e o serviço amoroso com que testemunhamos a nossa gratidão a Maria, nossa Mãe e auxiliadora da nossa salvação, não podem representar prejuízo para Aquele que assim a criou. O que damos a Maria não vai menos direta e inteiramente para Ele; não apenas é transmitido na sua integridade, mas acrescentado com os méritos da intermediária. Maria é mais do que uma fiel mensageira. Constituída por Deus, elemento vital do Seu plano de misericórdia, a sua presença acrescenta ao mesmo tempo, a glória de Deus e a nossa graça.

 

Assim como foi do agrado do eterno Pai receber por intermédio de Maria, as homenagens que Lhe são dirigidas, assim se dignou, por Sua grande misericórdia, escolher Maria para ser o canal pelo qual serão derramadas sobre a humanidade as diversas demonstrações da Sua onipotência e generosa bondade, começando pela causa de todas elas – a segunda Pessoa divina, encarnada, nossa verdadeira vida, nossa única salvação.

 

“Se quero tornar-me dependente da Mãe é para me tornar o escravo do Filho. Se desejo tornar-me sua propriedade é para prestar a Deus com mais segurança, a homenagem da minha sujeição” (Sto. Ildefonso).

 

2. Maria, Medianeira de todas as graças

 

A confiança da Legião em Maria é ilimitada, porque sabe que, por decreto divino, o seu poder não tem limite. Deus deu a Maria tudo quanto lhe podia dar. Tudo o que ela podia receber, recebeu-o plenamente. Deus constituiu-a para nós um meio extraordinário de graça. Atuando em união com ela, aproximamo-nos mais de Deus; e por isso adquirimos mais abundantes graças, visto nos colocarmos na própria corrente da graça, pois Maria é a esposa do Espírito Santo, o canal de todas as graças merecidas por Jesus Cristo. Nada recebemos que não devamos a uma positiva intercessão da sua parte. Não se contenta com transmitir-


[Capítulo 5      Espiritualidade da Legião      página 20]

 

nos tudo: tudo nos obtém. Penetrada de uma fé viva nesta função medianeira de Maria, a Legião impõe-na aos seus membros como uma devoção especial.

 

“Julgai com que amor ardente quererá Deus que honremos Maria, pois derramou nela a plenitude dos Seus dons, de tal sorte que tudo que possuímos, esperança, graça, salvação, tudo, – não duvidemos disso – tudo vem dela para nós” (S. Bernardo: Sermo de Aquaeductu).

 

3. Maria Imaculada

 

O segundo aspecto da devoção da Legião a Maria é o culto da Imaculada Conceição. Logo na primeira reunião os membros rezaram e deliberaram em volta de um altarzinho da Imaculada Conceição, idêntico àquele que hoje forma o centro de todas as reuniões legionárias. Além disso o primeiro sopro de vida da Legião foi uma jaculatória em honra desse privilégio de Nossa Senhora, que constitui a preparação para todas as dignidades e privilégios que depois lhe foram concedidos.

 

Deus já tinha se referido à Imaculada Conceição, quando, no Gênesis, nos prometeu Maria. Este privilégio faz parte integrante de Maria: Maria é a Imaculada Conceição. Com este privilégio, a Sagrada Escritura anuncia as suas celestes conseqüências: a Maternidade Divina de Maria, o esmagamento da cabeça da Serpente, pela Redenção e, em relação aos homens, a Sua Maternidade espiritual.

 

“Eu porei inimizade entre ti e a mulher e entre a tua descendência e a dela: ela te esmagará a cabeça ao tentares mordê-la no calcanhar” (Gn 3, 15). É nestas palavras dirigidas pelo Onipotente a Satanás, que a Legião procura e encontra a confiança e a força na guerra contra o pecado. Ela aspira, por isso, de todo o coração, a tornar-se plenamente a descendência eleita de Maria, porque só assim terá o penhor da vitória: quanto mais os seus membros se tornarem verdadeiros filhos da Imaculada, tanto mais aumentará a sua hostilidade contra as potências do inferno e tanto mais completa será a sua vitória.

 

“A Sagrada Escritura, no Velho e no Novo Testamento e a venerável Tradição, mostram, de modo progressivamente mais claro, e de certa forma nos apresentam o papel da Mãe do Salvador na economia da salvação. Os livros do Antigo Testamento descrevem


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a história da salvação, na qual se vai preparando lentamente a vinda de Cristo, ao mundo. Esses antigos documentos, tais como são lidos na Igreja e interpretados à luz da plena revelação posterior, vão pondo cada vez mais em evidência a figura de uma mulher, a Mãe do Redentor. Vista sob esta luz, Maria encontra-se já profeticamente delineada na promessa da vitória sobre a serpente (cfr. Gn 3, 15), feita aos primeiros pais caídos no pecado” (LG 55).

 

4. Maria, nossa Mãe

 

Se pretendemos a herança de filhos, devemos estimar a maternidade que nos dá direito a ela. O terceiro aspecto da devoção a Maria consiste em honrá-la como nossa verdadeira Mãe, que de fato o é.

 

Maria tornou-se a Mãe de Jesus Cristo e nossa Mãe no momento em que, respondendo à saudação do Anjo, exprimiu o seu humilde consentimento: “Eis aqui a escrava do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra” (Lc 1, 38). A sua maternidade foi proclamada, no momento em que atingiu a sua completa expansão, isto é, quando a Redenção se consumava. No meio das dores do Calvário disse-lhe Jesus do alto da Cruz: “Mulher, eis aí o teu filho” e a S. João: “Eis aí a tua Mãe” (Jo 19, 26-27). Na pessoa de S. João, estas palavras foram dirigidas a todos os eleitos. Cooperando plenamente pelo seu consentimento e pelas suas dores neste nascimento espiritual da humanidade, Maria tornava-se no mais pleno e perfeito sentido, nossa Mãe.

 

Visto que somos seus verdadeiros filhos, devemos nos comportar como tais e, como autênticas criancinhas, depender inteiramente dela. Devemos pedir-lhe que nos alimente, nos guie, nos instrua, cure os nossos males, console as nossas mágoas, nos aconselhe nas dúvidas e nos chame quando nos extraviarmos; de maneira que, inteiramente entregues aos seus cuidados, cresçamos na semelhança do nosso irmão mais velho, Jesus, e participemos da sua missão de combate e vitória sobre o pecado.

 

“Maria é Mãe da Igreja não só por ser Mãe de Jesus Cristo e a sua mais íntima colaboradora ‘na nova Economia, quando o Filho de Deus assume dela a natureza humana, para, mediante os mistérios da sua carne, libertar o homem do pecado’, mas também porque ‘brilha para toda a comunidade dos eleitos, como modelo de virtude’. Como, na verdade, cada mãe humana não pode limitar a sua


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missão à geração de um novo homem, mas deve alargá-la à nutrição e à educação dos filhos, também assim se comporta a bem-aventurada Virgem Maria. Depois de ter participado do sacrifício redentor do Filho, e de maneira tão íntima que lhe fez merecer ser por ele proclamada Mãe não só do discípulo João, mas – seja consentido afirmá-lo – do gênero humano, por este de algum modo representado, Ela continua agora no céu a cumprir a sua função materna de cooperadora no nascimento e no desenvolvimento da vida divina em cada alma dos homens remidos. Esta é uma consoladora verdade que, por livre consentimento do sapientíssimo Deus, faz parte integrante do mistério da salvação humana: por isso ele deve ser considerada como de fé por todos os cristãos” (SM).

 

5. A devoção legionária, raiz do seu apostolado

 

Um dos mais queridos deveres da Legião consistirá em manifestar uma sincera devoção à Mãe de Deus. Isso só poderá ser realizado por intermédio dos seus membros, estando pois cada um deles obrigado a trabalhar nesse sentido, através de sérias meditações e zelosas práticas.

 

Ora, para que esta devoção seja, em verdade, um tributo da Legião, deve constituir uma obrigação essencial para a qual devem concorrer todos em perfeita unidade – obrigação tão importante como a da reunião semanal ou a do apostolado: eis aqui um ponto em que nunca será demais insistir.

 

Mas esta unidade é extremamente delicada, pois depende, dentro de certa medida, da colaboração de cada membro, que pode infelizmente comprometê-la. Compete a cada um o dever de velar cuidadosamente por ela. Se esta unidade falhar, se os legionários não forem como que “pedras vivas de uma construção, um edifício espiritual” (1Pd 2, 5), uma parte vital da estrutura da Legião será mutilada. Se as pedras vivas não se assentarem de maneira conveniente, o sistema legionário caminhará para a ruína e não abrigará nem conseguirá reter os seus filhos, senão com dificuldade. E não será mais aquilo para o que foi criado: um lar de nobres e santas virtudes, um ponto de partida para decisões heróicas.

 

Ao contrário, se todos formarem um bloco no cumprimento perfeito deste dever do serviço legionário, não só a Legião se distinguirá entre todas as organizações pela sua elevada devoção a Maria, mas se distinguirá também por uma maravi-


[Capítulo 5      Espiritualidade da Legião      página 23]

 

lhosa unidade de espírito, de fim e de ação. Esta unidade é tão preciosa aos olhos de Deus que a revestiu de um irresistível poder. Se, para o indivíduo, a verdadeira devoção a Maria é um canal extraordinário de graça, que não será ela para uma organização que persevera, num mesmo espírito, em oração, com aquela (At 1, 14) que tudo recebeu de Deus; que participa do seu espírito e entra plenamente nos desígnios divinos no que respeita à distribuição da graça?! Por acaso tal organização não será cheia do Espírito Santo? (At 2, 4). E de quantos “prodígios e milagres” não será capaz? (At 2, 43).

 

“A Virgem no Cenáculo, orando no meio dos Apóstolos e por eles, com uma intensidade indizível, atrai sobre a Igreja este tesouro, que nela abundará por todo o sempre: a plenitude do Espírito Consolador; dom supremo de Cristo” (JSE).

 

6. Oh! Se Maria fosse conhecida!

 

Ao sacerdote que luta quase desesperado num mar de indiferença religiosa, recomendamos as palavras do Padre Faber, encontradas no prefácio de “A Verdadeira Devoção a Maria” (fonte abundante de inspiração para a Legião), da autoria de S. Luís de Montfort. Esta página poderá servir de preparação para o exame das vantagens e benefícios que lhe podem advir da Legião. O Padre Faber afirma, em síntese, que Maria não é suficientemente conhecida e amada, com grave prejuízo para as almas: – “A devoção que se lhe consagra é pequena, magra e pobre. Não confia em si própria. Por isso Jesus não é amado, os hereges não são convertidos, a Igreja não é exaltada; por isso, as almas que poderiam ser santas enfraquecem e degeneram; os sacramentos não são devidamente freqüentados; as almas não são evangelizadas com ardente zelo apostólico. Jesus é pouco conhecido, porque Maria é posta em segundo plano. Milhares de almas se perdem, porque Maria lhes é recusada. E esta sombra miserável e indigna, a que ousamos chamar a devoção à Virgem Santíssima, é a causa de todas estas misérias e prejuízos, males e omissões e fraquezas. Todavia, se tomarmos em devida consideração as revelações dos Santos, Deus insiste por uma devoção à Sua Mãe Santíssima, maior, mais larga, mais vigorosa, totalmente outra. Que alguém experimente esta devoção em si próprio, e a surpresa perante as graças que ela traz consigo e


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as transformações que produz na alma, vão convencê-lo da sua quase incrível eficácia como meio de obter a salvação dos homens e a chegada do Reinado de Jesus Cristo”.

 

“À Virgem poderosa é dado o poder de esmagar a cabeça da Serpente; às almas unidas a ela, é dado vencer o pecado. Devemos crer nisto com inabalável fé, com uma firme esperança”.

 

Deus que nos dar tudo; tudo depende agora de nós e de ti, por quem tudo é recebido e economizado, por quem tudo é transmitido, ó Mãe de Deus! Tudo depende da união dos homens com aquela, a quem Deus tudo confia” (Gratry).

 

7. Levar Maria ao mundo

 

Visto que a devoção a Maria realiza tais prodígios, a nossa preocupação deve consistir em tornar fecundo, semelhante instrumento; numa palavra, deve consistir em levar Maria ao mundo. Como conseguir isto com mais eficiência, senão por uma organização de apostolado? Uma organização leiga e, portanto ilimitada, quanto ao número dos seus membros; uma organização ativa, podendo por isso penetrar em toda parte, uma organização que ama Maria, com todas as forças e que se compromete a infundir esse amor em todos os corações, utilizando para isso todos os meios de ação.

 

Assim, usando o nome de Maria, com valor indizível, baseada numa confiança ilimitada e filial na sua Rainha, tornada mais sólida e firme pelo enraizamento profundo no coração de cada um, constituída por membros que trabalham em perfeita harmonia de lealdade e disciplina – a Legião de Maria não considera presunção, antes confiança legítima, o pensar que o seu sistema forma um poderoso mecanismo que, para envolver o mundo, exige apenas ser acionado pela mão da Autoridade. Maria se dignará então empregá-la como instrumento, para realizar nas almas, a sua obra maternal e levar avante a sua perpétua missão de esmagar a cabeça da serpente.

 

“Todo aquele que faz a vontade de Deus, esse é meu irmão e minha irmã e minha mãe” (Mc 3, 35). “Que prodígio e que honra! A que sublimidade de glória Jesus nos eleva! As mulheres proclamam bem-aventurada aquela que O deu à luz; e, todavia, nada as impede de participarem da mesma maternidade. É que o Evangelho nos fala aqui de uma nova forma de geração, de um novo parentesco” (S. João Crisóstomo).


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6

 

OS DEVERES DOS LEGIONÁRIOS PARA COM MARIA

 

1. Cada legionário terá, para com Maria, uma profunda devoção, incessantemente renovada por sérias meditações e zelosas práticas. Deve considerar esta devoção como um dos deveres legionários essenciais e, de todos, o mais importante. (Cf. Cap. 5: Espiritualidade da Legião, e Apêndice 5: Confraria de Maria, Rainha dos Corações).

 

A Legião tem o propósito de levar Maria ao mundo, porque considera este objetivo a forma infalível de ganhar o mundo para Jesus Cristo.

 

É evidente que o legionário que não tem Maria no coração, não pode participar da Sua obra. Está divorciado da finalidade da Legião. É um soldado desarmado, um elo partido, ou antes um braço paralisado – unido embora ao resto do corpo – mas sem ação, inútil para o trabalho.

 

A grande preocupação de todos os exércitos (e portanto da Legião) é a união dos soldados com o chefe, de maneira que o plano deste seja executado por todos prontamente. O exército age como um só homem. A isto, tende o mecanismo complicado dos exercícios de combate e a sua disciplina. Encontra-se, além disso, nos soldados de todos os grandes exércitos da história, uma dedicação apaixonada pelo seu chefe, paixão que tornava mais íntima a união entre eles e facilitava a aceitação dos sacrifícios exigidos pela execução do plano de combate. De tal chefe se poderia dizer que ele era a inspiração e a alma dos soldados, que vivia em seus corações, formando um só com todos os seus homens. Assim se explica a influência que exercia sobre os soldados; e isto, em certa medida, corresponde à verdade.

 

Esta união, porém, por mais perfeita que seja, não passa de sentimental ou mecânica. A relação entre o cristão e Maria, sua Mãe, não é assim. Dizer que Maria está na alma do legionário fiel seria exprimir uma união infinitamente menos real do que a existente de fato. A Igreja resume a natureza desta união nos louvores que tece a Maria, chamando-a “Mãe da Divina Graça”, “Medianeira de Todas as Graças”. Estes louvores exprimem um tão perfeito império sobre a vida da alma, que a mais estreita das uniões terrenas – a da mãe com o filho por nascer – seria ainda imperfeita para exprimir esta intimidade. Há, porém, fenômenos naturais


[Capítulo 6      Os deveres dos Legionários para com Maria      página 26]

 

que nos podem ajudar a compreender o lugar de Maria na distribuição da graça. O sangue, só pelo pulsar do coração, leva a vida a todo o corpo; os olhos são o meio necessário para nos comunicarmos com o mundo visível; a ave, mesmo batendo as asas, não pode elevar-se para o céu sem que o ar a sustenha. Da mesma maneira, de acordo com o plano divino, a alma, sem Maria, não pode voar até Deus ou realizar qualquer obra divina.

 

Esta dependência de Maria não é uma criação do sentimento ou da razão, é uma realidade cuja existência depende do plano divino e não da nossa inteligência. Existe, mesmo que não a conheçamos; mas pode e deve ser fortemente fortalecida pela nossa aceitação consciente. Da nossa união íntima com Maria, a quem S. Boaventura chama dispenseira do sangue do Senhor, hão de resultar maravilhas de santificação e uma fonte incrível de influência sobre as almas. Aquelas, a quem o ouro simples do apostolado não conseguir libertar do pecado, serão salvas, logo que Maria enfeite o ouro, com as jóias do Preciosíssimo Sangue, do qual dispõe livremente.

 

Comecemos, para isso, por nos consagrar fervorosamente a Maria; renovemos freqüentemente esta consagração por meio de uma fórmula breve que a resuma, tal como: “Eu sou todo vosso, ó minha Rainha e minha Mãe, e tudo quanto tenho vos pertence”. Que a alma ponha em prática, de maneira tão viva como contínua, o pensamento da influência constante de Maria na sua vida, que dela se possa dizer: “Assim como o corpo respira o ar, assim a alma respira Maria” (S. Luís Maria de Montfort).

 

Na Santa Missa, na sagrada comunhão, na adoração do Santíssimo, na reza do terço, na prática da via-sacra e de outras devoções, a alma legionária deve procurar identificar-se com Maria e meditar com Ela nos augustos mistérios da Redenção. É que esta Mãe, acima de tudo fiel, viveu estes mistérios com o Divino Salvador e neles desempenhou papel indispensável.

 

Imite-a e agradeça-lhe com ternura; alegre-se e entristeça-se com ela; consagre-lhe o que Dante chama de “longo estudo e o grande amor do seu coração”; esquecendo-se de si mesmo e dos seus recursos, fixe nela o seu pensamento durante a oração, no trabalho e em todos os atos da sua vida espiritual. Se assim proceder, o legionário encher-se-á de tal modo da imagem e do pensamento de Maria, que formará com ela uma só alma. Perdido assim na profundidade da alma da Mãe de Deus, o legionário partilhará da sua fé, da sua humildade e da pureza do seu Coração Imaculado e, conseqüentemente, do seu poder de oração; e


[Capítulo 6      Os deveres dos Legionários para com Maria      página 27]

 

há de transformar-se, com rapidez, em Cristo, objetivo supremo da vida de todos. Por outro lado, no seu legionário e por meio dele, Maria participa de todos os deveres legionários e ainda dispensa às almas, os seus cuidados maternais, de tal modo que em cada uma das almas, a quem o legionário se dedica e nos seus companheiros de trabalho, não só é vista e servida a pessoa do Nosso Senhor, mas é vista e servida através de Maria, com o mesmo amor primoroso e o mesmo maternal cuidado que outrora, ela consagrou ao corpo de seu Divino Filho.

 

Quando os seus membros se tornarem assim, cópias vivas de Maria, a Legião pode considerar-se, de verdade, Legião de Maria, cooperadora da sua missão e certa de que com ela vai triunfar. A Legião há de dar Maria ao Mundo, e esta há de iluminá-lo e inflamá-lo no mais ardente amor.

 

“Vivei alegremente com Maria, com ela suportai todas as aflições; trabalhai, recreai-vos e descansai com ela. Com ela procurai Jesus, levai-O em vossos braços; e, com Jesus e Maria, fixai a vossa residência em Nazaré. Ide com ela a Jerusalém, ficai junto da Cruz de Jesus, e sepultai-vos com Ele. Com Jesus e Maria ressuscitai e com Eles subi ao Céu. Com Jesus e Maria, vivei e morrei” (Tomás de Kempis: Sermão aos Noviços).

 

2. A imitação da humildade de Maria: raiz e instrumento da ação legionária

 

A Legião fala aos seus membros, uma linguagem que respira o ardor das batalhas. E com razão. Ela é o instrumento e a ação visível de Maria, que é como um exército em ordem de batalha, e que trava uma luta intensa pela salvação de cada ser humano. Além disso, a idéia de exército impressiona poderosamente as pessoas. O fato de o legionário se considerar soldado, o levará a cumprir, com uma seriedade militar, todos os seus deveres. Mas, como a luta, em que andam empenhados os legionários, não é deste mundo, devem travá-la conforme a tática do Céu. O fogo que arde nos corações dos verdadeiros legionários, brota sempre das cinzas, de qualidades modestas e desapreciadas pelo mundo; e, entre estas, ocupa lugar de destaque a virtude da humildade, tão incompreendida e desprezada e, todavia, fonte de nobreza e energia inconfundíveis para todos os que a procuram e praticam.

 

Na organização legionária, a humildade desempenha um papel único. Primeiramente, é um instrumento essencial ao apostolado. A realização e o progresso do contato pessoal, em


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que a Legião fundamenta o seu trabalho, em tão larga escala, exige operários de maneiras delicadas e modestas, qualidades que só podem brotar da verdadeira humildade de coração. Mas a humildade é, para a Legião, mais do que instrumento da sua ação externa: é a origem dessa ação. Sem humildade não pode haver ação legionária eficaz.

 

Jesus Cristo, diz S. Tomás de Aquino, recomendou-nos acima de tudo, a humildade, porque afasta o principal obstáculo à salvação dos homens. Todas as outras virtudes derivam dela o seu próprio valor. Só à humildade é que Deus concede os Seus favores, retirando-os logo que ela murcha e desaparece. A Encarnação, fonte de todas as graças, dependeu da humildade. Maria declara no Magnificat que Deus manifestou n’Ela o poder do Seu braço, isto é, exerceu n’Ela a Sua onipotência. E expõe o motivo. Foi a humildade que atraiu os Seus olhares e O fez descer à terra, para acabar com o velho mundo e inaugurar uma nova era.

 

Como poderá Maria ser modelo de humildade, se considerarmos que o seu grau de perfeição não pode ser medido, é quase infinito e ela bem o sabia? Era humilde porque sabia, também, que tinha sido remida mais perfeitamente que todos os filhos dos homens. Todas as maravilhas da sua extraordinária santidade devia-as aos méritos de seu Filho; e este pensamento vivia nela e nunca a largava. A sua inteligência sem par compreendia de maneira perfeita que, assim como tinha recebido mais do que ninguém, como ninguém estava em dívida para com Deus. Daí sua atitude de delicada e graciosa humildade, sem esforço nem interrupção.

 

Na escola de Maria, o legionário aprenderá que a essência da verdadeira humildade consiste em reconhecer com simplicidade, sem afetação, aquilo que realmente somos aos olhos de Deus; e em compreender que, por nós, nada somos e nada temos. Tudo que existe de bom em nós é puro dom de Deus: e este dom Ele pode aumentar, diminuir ou retirá-lo completamente, com a mesma liberdade com que no-lo concedeu. O legionário há de mostrar a sua sujeição, numa preferência evidente pelas tarefas humildes e pouco desejadas; há de mostrar também preferência na prontidão em aceitar desprezos e repulsas e, em geral, na maneira habitual de proceder, perante as manifestações da vontade de Deus, que há de ser o reflexo daquelas palavras de Maria: “Eis aqui a escrava do Senhor!” (Lc 1, 38).

 

A necessária união do legionário com a sua Rainha exige dele, não só o desejo profundo dessa união, mas a capacidade


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para a mesma. Uma pessoa pode querer ser um bom soldado e, no entanto, não ter jamais as qualidades necessárias que possam fazer dela um bom dente de engrenagem na máquina militar. Resultado: a união deste homem com o General é ineficaz, e impede a execução dos planos militares. De maneira semelhante, o legionário pode desejar ardentemente desempenhar uma parte importante nos planos de campanha da sua Rainha, mas ser, todavia, incapaz de receber o que Maria ardentemente deseja dar-lhe. No caso militar, a deficiência provém da falta de coragem, de inteligência, de aptidão física e de qualidades semelhantes. No legionário, a incapacidade provém da falta de humildade. O objetivo da Legião é a santificação dos seus membros e a irradiação dessa santidade sobre as almas. Ora, não pode haver santidade sem humildade. Além disso, a Legião exerce o seu apostolado com Maria e por Maria. Se não nos assemelharmos a Maria, em certa medida, não poderemos unir-nos a ela, e fraca será a semelhança, se lhe faltar a virtude característica da humildade. Se a união com Maria é a condição básica, indispensável, a raiz, por assim dizer, da ação legionária, então a humildade é o solo onde esta união deve mergulhar as suas raízes. Se o solo é pobre e árido, a vida legionária murcha e morre.

 

Segue-se, pois, que a batalha da Legião começa no coração de cada legionário. Este tem de travar combate consigo mesmo, esmagando decididamente o espírito de orgulho e de egoísmo.

 

Como é cansativa esta terrível batalha contra a raiz do mal que se encontra dentro de nós, e este constante esforço para atingir em tudo, a pureza de intenção! É a batalha de toda a vida. A confiança nos próprios esforços inutiliza a vida inteira, porque o “eu” infiltra-se mesmo nos combates contra si mesmo. De que valerão as próprias forças ao infeliz que se debate na areia movediça? É necessário um ponto de apoio firme.

 

Legionário, o seu sólido apoio é Maria. Firme-se nela com inteira confiança. Ela não lhe faltará, porque, está na humildade que lhe é indispensável. A prática fiel do espírito de dependência de Maria é o caminho real, simples e amplo da humildade, denominado por S. Luís de Montfort, “segredo da graça, por poucos conhecido, capaz de rapidamente e com um esforço mínimo nos esvaziar de nós mesmos, nos encher de Deus e nos tornar perfeitos”.

 

Medite esta verdade! O legionário, voltando-se para Maria, deve necessariamente virar as costas a si mesmo. Maria apodera-se deste movimento, elevar-o e torna-o instrumento sobrenatural de morte para o “eu”, cumprindo-se assim a severa, mas produtiva


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lei da vida cristã (Jo 12, 24-25). O calcanhar da humilde Virgem esmaga a serpente do amor próprio, com as suas múltiplas cabeças, que são:

 

a) A exaltação de si mesmo: é que, se Maria, tão rica em perfeições, a ponto de ser chamada pela Igreja “Espelho de Justiça”, e dotada de ilimitado poder no reino da graça, se ajoelha, no entanto, como a mais humilde serva do Senhor, qual não deve ser o lugar e a atitude do legionário?

 

b) O egoísmo: porque tendo-se dado a Maria com todos os seus bens, espirituais e temporais, para que deles disponha como for do seu agrado, o legionário continua, no entanto, a servi-la com o mesmo espírito de completa generosidade.

 

c) A auto-suficiência: porque o hábito de se apoiar em Maria leva inevitavelmente à desconfiança das próprias forças.

 

d) A elevada idéia que faz de si mesmo: porque o sentido da colaboração com Maria lhe traz a compreensão da sua própria incapacidade. A contribuição do legionário resume-se em lamentáveis fraquezas!

 

e) O amor próprio: com efeito, que achará em si mesmo digno de estima? O legionário, absorvido no amor e na admiração da sua Rainha, sente-se pouco inclinado a afastar-se dela para se contemplar a si próprio.

 

f) A admiração por si mesmo: porque, nesta aliança com Maria, devem prevalecer os mais altos ideais. O legionário modela-se por Maria e anseia pela sua perfeita pureza de intenção.

 

g) O próprio progresso: pensando como Maria, o legionário se ocupará só de Deus. Não há lugar para projetos fomentadores de orgulho ou desejo de recompensa.

 

h) A vontade própria: totalmente sujeito a Maria, o legionário desconfia dos incentivos das próprias inclinações e escuta atento as inspirações da graça.

 

No legionário que se esquece verdadeiramente de si mesmo, Maria não encontra obstáculo à Sua maternal influência. Despertará nele, energias e disposições para o sacrifício, que vão além das forças da natureza e fará dele um bom soldado de Cristo (2Tm 2, 3), preparado para o árduo serviço que a sua profissão exige.

 

“Deus alegra-se em trabalhar com o nada. Foi do nada que Ele criou todas as coisas, reveladoras do Seu poder infinito. Devemos ser imensamente zelosos da glória de Deus, mas convencidos, ao mesmo tempo, da nossa incapacidade em promovê-la. Afundemo-nos no abismo da nossa indignidade, refugiemo-nos na sombra espessa da nossa baixeza; esperemos calmamente que Deus se digne


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servir-se dos nossos esforços, como instrumentos da Sua glória. Para isso, lançará mão de meios completamente opostos àqueles que somos levados a esperar. Depois de Jesus Cristo, ninguém contribuiu mais para a glória de Deus, do que Maria; e, todavia, o único objeto de seus pensamentos era o aniquilamento próprio. A sua humildade parece que deveria constituir um obstáculo aos desígnios de Deus mas foi precisamente esta humildade que facilitou o seu cumprimento” (Grou: O interior de Jesus e Maria).

 

3. A genuína devoção a Maria obriga ao apostolado

 

Acentuamos em outra parte deste Manual que em Cristo, não podemos escolher o que nos agrada: não podemos aceitar o Cristo glorioso sem aceitar também, na nossa vida, o Cristo sofredor e perseguido. Só há um Cristo – e este indivisível. Temos de tomá-lO como Ele é. Se procurarmos n’Ele a paz e a felicidade, talvez verifiquemos que nos pregamos à Cruz. Os extremos tocam-se, sem separação possível: não há triunfo sem dor, nem coroa sem espinhos, nem glória sem amargura, nem calvário sem cruz. Estendendo a mão para colher um deles e vamos nos encontrar envolvidos ao mesmo tempo com o outro.

 

A Nossa Senhora aplica-se a mesma lei. Também não podemos dividir a sua vida em partes, para que cada um escolha a que mais lhe agrada. É impossível acompanhá-la nas suas alegrias, sem que o nosso coração se despedace com os seus sofrimentos.

 

Se quisermos, como S. João, o discípulo amado, trazê-la para nossa casa (Jo 19, 27), terá de ser tal qual ela é, na sua integridade. Preferir somente uma fase da sua vida é impossibilitar-se a recebê-la. A devoção a Maria, é claro, deve atender e procurar reproduzir cada uma das facetas da sua personalidade e da sua missão. O interesse principal não pode perder-se com o que é menos importante: considerá-la, por exemplo, como modelo perfeito, cujas virtudes devemos imitar, é bom; mas, se a devoção se limita a uma tal atitude, não passa de parcial e mesquinha. Não basta dirigir-lhe orações, mesmo que sejam em grande quantidade. No basta tão pouco conhecer e alegrar-se com as maravilhosas e inumeráveis atenções com que as Três Pessoas Divinas a rodearam e colocaram sobre ela, tornando-a assim, um reflexo das suas próprias qualidades. Tais homenagens pertencem-lhe de direito e lhe devem ser prestadas mas são, apenas, parte do todo. A devoção perfeita à mãe de Deus só se alcança pela união com ela. União significa necessariamente comunhão de vida com ela, e a


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sua vida não se resume na preocupação com as homenagens de admiração, mas na comunicação da graça.

 

A maternidade – primeiro de Cristo, depois, dos homens – foi a única razão de ser da sua vida e do seu destino. Para tal fim foi criada e preparada pela Santíssima Trindade, após deliberação eterna, como nota S. Agostinho. Assumiu sua admirável missão no dia da Anunciação, e desde então tem sido Mãe atenciosíssima no cumprimento dos seus deveres domésticos. Restringiram-se eles por algum tempo a Nazaré, mas em breve, o pequeno lar tornou-se o mundo inteiro, e seu Filho, o gênero humano. O seu zelo não diminuiu: a todos os instantes o seu trabalho doméstico prossegue e nada se pode fazer sem ela, nesta Nazaré imensa. Qualquer cuidado que nós pudermos dispensar ao Corpo Místico de Cristo é apenas um complemento aos cuidados que ela mesma lhe dedica. O apóstolo não faz mais do que associar-se às atividades maternais de Maria. E neste sentido Nossa Senhora poderia declarar: “Eu sou o Apostolado”, à semelhança do que outrora disse em Lurdes: “Eu sou a Imaculada Conceição”.

 

Sendo a maternidade das almas a sua função essencial, a sua verdadeira vida, segue-se que, sem participação nesta maternidade, não pode haver união real com ela. Seja-nos permitido, por conseqüência, declarar mais uma vez: a autêntica devoção a Maria conduz necessariamente ao apostolado. Maria sem maternidade e cristão sem apostolado são idéias semelhantes: tanto uma como a outra seriam incompletas, irreais, inconsistentes e falsas, para as intenções divinas.

A Legião não se baseia, portanto, como alguns pretendem, sobre dois princípios, Maria e o Apostolado, mas sobre um só princípio – Maria – o qual abrange, por si só, o apostolado e toda a vida cristã.

 

De boas intenções, diz o provérbio, o inferno está cheio. Elas de nada valem, se não nos moverem a uma atitude positiva, na vida. E isso pode acontecer com o oferecimento dos nossos trabalhos a Maria, se eles ficarem num compromisso só de palavras. Não se pense que as obrigações apostólicas hão de descer do céu, para pousarem de modo ostensivo sobre aqueles que se contentam em esperar, passivamente, os acontecimentos. É de se recear que semelhantes preguiçosos continuem indefinidamente no desemprego. O único meio eficaz de nos oferecermos a Maria como apóstolos é fazer apostolado. Dado este passo, Maria empolga a nossa atividade e incorpora-a na sua maternidade espiritual.

 

Acresce ainda que Maria não pode realizar a sua obra maternal sem este auxílio. Não irá longe demais esta afirmação?


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Como pode a Virgem poderosa depender da ajuda de pessoas tão fracas? No entanto, é verdade. A colaboração humana é um elemento necessário no plano divino; Deus só salva o homem pelo homem. Os tesouros de graça de Maria são superabundantes, mas não os distribuirá sem o nosso auxílio. Pudesse ela dispor do seu poder, conforme os desejos profundos do seu coração e o mundo se converteria rapidamente, num relance. Mas não! Tem de esperar que os homens se disponham a servi-la. Sem eles, não pode cumprir a sua maternidade espiritual, e as almas definham e morrem. Por isso, ela acolhe, com viva ânsia, e utiliza quantos se coloquem realmente ao seu dispor: não só os santos e competentes, mas até os enfermos e os incapazes. É tal a necessidade, que ninguém será rejeitado. Mesmo os mais pequenos podem ser transmissores do seu poder; e, com os melhores, que maravilhas não poderá fazer? Lembrem-se sempre desta imagem singela: vejam como o sol atravessa deslumbrante a janela límpida, e, como luta para atravessá-la, quando a encontra suja, para deixar passar um pouquinho de luz. Assim é com as almas.

 

“Jesus e Maria, eis o novo Adão e a nova Eva, a quem a árvore da cruz uniu na dor e no amor, para reparar a falta cometida no Paraíso pelos nossos primeiros pais. Jesus é a fonte e Maria o canal das graças, pelas quais renascemos e podemos reconquistar o nosso lar celeste. Bendigamos, juntamente com o Senhor, Aquela que Ele elevou à dignidade de Mãe de misericórdia, nossa Rainha, nossa Mãe amantíssima, Medianeira das Suas graças e Despenseira dos Seus tesouros. O Filho de Deus coroou-a de glória radiante e deu-lhe a majestade e o poder da Sua própria realeza. Unida ao Rei dos Mártires, como Mãe e colaboradora na obra tremenda da Redenção da humana raça, a Ele permanece unida para sempre, revestida de poder praticamente ilimitado, na distribuição das graças que brotam da Redenção. O seu império tem a vastidão do império do Seu Filho; nada escapa ao seu domínio” (Pio XII: Discursos de 21 de abril de 1940 e 13 de maio de 1945).

                

4. A intensidade do esforço no serviço de Maria

 

Em circunstância alguma, o espírito de dependência com relação a Maria deve constituir motivo para alguém se desculpar da falta de esforço ou da falta de método. Deve ser justamente o contrário. Porque trabalhamos com Maria e por ela, a nossa oferta


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há de ser a mais excelente que se possa apresentar. Devemos trabalhar com energia, destreza e primor.

 

De vez em quando, é preciso censurar certos núcleos ou membros, que parece não desenvolverem esforço suficiente no cumprimento da sua tarefa semanal, ou nos trabalhos de extensão ou recrutamento. Às vezes os interessados respondem: “Eu não conto com as próprias forças! Confio inteiramente a Nossa Senhora o cuidado de levar avante a tarefa imposta e colher, a seu modo, resultados satisfatórios”. Acontece muitas vezes que tal resposta procede de pessoas fervorosas, que são levadas a atribuir uma espécie de virtude à própria inatividade, como se método e esforço significassem uma fé mesquinha. Há também o perigo de se pensar que, se nós somos instrumentos de um poder imenso, não interessa muito o grau do nosso esforço. Alguém perguntará por que motivo deverá o pobre sócio de um milionário, esgotar-se com a preocupação de ajuntar alguns magros reais, ao fundo comum que já está tão enriquecido?

 

Torna-se necessário, por isso, insistir num princípio que deve dirigir a atitude do legionário no seu trabalho. É este: os legionários não são nas mãos de Maria simples instrumentos sem atividade própria. São verdadeiros cooperadores dela no enriquecimento e resgate das almas. Nesta cooperação, cada um supre o que o outro não pode dar. O legionário dá-se todo, ação e talentos; Maria dá-se a si mesma, com toda a sua pureza e poder. Cada um é obrigado a contribuir, sem reserva, para a obra comum. Se o legionário se entrega a esta colaboração com honra e generosidade, Maria nunca faltará. Podemos, por isso, afirmar que o bom êxito do empreendimento depende inteiramente do legionário, de maneira que este deve se dedicar a ele com toda a inteligência e com todas as forças, aperfeiçoadas por um método cuidadoso e uma perseverança incansável.

 

Mesmo que soubéssemos que Maria obteria, independentemente do legionário, o resultado suspirado, mesmo nesse caso, deveríamos desenvolver plenamente os nossos esforços, como se tudo dependesse deles. Ao mesmo tempo que deposita uma ilimitada confiança no auxílio de Maria, o esforço do legionário deve elevar-se sempre ao máximo. A generosidade tem de igualar a sua confiança. O princípio da necessária e mútua influência, entre a fé ilimitada e o esforço intenso e metódico, é expresso pelos santos, quando declaram que devemos rezar como se tudo dependesse da oração e nada de nós próprios; e, ao mesmo tempo, agir como se tudo dependesse absolutamente do nosso esforço.

 

Não devemos, pois, medir a quantidade do esforço pela dificuldade da tarefa, nem nos perguntar qual o menor preço


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para se obter o fim desejado. Mesmo nos negócios materiais, o hábito de regatear leva a constantes reveses e ilusões. Em matéria sobrenatural, há de falhar sempre, porque afasta de nós a graça, da qual depende realmente, o êxito dos nossos trabalhos. Além disso, os juízos humanos não merecem inteira confiança: impossibilidades aparentes desaparecem logo que são enfrentadas, ao passo que o fruto que está quase à altura da mão, mas teima em fugir-lhe, será talvez colhido por outra pessoa. Na ordem espiritual, a lei do menor esforço precipita a alma de mesquinhez em mesquinhez, até cair finalmente na esterilidade total. Para o legionário evitar tão desagradáveis conseqüências, só lhe resta um meio: desenvolver em todas as tarefas, grandes ou pequenas, o máximo da sua energia. Talvez não seja necessária tal soma de esforços. Pode ser que o toque de um dedo baste para levar a obra ao fim; e, se fosse a realização da obra, o único objetivo, seria razoável e suficiente, um leve esforço; mas não mais do que isso. Como diz Byron, ninguém levanta a clava de Hércules para esmagar uma borboleta ou matar um mosquito.

 

Os legionários, porém, devem tomar consciência de que não é diretamente pelo bom êxito que trabalham; mas, antes, por Maria, independentemente da facilidade ou dificuldade da sua tarefa. A esta devem eles dar do melhor que possuem, quer ela seja notável ou insignificante. Hão de merecer, assim, a plena cooperação de Maria, que não se negará a realizar prodígios, se isso for preciso. O legionário não pode fazer grande coisa? Pois bem, se nisso puser toda a sua alma, Maria virá em seu socorro, com todo o seu poder, dando a um pequeno movimento, o efeito da força de gigante; e se, depois de haver feito quanto pôde, o legionário se encontrar a mil léguas do bom êxito, ela encurtará a distância e a fará desaparecer, alcançando pela sua colaboração, um resultado maravilhoso.

 

Mesmo que o legionário ponha em ação dez vezes mais de esforço do que o preciso para realizar um trabalho, nada se perdeu. Não trabalha ele por Maria? Não é ele um soldado ao serviço dos seus vastos desígnios, dos seus misericordiosos intentos? Maria há de receber com júbilo, o excedente deste esforço, multiplicá-lo-á abundantemente, para com ele, suprir as graves necessidades da família do Senhor. Nada do que entregamos à cuidadosa dona de casa de Nazaré, é perdido.

 

Mas se, pelo contrário, a contribuição do legionário é lamentavelmente inferior àquela que a sua Rainha tem direito de exigir dele, as mãos de Maria ficam como que amarradas e por


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isso, ficam impedidas de conceder generosamente os seus dons. O contrato de comunhão de bens, tão cheio de inúmeras e excepcionais possibilidades, entre Maria e o legionário, é anulado pela negligência, da qual este se torna culpado. E que triste perda, para as almas e para si mesmo, ser abandonado às próprias forças!

 

Inútil, pois, procurar desculpas para justificar esforços insuficientes ou maneiras desordenadas de agir, alegando inteira confiança em Maria. Muito fraca e desprezível deve ser a confiança que leva o legionário a recuar, perante o uso razoável das suas energias. Procura neste caso lançar aos ombros da sua Rainha o fardo que ele próprio pode levar. Que cavaleiro da antiguidade teria servido tão estranhamente a sua dama?

 

Por isso, como se nada tivéssemos dito a este respeito, recordemos o princípio fundamental da aliança do legionário com Maria: o legionário deve dar tudo quanto estiver a seu alcance. A função de Maria não consiste em completar aquilo que o legionário se recusa a fornecer. Ela não pode – a inconveniência é clara – dispensar o legionário do esforço e do método no trabalho, da paciência e da reflexão, de que é capaz, e com a qual tem obrigação de contribuir para o tesouro de Deus.

 

Maria deseja ardentemente dar, em grande quantidade, mas só pode agir assim, com as almas generosas. Desejosa de que os legionários, seus filhos, possam extrair graças preciosas das imensas riquezas do Seu coração, ela, usando as palavras do seu próprio Filho, convida-os “a servir com todo o coração, com toda a alma, com toda a mente e com todas as forças” (Mc 12, 30).

 

O legionário deve pretender unicamente de Maria que ela acrescente, purifique, aperfeiçoe, sobrenaturalize a sua atividade natural, e faça com que os seus fracos esforços sejam capazes de realizar aquilo que, aliás, lhe seria impossível: obras grandiosas em cuja realização, se preciso for, se hão de cumprir as palavras da Escritura: os montes serão arrancados e precipitados no mar, a terra será aplainada e os caminhos serão endireitados, para se facilitar a entrada no reino de Deus.

 

“Todos nós somos servos inúteis, mas servimos um Mestre sumamente econômico que tanto aproveita uma gota de suor da nossa fronte como uma gota de orvalho celeste. Nada desperdiça.

 

Não sei a sorte deste livro, nem se chegarei ao fim dele ou se chegarei ao final desta página. Sei, porém, o suficiente para empregar nele o resto das minhas forças e dos meus dias” (Frederico Ozanam).


[Capítulo 6      Os deveres dos Legionários para com Maria      página 37]

 

5. Os legionários devem praticar a Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem,

segundo São Luís Maria de Montfort

 

É para desejar que a prática da devoção mariana do legionário se revista daquela característica, que São Luís Maria de Montfort ensinou sob o nome de “Verdadeira Devoção” ou “Escravatura de Jesus em Maria”, e que resumiu nas suas obras: “Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem” e “O segredo de Maria” (Cf. Apêndice 5).

 

Esta devoção exige um contrato explícito com a Mãe de Deus, pelo qual nos entregamos inteiramente a ela, com todos os nossos pensamentos, ações e bens, espirituais e temporais, passados, presentes e futuros, não reservando para nós nem a mínima parcela. Numa palavra, o doador coloca-se numa situação idêntica à do escravo, que nada possui de seu, em total dependência e à inteira disposição de Maria.

 

Mas o escravo antigo era muito mais livre do que o escravo de Maria. O primeiro era senhor dos seus pensamentos, da sua vida interior e, portanto, livre em tudo o que o tocava de mais perto. A doação de nós mesmos a Maria abrange todas as coisas: cada um dos pensamentos e movimentos da nossa alma, as nossas riquezas escondidas e o mais íntimo do nosso ser. Tudo – até ao último suspiro – é entregue a Maria, para que o empregue para a glória de Deus. O nosso sacrifício a Deus é uma espécie de martírio, com Maria, servindo de altar. Assemelha-se ao sacrifício do próprio Cristo que, começado também no seio de Maria, publicamente confirmado em seus braços no dia da Apresentação, abrange todos os momentos da Sua vida e se completa no Calvário, na Cruz do Coração de Maria.

 

A Verdadeira Devoção abre por um ato formal de Consagração; consiste, porém, e principalmente em viver essa mesma consagração. Deve ser não um ato passageiro, mas um estado habitual da nossa alma. Se Maria não tomar posse de toda a nossa vida e não só de alguns minutos ou de algumas horas, a valor do ato de Consagração – mesmo freqüentemente repetido – não passa de uma oração passageira. É como árvore plantada que não lançou raízes.

 

Não quer isto significar que sejamos obrigados a pensar constantemente nessa Consagração. Assim como a vida física é regulada pela respiração ou pelo pulsar do coração, sem que disso tenhamos consciência, assim deve acontecer com a Verdadeira


[Capítulo 6      Os deveres dos Legionários para com Maria      página 38]

 

Devoção: atuar incessantemente na vida da alma, mesmo que não tenhamos consciência disso. Basta que, de tempos em tempos, recordemos os direitos de propriedade de Maria sobre nós, por meio de pensamentos, atos e jaculatórias apropriadas; que de maneira habitual, reconheçamos a nossa inteira dependência dela, sempre vagamente presente em nosso espírito; e que, o nosso comportamento seja uma conseqüência dessa consagração, em todas as circunstâncias da nossa vida.

 

O fervor, se acaso existe, pode ser proveitoso. Todavia, a sua ausência não afeta o valor da Devoção. Muitas vezes, até, o fervor amolece a piedade, enfraquecendo-a.

 

Notemos bem: a Verdadeira Devoção não depende de fervores ou de sentimentos de qualquer espécie. Como um grande edifício, ela pode, às vezes, ser abrasada pelos ardores do sol, enquanto os seus fundos alicerces se mantêm frios como a rocha, em que se assentam.

 

Em geral, a razão é fria; a melhor resolução da nossa vida pode ser glacial: a própria fé pode ser gelada como um diamante. No entanto, estes são os alicerces da Verdadeira Devoção. Sobre eles assentará com firmeza, e os gelos e as tempestades que desabam sobre as montanhas hão de deixá-la ainda mais forte.

 

As graças que têm acompanhado a prática da Verdadeira Devoção e o lugar que ocupa na vida espiritual da Igreja, parecem indicá-la, com razão, como uma autêntica mensagem celeste. Isto afirmava já São Luís Maria de Montfort. Ligava-lhe numerosíssimas promessas, cuja realização ficaria garantida a quantos cumprissem as condições estabelecidas.

 

Consultem a experiência; interroguem aqueles para quem a prática desta Devoção é mais do que um ato passageiro e superficial e verificarão com que profunda convicção falam dos seus benefícios. Perguntem a eles se não estão sendo vítimas dos sentimentos ou da imaginação. Hão de responder-lhes sempre, que os frutos são demasiado evidentes para admitir ilusões.

 

Se a soma das experiências daqueles que compreendem, ensinam e praticam a Verdadeira Devoção vale alguma coisa, parece indiscutível que esta Devoção aumenta consideravelmente a vida interior, imprimindo-lhe um caráter especial de generosidade e de pureza de intenção. Temos a sensação de sermos guiados e protegidos e a alegre certeza de tirarmos, desde então, o melhor proveito possível da nossa vida. Com ela enfrentamos sobrenaturalmente as mil e uma dificuldades da existência: a coragem se fortalece, a fé torna-se mais firme, fazendo-nos fiéis instrumentos de qualquer obra de Deus. Com ela, desenvolve-se


[Capítulo 6      Os deveres dos Legionários para com Maria      página 39]

 

em nós, uma ternura e sabedoria, que obriga a força a ocupar o lugar que lhe convém e desenvolve-se também uma suave humildade, guarda de todas as virtudes. Recebemos graças que temos de considerar extraordinárias. Sentimo-nos chamados, freqüentemente, a obras que ultrapassam os nossos méritos e dotes naturais. Com tal chamamento surgem auxílios que nos habilitam a carregar, sem desfalecimento, gloriosos e pesados fardos. Numa palavra, em troca de um esplêndido sacrifício que fizemos pela Verdadeira Devoção, entregando-nos a Maria como escravos de amor, ganhamos o cêntuplo prometido àqueles que se despojam de tudo, pela maior glória de Deus. Quando servimos, reinamos; quando damos, enriquecemo-nos; quando nos entregamos, vencemos.

 

Algumas pessoas parecem reduzir toda a sua vida espiritual, muito simplesmente, a uma questão egoísta de lucros e perdas. Ficam desconcertadas perante a idéia de abandonar a Maria, Mãe das almas, as suas riquezas espirituais. Ouve-se dizer: “Se eu der a Maria tudo o que me pertence, não poderá acontecer encontrar-me, à hora da morte, diante do Supremo Juiz, de mãos vazias, e por conseguinte, com um Purgatório necessariamente prolongado?” A resposta é simples e bela: “Não, de modo nenhum, uma vez que Maria assiste ao julgamento!” O pensamento contido nesta reflexão, é profundo.

 

Mas a hesitação em fazer a Consagração provém, na maioria das vezes, não tanto das nossas considerações puramente egoístas, como da nossa insegurança. Nós nos preocupamos com a sorte futura daqueles por quem temos obrigação de rezar – a família, os amigos, o Papa, a Pátria, etc. – se entregarmos a Maria todos os nossos tesouros espirituais. Ponhamos de lado tais receios e façamos ousadamente a nossa Consagração. Com Maria tudo está seguro. Ela é a guarda dos próprios tesouros de Deus e, por isso, também, capaz de guardar os tesouros daqueles que depositam nela a sua confiança. Lancemos, portanto, no seu coração excelso e generoso, a absoluta totalidade da nossa vida, com todas as responsabilidades, obrigações e compromissos. Nas suas relações conosco, Maria procede como se não tivesse outros filhos. A nossa salvação, a nossa santificação, as nossas múltiplas necessidades estão, indiscutivelmente, presentes no seu espírito. Quando rezamos pelas suas intenções, estejamos certos de que nós somos a sua primeira intenção.

 

Não é neste momento, em que aconselhamos o sacrifício, que convém provar que a Consagração é de fato lucrativa. Seria destruir os próprios alicerces da oferta e privá-la do caráter do sacrifício, de que depende o seu valor. Baste recordar que, em


[Capítulo 6      Os deveres dos Legionários para com Maria      página 40]

 

ocasião, uma multidão de dez ou doze mil pessoas se encontrava esfomeada em lugar deserto (Jo 6, 1-14). Uma só pessoa havia que levara, para comer, cinco pães de cevada e dois peixes. Pediram-lhe que os cedesse para o bem de todos. E ele o fez, generosamente. Os cinco pães e os dois peixes foram então abençoados pelo Senhor, partidos e distribuídos à multidão imensa, que comeu até se saciar e, no meio dela, o próprio doador. Os restos encheram, a transbordar, doze cestos! Suponhamos agora que o tal indivíduo tivesse dito: “Que são cinco pães e dois peixes para tanta gente? Além disso, eu preciso deles para os meus parentes que estão comigo, cheios de fome. Não os posso dar”. Mas não! Deu-os e recebeu ele e toda a família, da refeição milagrosa, muito mais do que havia entregue, com certo direito indiscutível sobre o conteúdo dos doze cestos, se acaso desejasse reclamá-lo.

 

É assim que Jesus e Maria tratam sempre a alma generosa que se entrega a eles com todos os seus bens, sem reservas nem condições. O dom da criatura, por eles divinamente multiplicado, basta para satisfazer as necessidades de uma multidão imensa. As nossas necessidades e intenções que, parece, deveriam sofrer com isso, são satisfeitas prodigamente, pela bondade divina.

 

Apressemo-nos, pois, a entregar a Maria os nossos pães e peixinhos: vamos depositá-los em seu colo, para que Jesus e ela os multipliquem e, com eles, saciem milhões de almas que morrem de fome, no árido deserto deste mundo.

 

Não vamos mudar a forma externa das nossas orações ordinárias, ou o curso das nossas ações de cada dia, pelo fato de nos havermos consagrado a Maria. Continuemos a empregar o tempo como antes e a rezar pelas nossas intenções habituais e particulares, sujeitos, porém, à aceitação da Santíssima Virgem. 

 

“Maria mostra-nos seu Divino Filho e dirige-nos o mesmo convite que outrora dirigiu aos servos de Caná: “Fazei tudo o que Ele vos disser” (Jo 2, 5). Se, obedecendo à sua voz, lançarmos nas talhas da Caridade e do Sacrifício a água sem sabor dos mil pormenores da nossa vida diária, renovar-se-á o milagre de Caná. A água converter-se-á em vinho delicioso, quer dizer, em graças de eleição para nós e para os outros” (Cousin).


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O LEGIONÁRIO E A SANTÍSSIMA TRINDADE

 

Não deixa de ser significativo o fato de o primeiro ato coletivo da Legião ter sido a invocação e a oração ao Espírito Santo, logo seguidas do Terço à Virgem e a seu Divino Filho.

 

Quando alguns anos mais tarde, se decidiu modelar o Vexillum, o Espírito Santo passou a ser a característica predominante do novo emblema. O projeto (coisa estranha!) havia sido fruto, não de uma preocupação teológica, mas artística. Tratava-se de transformar o estandarte da Legião Romana, que não tinha nenhum sentido religioso, em estandarte da Legião de Maria. A pomba substituiria a águia e a imagem de Nossa Senhora substituiria a do Imperador ou do Cônsul. Daí a representação final, em que o Espírito utiliza Maria como canal das Suas influências vivificadoras e toma posse da Legião.

 

A pintura da Tessera, mais tarde, veio ilustrar a mesma atitude de devoção: o Espírito Santo aparece pairando sobre a Legião. Por Seu poder onipotente se trava um combate sem fim: a Virgem esmaga a cabeça da Serpente, enquanto os seus batalhões avançam, vitoriosos, sobre as forças adversas.

 

Secundária, mas interessante, é a circunstância de a cor da Legião ser a cor vermelha e não a cor azul, como era lícito esperar. Assim foi decidido, em relação à cor do halo da imagem de Nossa Senhora, no Vexillum e na Tessera. Requeria o simbolismo a representação da Virgem, cheia do Espírito Santo e, por conseqüência aureolada de vermelho. Daqui surgiu a idéia de a cor da Legião ser a cor vermelha. A Tessera, em que a Senhora aparece radiante como a bíblica Coluna de Fogo e envolta nas chamas do Espírito Divino, sublinha ainda o mesmo pensamento.

 

Assim, ao compor a fórmula do Compromisso, impunha-se logicamente – embora de início causasse surpresa – que ela fosse dirigida ao Espírito Santo e não à Rainha da Legião. Batia-se assim na mesma tecla: o Espírito Santo é o regenerador do mundo, não havendo graça concedida aos indivíduos, por mínima que escape à Sua ação e Maria é sempre a Sua Medianeira. Por virtude do Espírito, o Eterno Filho de Deus faz-se homem no seio de Maria. O gênero humano uniu-se desta forma à Santíssima Trindade e Maria passou a ligar-se, por uma relação única e distinta, a cada uma das Pessoas Divinas. É um dever para nós procurar entrever esta tríplice relação. A compreensão


[Capítulo 7      O Legionário e a Santíssima Trindade      página 42]

 

do Plano Divino é sem dúvida uma grande graça, que não está fora do nosso alcance.

 

Insistem os Santos na necessidade de bem distinguir as Três Divinas Pessoas e de prestar a cada uma delas a devida atenção. A este respeito, o Credo Atanasiano (1) é absoluto e estranhamente ameaçador, pois se trata do fim último da Criação e da Encarnação – a glória da Santíssima Trindade.

(1) Profissão de Fé cuja forma surgiu com o I Concílio Ecumênico (Nicéia – ano 325); quando Santo Atanásio defendeu brilhantemente a divindade de Jesus contra aqueles que o consideravam uma simples criatura do Pai, inferior a Ele e não o Filho de Deus.

 

Mas como poderemos nós penetrar, embora obscuramente, em tão incompreensível mistério? Com certeza, só pela luz divina, que podemos solicitar confiadamente da Virgem Maria, a quem pela primeira vez foi exposto, com clareza o mistério da Trindade. A revelação teve lugar no momento histórico da Anunciação. Pelo seu Arcanjo, a Trindade Santíssima assim se manifestou a Maria: “O Espírito Santo descerá sobre ti e a virtude do Altíssimo te cobrirá com a Sua sombra. E, por isso mesmo, o Santo que há de nascer de ti será chamado Filho de Deus” (Lc 1, 35).

 

Aparecem nesta revelação de modo evidente as Três Divinas Pessoas. Primeiro, o Espírito Santo, a quem é atribuída a obra da Encarnação; em seguida, o Altíssimo,o Pai d’Aquele que há de nascer; e finalmente a Criança que “será grande e chamada Filho do Altíssimo” (Lc 1,32).

 

A consideração das diferentes relações da Virgem com as Divinas Pessoas vai nos ajudar a distingui-las de maneira mais perfeita.

 

A relação de Maria com a Segunda Pessoa Divina – a maternidade – é a mais acessível ao nosso entendimento. A sua maternidade, porém, é de natureza mais íntima, mais contínua e infinitamente mais elevada que a maternidade humana normal. No caso de Jesus e de Maria, a união das almas ocupa o primeiro plano, e a da carne, o segundo; de tal forma que, embora se tenham separado fisicamente na ocasião do nascimento de Jesus, a união dos dois não só não se interrompeu, como progrediu até, por graus incompreensíveis de intensidade, a ponto de Maria poder ser declarada pela Igreja, não apenas “aliada” da Segunda Pessoa Divina – Correndentora na obra da Salvação, Medianeira da Graça – mas de fato, “semelhante a Ele”.

 

Do Espírito Santo, Maria é comumente chamada, o templo ou o santuário. Semelhantes termos, todavia, não exprimem


[Capítulo 7      O Legionário e a Santíssima Trindade      página 43]

 

totalmente a realidade, a união íntima e profunda do Espírito Santo com a Virgem, união que a elevou à dignidade tão sublime que só Ele a excede. O Espírito Divino apossou-se de Maria, fez uma só coisa com ela, e animou-a de tal sorte que pode ser considerada a sua verdadeira alma. Maria não é um mero instrumento ou canal da Sua atividade divina; é, antes, a Sua Cooperadora inteligente, consciente, a ponto de se poder afirmar que a ação de Maria é a ação do Espírito Santo e que a rejeição da intervenção de Maria é a rejeição simples da intervenção do Espírito Divino.

 

O Espírito Santo é Amor, Beleza, Poder, Sabedoria, Pureza e tudo quanto é divino. Quando desce em plenitude a uma alma, desaparecem as dificuldades e os mais graves problemas encontram solução de acordo com a Vontade Divina. Aceitando a Sua colaboração, o homem entra no domínio da onipotência (Sl 77). Ora, uma das condições para O atrair a nós é a compreensão da relação da Virgem com Ele. Outra, porém, existe e vital, uma especial consideração pelo Espírito Santo como Pessoa real e distinta, com a Sua missão específica junto do gênero humano. Um tal apreço não conseguirá manter-se sem que o nosso espírito se volte com freqüência para Ele. Se lançarmos mão desta prática nas nossas devoções à Santíssima Virgem, todas elas se poderão orientar para o Espírito Santo. O Rosário, por exemplo, é uma oração que os legionários poderão utilizar especialmente desta forma. É que o Rosário constitui uma excelente devoção ao Espírito Santo, não só por ser a principal forma de oração a Nossa Senhora, como também pelo fato de conter os quinze mistérios em que se celebram as mais importantes intervenções do Espírito de Deus, no drama da Redenção.

 

A relação de Maria com o Eterno Pai é usualmente definida como a de Filha. Semelhante título propõe-se designar:

 

a) a posição de Maria como “a primeira de todas as criaturas, a mais grata Filha de Deus, a mais próxima e a mais querida”. (Newman);

 

b) a plenitude da sua união com Jesus, pela qual contraiu uma nova relação com o Pai (1), que lhe dá direito a ser chamada misticamente, a Filha do Eterno Pai;

(1) “Como Mãe de Deus, Maria contrai uma certa afinidade com o Pai” (Lépicier).

 

c) a semelhança sublime com o Pai, que a tornou capaz de dar ao mundo a Luz Eterna que nasce do seio deste Pai amoroso.

 

A designação de “Filha” talvez não nos dê a entender bastante, a influência que a sua relação com o Pai lhe permite exer-


[Capítulo 7      O Legionário e a Santíssima Trindade      página 44]

 

cer em nós, filhos d’Ele e dela. “Deus Pai comunicou a Maria a Sua fecundidade, tanto quanto era possível comunicar a uma simples criatura, para lhe dar o poder de produzir Seu Filho e todos os membros do Seu Corpo Místico” (S. Luís Maria de Montfort). A sua relação com o Pai é um elemento fundamental, sempre presente, no fluxo de vida que verte para as almas. Deus exige que os Seus dons ao homem se traduzam, por parte deste, em apreço e cooperação. Por conseguinte, esta união vivificante deve ser objeto freqüente dos nossos pensamentos. O Pai Nosso, que os legionários repetem tantas vezes, rezado com esta especial intenção, dará satisfação plena a este dever. Composto por Jesus Cristo, nele pedimos o que nos é mais necessário e do modo mais perfeito. Rezado com inteira consciência e no espírito da Igreja Católica, realizará perfeitamente o propósito de glorificar o Eterno Pai e de prestar-Lhe a homenagem do nosso reconhecimento, pelo dom superabundante com que nos presenteou, por Maria.

 

“Recordemos para confirmar a dependência que devemos ter da Santíssima Virgem, o exemplo que nos deram as Pessoas da Santíssima Trindade.

 

O Pai não deu e não dá o Seu Filho senão por Maria; não adota filhos senão por ela, nem comunica as Suas graças senão por ela. Deus Filho não foi formado para todo o mundo, senão por Maria, nem é formado e gerado todos os dias senão por ela, em união com o Espírito Santo e só por meio dela comunica os seus merecimentos e virtudes. O Espírito Santo não formou Jesus Cristo senão por ela, e só por meio dela distribui os Seus dons e favores. Depois de tantos e tão manifestos exemplos da Santíssima Trindade, poderemos nós, sem uma cegueira extrema, dispensar-nos de Maria, não nos consagrarmos a ela, nem dela depender?” (S. Luís Maria de Montfort: Tratado de Verdadeira Devoção, 140).

 

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O LEGIONÁRIO E A EUCARISTIA

 

1. A Santa Missa

 

Como já acentuamos, a santidade dos membros é de fundamental importância para a Legião. Além disso é também o seu principal meio de ação. É que o legionário não pode ser canal


[Capítulo 8      O Legionário e a Eucaristia      página 45]

 

de graças para os outros, senão na medida em que ele próprio as possui. Por isso, ao ingressar na Legião, cada membro pede insistentemente por intermédio de Maria a plenitude do Espírito Santo e a graça de ser instrumento do Seu poder divino, que há de renovar a face da terra.

 

As graças assim pedidas brotam todas, sem exceção, do Sacrifício de Jesus no Calvário. É pela Santa Missa que o Sacrifício da Cruz se perpetua entre os homens. A Missa não é, pois, uma simples representação simbólica do passado: ela torna real e atualmente presente no meio de nós essa ação sublime que Nosso Senhor consumou no Calvário e pela qual remiu a humanidade.

 

A Cruz não vale mais do que a Missa, porque são um e mesmo sacrifício, afastados o tempo e o espaço pela mão do Onipotente. O Sacerdote e a Vítima são idênticos, difere apenas o modo de oferecer o Sacrifício. A Missa contém tudo quanto Jesus Cristo ofereceu a Deus e tudo quanto alcançou para os homens; e o oferecimento dos que participam da Missa torna-se um só com o próprio sacrifício do Salvador.

 

O legionário deverá recorrer à Missa, se deseja, para si e para os outros, uma participação abundante nas riquezas da Redenção. A Legião não impõe aos seus membros qualquer obrigação concreta sobre a participação na Missa, pois as ocasiões e circunstâncias da vida de cada membro são muito diferentes. Todavia, preocupada com eles e com seus trabalhos, insiste com todos e suplica-lhes que tomem parte nela, com freqüência – diariamente se for possível – e recebam nessa ocasião a Sagrada Comunhão.

 

Se os legionários são obrigados a agir sempre em união íntima com Maria, é sobretudo no ato solene da participação na Santa Missa que o devem fazer.

 

Como sabemos, a Missa compõe-se de duas partes principais, a Liturgia da Palavra e a Liturgia Eucarística. É importante ter presente que estas duas partes estão tão intimamente unidas que formam um só ato de culto (SC 56). Por isso, os fiéis devem tomar parte na Missa inteira, onde estão a mesa da Palavra e a mesa do Corpo de Cristo, para que por elas sejam instruídos e alimentados (SC 48, 51).

 

“O sacrifício da Missa não é tão somente uma recordação simbólica da Cruz. Ao contrário, a Missa torna atualmente presente o sacrifício do Calvário, como uma excelsa realidade não sujeita a tempo e a espaço. O espaço e o tempo desaparecem, pela mão do Onipotente. O mesmo Jesus que morreu na Cruz está ali presente. Os participantes unem-se à Sua vontade santíssima e sacrifical; e,


[Capítulo 8      O Legionário e a Eucaristia      página 46]

 

por Jesus presente no meio deles consagram-se ao Pai celeste como uma viva oblação. A Santa Missa é, pois, uma tremenda realidade, a realidade do Gólgota: torrente de dor e de arrependimento, de amor e de devoção, de heroísmo e de espírito de sacrifício, que brota do altar e corre sobre a comunidade em oração” (Karl Adam: O Espírito do Catolicismo).

 

2. Liturgia da Palavra

 

A Missa é, acima de tudo, a celebração da fé, daquela fé que nasceu em nós e foi alimentada pela audição da Palavra de Deus. Recordemos a este respeito as palavras da Instrução Geral sobre o Missal (nº 9): “Quando na Igreja se lê a Sagrada Escritura, é o próprio Deus que fala ao Seu povo, é Cristo presente na Sua palavra quem anuncia o Evangelho. Por isso, as leituras da Palavra de Deus, que oferecem à Liturgia um dos elementos de maior importância, devem ser escutados por todos com veneração”. A homilia é também de grande importância: parte necessária da Missa nos Domingos e Dias Santos, e também desejável nos outros dias. Pela homilia, o sacerdote explica o texto sagrado à luz dos ensinamentos da Igreja, para o crescimento da fé dos presentes.

 

Nossa Senhora é o modelo da nossa participação na palavra, porque “é a Virgem que sabe ouvir, que acolhe a palavra de Deus com fé, fé que foi para Ela a preparação e o caminho para a maternidade divina” (MCul 17).

 

3. A Liturgia da Eucaristia em união com Maria

 

Nosso Senhor não começou a obra da Redenção, sem o consentimento de Maria, solenemente pedido e livremente dado; nem a completou no Calvário, sem a sua presença. “Por esta comunhão de sofrimentos e de vontades entre Maria e Cristo, mereceu ela, com justíssima razão, tornar-se a Restauradora do mundo perdido e a Despenseira de todas as graças, que Jesus alcançou com a Sua morte e com o Seu sangue” (AD 9). Junto a Cruz do Salvador esteve Maria, representando o gênero humano; também agora, em cada Missa está presente, cooperando com Jesus, como sempre, ela, a Mulher anunciada desde o princípio, Aquela que esmaga a cabeça da Serpente infernal. Por isso, uma amorosa união a Maria deve fazer parte de toda a Missa bem participada.


[Capítulo 8      O Legionário e a Eucaristia      página 47]

 

Com Maria, no Calvário, estiveram também os representantes de uma Legião – o centurião e a sua coorte – que desempenharam um fúnebre papel no oferecimento da Vítima, embora não soubessem que estavam crucificando o Senhor da Glória (1Cor 2, 8). E ó maravilha! a graça desceu, em torrentes, sobre os seus corações. “Contemplai e vede”, diz S. Bernardo, “como a fé tem o olhar penetrante. Reparai bem nos seus olhos de lince! Por ela, no Calvário, o Centurião reconheceu a vida na morte; e, num último suspiro, o Espírito soberano”. Contemplando a sua Vítima morta e desfigurada, os legionários romanos proclamaram-na Verdadeiro Filho de Deus (Mt 27, 54).

 

A conversão destes homens grosseiros e cruéis foi o fruto repentino e inesperado das orações de Maria. Estranhos filhos, os primeiros que a Mãe dos homens recebeu no Calvário e que lhe tornaram para sempre tão querido, o nome de legionários. Depois disto, quem poderá duvidar de que ela, quando os seus legionários – unindo-se às suas intenções, elemento integrante da sua cooperação – participam todos os dias da santa Missa, os reúna à volta de si e lhes dê aqueles olhos penetrantes de fé e o seu Coração transbordante para que, assim, tomem parte de maneira mais íntima e proveitosa na continuação do sublime sacrifício do Calvário?

 

Quando virem levantar o Filho de Deus, os legionários hão de unir-se a Ele, para com Ele formarem uma só Vítima. A Missa, sacrifício de Jesus Cristo, é também o deles. Deveriam, em seguida, receber o Corpo adorável do Senhor: para obter a plenitude dos frutos do Divino Sacrifício é absolutamente necessário que os participantes comunguem com o sacerdote a carne da Vítima imolada.

 

Hão de compreender então, a parte essencial de Maria, a nova Eva, nestes mistérios sagrados – parte e cooperação tão íntima que, “quando o seu amado Filho consumava a Redenção do gênero humano no altar da Cruz, lá estava a Seu lado, sofrendo e remindo com Ele” (Pio XI). Ao se retirarem, Maria acompanhará os legionários, dando-lhes parte das suas graças e da distribuição que se segue, derramando através deles, em todos quantos encontrarem ou, naqueles por quem trabalharem, os infinitos tesouros da Redenção.

 

“A sua maternidade é particularmente notada e vivida pelo povo cristão no Banquete Sagrado – celebração litúrgica do mistério da Redenção – no qual se torna presente Cristo, no seu verdadeiro Corpo, nascido da Virgem Maria.


[Capítulo 8      O Legionário e a Eucaristia      página 48]

 

Com muita razão, a piedade do povo cristão percebeu sempre uma ligação profunda entre a devoção à Virgem Santíssima e o culto da Eucaristia: pode-se comprovar este fato, na liturgia tanto ocidental como oriental, na tradição das Famílias religiosas, na espiritualidade dos movimentos contemporâneos, mesmo dos movimentos juvenis e na pastoral dos santuários marianos: Maria conduz os fiéis à Eucaristia (RMat 44).

 

4. A Eucaristia, nosso tesouro

 

A Eucaristia é o centro e a fonte da graça: por isso, deve constituir também a pedra angular do sistema legionário. A mais ardente atividade não fará nada que preste, se esquecer, por um só momento, que o seu motivo principal é o estabelecimento em todos os corações do reino da Eucaristia. Deste modo será atingido o fim para que Jesus veio ao mundo: comunicar-se às almas, para as fazer uma só coisa com Ele. Ora, o meio principal para conseguir tal união é a Eucaristia. “Eu sou”, diz Jesus “o pão vivo que desceu do Céu. Quem comer deste pão viverá eternamente; e o pão que Eu darei é a minha carne, para a salvação do mundo” (Jo 6, 51-52).

 

A Eucaristia é o bem infinito. Neste sacramento, com efeito, está o próprio Jesus tão presente como outrora em Nazaré ou no Cenáculo de Jerusalém. A Sagrada Eucaristia não é o símbolo da Sua pessoa ou um instrumento do Seu poder: é o mesmo Jesus, vivo e inteiro. Por isso, Aquela que O concebeu e nutriu “encontrava na hóstia adorável o fruto bendito do seu ventre, e renovava na sua vida de união com Jesus Sacramentado os ditosos dias de Belém e Nazaré” (S. Pedro Juliano Eymard).

 

Muitos, para quem Jesus não passa de um homem inspirado, O honram e imitam; e maiores homenagens Lhe renderiam, se n’Ele vissem algo de mais elevado. Como deveríamos nós nos comportarmos, visto possuirmos o inestimável benefício da fé? Como são indesculpáveis os católicos que crêem mas não praticam. Aquele Jesus, que os outros tanto admiram, possuem-n’O os católicos, vivo, na Eucaristia. Têm livre acesso a Ele; podem e devem recebê-l’O, mesmo todos os dias, como alimento das suas almas.

 

À vista disto, como é triste verificar a vergonhosa negligência com que é tratada tão rica herança e como pessoas que crêem na Sagrada Eucaristia, por pecados e desleixos, se privam deste alimento vital da alma, que Jesus, desde o primeiro instante da


[Capítulo 8      O Legionário e a Eucaristia      página 49]

 

Sua existência terrestre, pensava em dar-lhes. Logo em Belém (Casa do Pão) foi reclinado na palha de que Ele era o Trigo Divino, destinado a tornar-se em breve o Pão Celeste que havia de unir a Ele todos os homens (e uns aos outros), no seu Corpo Místico.

 

Maria é a Mãe deste Corpo Místico. E assim como outrora cuidava dedicadamente de todas as necessidades de Jesus Menino, assim deseja agora ardentemente nutrir o Corpo Místico, do qual é Mãe, tanto quanto o é de Jesus. Que angústias para o seu Coração maternal, ao ver a fome – às vezes extrema – de seu Filho, no Seu Corpo Místico, porque poucos se alimentam como devem do Pão Divino, e muitos, absolutamente nada. Que todos quantos desejam de fato unir-se a Maria, para participar dos seus cuidados maternais para com as almas, partilhem também das suas angústias e se esforcem, com ela, por matar a fome do Corpo Místico de Jesus. O legionário deve aproveitar todos os recursos para despertar nas pessoas com quem realiza o seu apostolado, o conhecimento e o amor ao Santíssimo Sacramento, e também aproveitar para destruir o pecado e a indiferença que d’Ele afastam tanto, os homens. Cada comunhão obtida representa um lucro incomensurável, porque, alimentando a alma individual, nutre todo o Corpo Místico de Cristo e o faz crescer em sabedoria, em estatura e em graça diante de Deus e dos homens (Lc 2, 52).

 

“Esta união da Mãe com o Filho na obra da Redenção alcança o ponto culminante no Calvário, onde Cristo ‘se ofereceu a si mesmo, vítima sem mácula, a Deus’ (Hb 9, 14), e onde Maria esteve de pé, junto à Cruz (Cf. Jo 19, 15), ‘sofrendo profundamente com o seu Unigênito e associando-se com ânimo maternal ao seu sacrifício, consentido amorosamente na vítima que havia gerado’, e oferecendo-a também ela, ao eterno Pai. Para perpetuar ao longo dos séculos o Sacrifício da Cruz, o divino Salvador instituiu o Sacrifício Eucarístico, memorial da sua Morte e Ressurreição, e confiou-o à Igreja, sua Esposa, a qual, sobretudo aos domingos, convoca os fiéis para celebrar a Páscoa do Senhor, até que ele volte: o que a mesma Igreja faz em comunhão com os Santos do céu e, em primeiro lugar, com a bem-aventurada Virgem Maria, de quem imita a caridade ardente e a fé inabalável” (MCul 20).


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O LEGIONÁRIO E O CORPO MÍSTICO DE CRISTO

 

1. O serviço legionário é baseado nesta doutrina

 

Já na primeira reunião de legionários ficou bem claro o caráter sobrenatural do serviço a que iam se dedicar. A sua convivência com o próximo devia transparecer cordialidade, não por motivos meramente naturais, mas porque deveriam ver nesse próximo a mesmíssima Pessoa de Cristo, tendo sempre presente que tudo o que fizessem aos outros, ainda que de maneira fraca ou desprezível, o faziam Àquele mesmo Senhor que afirmou: “Em verdade vos digo que o que fizestes ao mais pequeno dos meus irmãos, a mim próprio o fizestes” (Mt 25, 40).

 

Ora, o que se deu com a primeira reunião tem-se dado com todas as que se lhe seguiram. Nenhum esforço tem sido poupado na intenção de fazer ver aos legionários que tal critério deve ser, não só a pedra basilar do seu serviço, mas o alicerce da disciplina e da harmonia na vida interna da Legião. O legionário deve ver e respeitar nos Oficiais e nos companheiros, o próprio Cristo. Que ele tenha sempre presente esta verdade transformadora. Para ajudá-lo a atingir tal fim é que se inscreve esse princípio na Ordem Permanente, lida mensalmente na reunião do Praesidium. Essa Ordem insiste ainda neste outro princípio fundamental da Legião: devemos trabalhar em tão estreita união com Maria que seja ela quem de fato, por meio do legionário, execute a sua obra.

 

Estes princípios básicos da Legião não são mais, afinal, do que a conseqüência da Doutrina do Corpo Místico de Cristo, doutrina que constitui o tema principal das Epístolas de São Paulo: e isto nada tem de singular, sabendo-se que a conversão do Apóstolo se deve à declaração dessa doutrina. Perante o clarão que baixara do céu, o grande perseguidor dos cristãos caiu por terra, cego, e ouviu estas aterradoras palavras: “Saulo, Saulo, porque me persegues?” E Saulo interrogou: “Quem é tu, Senhor?” E uma voz respondeu-lhe: “Eu sou Jesus, a quem tu persegues” (At 9, 4-5). Que maravilha que estas palavras ficassem gravadas a fogo vivo na alma do Apóstolo e que este se sentisse a todo momento compelido a falar e a escrever sobre a verdade nelas contida.


[Capítulo 9      O Legionário e o Corpo Místico de Cristo      página 51]

 

São Paulo compara a união entre Cristo e os batizados àquela que existe entre a cabeça e os outros membros do corpo humano. Neste, cada membro tem a sua finalidade, a sua função especial; uns são mais nobres, outros menos, mas todos, dependendo uns dos outros, são animados pela mesma vida. Deste modo, o dano sofrido por um deles reflete-se em todos; mas, se um recebe benefício, todos dele participam.

 

A Igreja é o Corpo Místico de Cristo e a Sua plenitude (Ef 1, 22-23); Cristo é a Cabeça, a parte principal, indispensável e perfeita, onde todos os membros vão buscar as suas energias e a sua própria vida. O batismo une-nos a Cristo com laços de tal forma estreitos, que ninguém poderá imaginá-los. O termo “místico” não significa, de forma alguma, irreal. De acordo com as vibrantes palavras da Sagrada Escritura – “somos membros do Seu corpo, formados da Sua carne e dos Seus ossos” (Ef 5, 30). Daqui resultam certos deveres sacratíssimos de amor e de serviço, não só entre os membros e a Cabeça, mas entre os próprios membros (1Jo 4, 15-21). A comparação do corpo ajuda-nos poderosamente a compreender esses deveres, e tal conhecimento constitui já meio caminho andado para o seu cumprimento.

 

Com razão se tem afirmado ser este o dogma central do Cristianismo. De fato, toda a vida sobrenatural, todas as graças concedidas ao homem são fruto da Redenção. Esta se baseia no fato de Cristo e a Sua Igreja constituírem uma única pessoa mística; e assim é que as reparações operadas por Cristo, a Cabeça, e os méritos infinitos da Sua Paixão pertencem também aos Seus membros, os fiéis. Deste modo se explica como é que Nosso Senhor pôde sofrer pelo homem, conseguindo o perdão de culpas que não cometera. “Cristo é a Cabeça da Igreja, Seu Corpo, do qual ele é o Salvador” (Ef 5, 23).

 

A atividade do Corpo Místico é a do próprio Cristo. Os fiéis são n’Ele incorporados e n”Ele vivem, sofrem e morrem, e, em Sua Ressurreição, ressuscitam. O batismo santifica, precisamente, porque estabelece, entre Cristo e a alma, essa comunicação de vida, por onde flui, da Cabeça para os membros, a santidade. Os outros Sacramentos, sobretudo a Divina Eucaristia, destinam-se a estreitar a união entre o Corpo Místico e a Cabeça. Tal união, entre a cabeça e os membros, intensifica-se ainda pelo exercício da fé e da caridade, pelos vínculos da autoridade e do serviço mútuo na Igreja, pelo trabalho e pelo sofrimento, aceitos com resignação; resumindo: por qualquer ato de vida verdadeiramente cristã. Tudo isto, porém, será mais eficaz, se a alma atuar decididamente sob a proteção de Maria Santíssima.


[Capítulo 9      O Legionário e o Corpo Místico de Cristo      página 52]

 

Maria, pelo seu privilégio de Mãe da Cabeça e dos membros, passa a ser um eminente laço de união do Corpo Místico. Se é certo que “somos membros do Seu Corpo, formados da Sua carne e dos Seus ossos”, somos também, com igual verdade e plenitude, filhos de Maria, Sua Mãe. A Santíssima Virgem foi criada para conceber e dar à luz o Cristo total, quer dizer, o Corpo Místico com todos os seus membros, perfeitos e ligados entre si (Ef 4, 15-16), e unidos com a Cabeça, Jesus Cristo; e ela cumpriu seu destino, em colaboração e mediante o poder do Espírito Santo, que é a vida e a alma do Corpo Místico. No seio maternal de Maria, e dócil aos seus cuidados, a alma irá crescendo em Cristo, até chegar à idade perfeita (Ef 4, 13-15).

 

“Maria desempenha um papel único e sem igual na economia divina. Ela preenche, entre os membros do Corpo Místico, um lugar à parte – o primeiro depois da Cabeça. Neste organismo divino do Cristo Total, a sua função está intimamente ligada à vida de todo o Corpo. É o Coração... Servindo-nos de uma imagem mais popular, ela assemelha-se, por motivo da sua função – é o que diz S. Bernardo – ao pescoço, que liga a cabeça aos membros do Corpo. A figura suficientemente clara demonstra o porquê da mediação universal de Maria, entre Cristo – a Cabeça Mística – e os Seus membros. No entanto, a comparação do pescoço é menos vigorosa que a do coração, para significar a enorme importância da influência de Maria e do seu poder, o maior depois de Deus, nas operações da vida sobrenatural; e isto, porque o pescoço não passa de simples ligação, nada fazendo para iniciar ou influenciar a vida. O coração, pelo contrário, é um centro de vida, o primeiro a receber os tesouros que imediatamente distribui a todo o organismo” (Mura: O Corpo Místico de Cristo).

 

2. Maria e o Corpo Místico

 

Os cuidados postos por Maria na alimentação, no cuidado e no carinho do Corpo físico do seu Divino Filho, continuam a ser dispensados agora, em favor de todos e de cada um dos membros do Corpo Místico, dos mais humildes aos mais nobres. E assim é que, “agindo os membros com mútua solicitude” (1Cor 12, 25), jamais o fazem independentemente de Maria, mesmo quando deixem, por descuido ou ignorância, de reconhecer a sua presença. Nada mais fazem do que unir os seus esforços aos esforços de Maria. É uma


[Capítulo 9      O Legionário e o Corpo Místico de Cristo      página 53]

 

obra que lhe pertence e à qual se tem entregado por completo desde a Anunciação até hoje. Considera-se, assim, que não são propriamente os legionários que se valem do auxílio da sua Rainha para melhor servir os restantes membros do Corpo Místico, mas é ela que se digna utilizá-los. E, por tratar-se de uma obra que pertence a Maria, ninguém pode cooperar nela, sem que a Senhora benevolente, se digne permiti-lo. Tal fato, conseqüência lógica da doutrina do Corpo Místico, deve ser meditado por todos os que se dedicam ao serviço do próximo, mas não reconhecem o lugar e os privilégios de Maria. Constitui, além disso, uma boa lição para os que confessam acreditar nas Escrituras, mas desconhecem e menosprezam a Mãe de Deus. Cristo – fiquem todos sabendo – amou Sua Mãe, sujeitando-se a ela (Lc 2, 51); e o seu exemplo obriga todos os membros do Seu Corpo Místico a fazerem o mesmo: “Honrarás... tua Mãe” (Ex 20, 12). Por mandamento divino, cabe a nós amá-la filialmente. Todas as gerações hão de bendizer tão boa Mãe (Lc 1, 48).

 

Portanto, assim como ninguém poderá pensar em colocar-se a serviço do próximo a não ser com Maria, assim também não poderá realizar dignamente tal missão, se não tiver , ainda que imperfeitamente, as mesmas intenções de Maria. Quanto maior for a nossa união com ela, tanto mais perfeitamente cumpriremos o divino preceito de amar a Deus e de servir o próximo (1Jo 4,19-21).

 

A função própria dos legionários dentro do Corpo Místico é guiar, consolar e esclarecer os outros. Tal missão, note-se, só será devidamente cumprida, quando os legionários se compenetrarem por completo, da doutrina do Corpo Místico e da identificação deste com a Igreja. A posição e os privilégios da Igreja, a sua unidade, a sua autoridade, o seu desenvolvimento, padecimentos, milagres, triunfos, o seu poder de conferir a graça e o perdão dos pecados: tudo isto não será apreciado no seu justo valor, se não se compreender que Cristo vive na Igreja e que é por intermédio dela, que continua a Sua missão na terra. A Igreja reproduz verdadeiramente a vida de Cristo.

 

Cada membro da Igreja é intimado por Cristo, sua Cabeça, a desempenhar determinada missão dentro do Corpo Místico.

 

“Jesus Cristo” – lemos na Constituição Lumen Gentium – “comunicando o Seu Espírito, fez dos Seus irmãos, chamados de entre todos os povos, o Seu Corpo Místico. Nesse corpo a vida de Cristo difunde-se naqueles que nEle crêem...” Como todos os membros do corpo humano, apesar de serem muitos, formam, um só corpo, assim também os fiéis em Cristo”


[Capítulo 9      O Legionário e o Corpo Místico de Cristo      página 54]

 

(Cf. 1Cor 12, 12). “Na organização do Corpo Místico de Cristo existe igualmente diversidade de membros e funções. É um único Espírito que distribui os seus vários dons para bem da Igreja, na medida das riquezas e exigências dos serviços” (Chl 20).

 

Para saber a forma de serviço que deve caracterizar os legionários na vida do Corpo Místico, fixemos os olhos em Maria. Ela foi-nos apresentada como o coração do Corpo Místico. A sua função, como a do coração humano, é fazer circular o sangue de Cristo, levando às diversas partes do corpo, a vida e o crescimento. Acima de tudo, é um trabalho de amor. Por conseguinte, os legionários, ao exercerem o seu apostolado em união com Maria, são chamados a fazer uma só coisa com Ela, no Seu papel vital de coração do Corpo Místico.

 

“Não pode dizer a vista à mão: não preciso da tua ajuda; nem a cabeça aos pés: não me sois necessários” (1Cor 12, 21). Tais palavras revelam ao legionário, a importância da sua cooperação na obra do apostolado. E isto, não devido apenas à sua união com Cristo, com o qual forma um só Corpo e de quem depende, mas ainda porque o próprio Cristo, que é a cabeça, depende verdadeiramente do legionário a quem bem poderia se dirigir nestes termos: “Eu necessito da tua ajuda na Minha obra de santificar e salvar as almas”. São Paulo destaca, a propósito, a dependência em que se encontra a cabeça em relação ao corpo, quando fala de completar em sua carne, o que falta à Paixão de Cristo (Cl 1, 24). A frase, estranha, não significa de modo algum que a obra de Cristo ficasse imperfeita; ela salienta apenas a idéia de que, cada membro do Corpo Místico tem de contribuir, na medida do possível, para a própria salvação e para a salvação dos restantes membros (Fl 2, 12)

 

Essa doutrina instrui o legionário sobre a sublime vocação, a que foi chamado, como membro do Corpo Místico: a de completar o que falta à missão de Nosso Senhor. Maravilhoso pensamento este: Jesus Cristo necessita de mim para levar a luz e a esperança aos que vivem nas trevas, o consolo aos aflitos, a vida aos mortos no pecado. Inútil seria acrescentar, conseqüentemente, que o legionário tem de agir dentro do Corpo Místico, copiando de modo singular o amor e a obediência incomparáveis que Cristo, a Cabeça, dedicou à Sua Mãe; amor que o Seu Corpo Místico tem de reproduzir. 

 

“Assim como São Paulo nos assegura completar em seu próprio corpo a medida dos sofrimentos de Cristo, assim podemos afirmar que um verdadeiro cristão, membro de Jesus e a Ele unido pela grã-


[Capítulo 9      O Legionário e o Corpo Místico de Cristo      página 55]

 

ça, continua e vai até o fim, através do seu trabalho comprometido com o espírito de Jesus, as ações do próprio Salvador, durante a Sua vida mortal. E isto de tal forma que, quando um cristão reza, dá continuidade à oração iniciada por Jesus sobre a terra; quando trabalha, completa o que faltou à vida apostólica de Jesus. Temos de ser assim outros tantos Cristos sobre a terra, continuando-O na Sua Vida e nas suas ações, agindo e sofrendo tudo, no espírito de Jesus, isto é, com santas e divinas disposições” (São João Eudes: O Reino de Jesus).

 

3. O sofrimento no Corpo Místico

 

A missão dos legionários coloca-os em íntimo contato com todos os homens, especialmente com os que sofrem. Necessário é, pois, que conheçam a fundo aquilo que o mundo é inclinado a chamar, o problema do sofrimento. Ninguém pode fugir nesta vida à sua Cruz. A maior parte revolta-se contra ela, procurando desviá-la dos seus ombros, e, porque isso é impossível, ficam esmagados sob o seu peso. Inutilizam assim os planos da Redenção, que exigem o complemento da dor para que a vida resulte frutuosa, do mesmo modo que, qualquer tecido exige o cruzamento de fios para se obter o tecido. A dor só aparentemente contraria e impossibilita a vida do homem. Na realidade, ela a favorece e a aperfeiçoa. Assim o ensina a Sagrada Escritura, em cada uma das suas páginas, quando proclama a necessidade “não só de crer em Cristo, mas também a de sofrer por Ele” (Fl 1, 29); e ainda: “Se morrermos com ele, com Ele viveremos; se com Ele padecermos, com Ele reinaremos” (2Tm 2, 11-12).

 

A nossa morte em Cristo, de que fala o Apóstolo, está representada por uma cruz salpicada de Sangue – aquela em que Cristo, nossa Cabeça, acaba de consumar a Sua obra. Ao pé da Cruz e imersa em tal desolação que parecia impossível continuar a viver, estava a Mãe do Redentor e dos remidos, aquela de cujas veias tinha vindo o sangue que tão abundantemente molhava a terra, para resgate da humanidade. Este Sangue Precioso é o mesmo que é destinado a circular pelo Corpo Místico, conduzindo a vida até as mais pequenas células; levando à alma a perfeita imagem de Cristo, de um Cristo completo; não apenas do de Belém e do Tabor, feliz e refulgente de glória, mas também do Cristo doloroso, do Cristo vítima, do Cristo do Calvário. Para que os maravilhosos frutos desta torrente redentora possam ser aplicados às almas devemos conhecê-los.


[Capítulo 9      O Legionário e o Corpo Místico de Cristo      página 56]

 

Saibam todos os cristãos que não podem selecionar em Cristo o que agrada e rejeitar o restante. Saibam-no tão bem como o soube Maria nas alegrias da Anunciação. Ela já então sabia que não era convidada a ser somente mãe venturosa, mas também mãe dolorosa; tendo-se entregado a Deus sem a menor reserva desde sempre, aceita o Cristo completo. Ao acolher o Menino no seu seio,  ela tinha perfeito conhecimento de tudo quanto estava contido no mistério; estava disposta tanto a esgotar com o seu Filho o cálice da amargura, como a compartilhar com Ele, as Suas glórias. Nesse momento, se uniram aqueles dois Corações Sacratíssimos tão estreitamente, que chegaram quase a identificar-se. Foi, então, que começaram a pulsar em conjunto dentro do Corpo Místico e em seu benefício; e, Maria se tornou a Medianeira de todas as Graças, o Vaso Espiritual que recebe e espalha o Precioso Sangue do Senhor. Ora, o que aconteceu à Mãe, acontecerá com aos filhos. O homem será tanto mais útil a Deus, quanto mais íntima for a sua união com o Sagrado Coração, a fonte, onde ele irá beber o Sangue Redentor, para o derramar com grande fartura sobre as almas. É necessário porém, que esta união com o Sangue e o Coração de Cristo, abranja totalmente a vida de Jesus; não basta que se aproprie de uma ou de outra fase. Seria tão leviano como indigno receber de braços abertos o Rei da Glória e rejeitar o Homem das Dores, porque Um e Outro são o mesmo Cristo. Aquele que não acompanhar o Cristo sofredor, não tomará parte na Sua missão junto das almas nem participará da Sua glória.

 

Conclui-se, portanto, que sofrer é sempre uma graça: graça que, quando não cura, fortifica. Nunca podemos conceber o sofrimento como castigo do pecado. “Fica sabendo” diz S. Agostinho, “que as aflições do gênero humano não são uma lei penal, pois o sofrimento tem caráter terapêutico”. Por outro lado, a Paixão do Senhor transborda, por privilégio todo especial, sobre os santos e os justos, a fim de os tornar mais semelhantes ao Redentor. Este intercâmbio e esta fusão de sofrimentos é a base de toda a mortificação e reparação.

 

Uma simples comparação com a circulação do sangue no corpo humano dá a idéia perfeita da função e da finalidade do sofrimento. Tomemos para exemplo a mão. A pulsação que ali se nota corresponde ao bater do coração – fonte do sangue quente que nela circula. É que a mão está unida ao corpo de que faz parte. Se a circulação diminui, as veias se encolhem e o sangue encontra maior dificuldade em correr; e essa dificuldade aumenta à medida que o frio se torna mais intenso. Se o frio for de tal


[Capítulo 9      O Legionário e o Corpo Místico de Cristo     página 57]

 

intensidade que faça cessar a pulsação, a mão gelará e os seus tecidos morrerão. Ficará caída, sem sangue e não tardará a surgir a gangrena, caso esta situação se prolongue.

 

Estes diversos graus de frio ajudam-nos a compreender melhor as possíveis situações espirituais do Corpo Místico. Em alguns a capacidade de receber o Precioso Sangue é tão limitada, que correm perigo de morte, como membros gangrenados que têm de ser amputados. O remédio para um membro gelado é evidente: provocar de novo a circulação para que recupere a vida. Introduzir o sangue à força, nas veias e artérias constitui, sem dúvida processo doloroso, mas a dor é anúncio de futura alegria. Acontece que a maioria dos católicos praticantes não são de fato membros gelados; contentes consigo, dificilmente se considerarão até membros frios. No entanto, o Precioso Sangue não circula neles no grau desejado pelo Senhor, o que o obriga a introduzir neles à força, a Sua vida.

 

O Sangue Divino, circulando e dilatando as veias endurecidas, causa dores ao paciente: são os sofrimentos da vida. Estas dores, porém, bem compreendidas, não deveriam constituir uma fonte de alegria? A consciência da dor converte-se, então, na consciência da presença real e íntima de Nosso Senhor Jesus Cristo.

 

“Jesus Cristo sofreu tudo quanto tinha de sofrer, nada faltou para fazer transbordar a medida dos Seus padecimentos. No entanto, a Sua Paixão não terminou ainda... Terminou, sim, no que ser refere à Cabeça, mas continua nos membros do Seu Corpo. Com muita razão, pois, Nosso Senhor, que ainda sofre no Seu Corpo, deseja ver-nos tomar parte no seu sacrifício redentor. Exige-o a nossa união com Ele: porque, se somos o Corpo de Cristo e membros uns dos outros, tudo quanto sofra a Cabeça, os membros também deveriam sofrer em solidariedade com ela” (Santo Agostinho).

 

10

 

APOSTOLADO DA LEGIÃO

 

1. Dignidade do Apostolado

 

Para descrever a dignidade do apostolado, para o qual a Legião convida os seus membros, e demonstrar a sua importância para a Igreja, não podemos encontrar palavras mais expressivas do que a seguinte declaração:


[Capítulo 10     Apostolado da Legião    página 58]

 

“O dever e o direito dos leigos ao apostolado, se originam da sua mesma união com Cristo Cabeça. Com efeito, pertencendo pelo Batismo ao Corpo Místico de Cristo e robustecidos pela Confirmação com a força do Espírito Santo, é pelo Senhor mesmo que são destinados ao apostolado. São sagrados em ordem a um sacerdócio real e a um povo santo (cf. 1 Pd 2, 4-10) para que todas as suas atividades seja oblações espirituais e por toda a terra dêem testemunho de Cristo. E os Sacramentos, sobretudo a Sagrada Eucaristia, comuniquem e alimentem neles, aquele amor que é a alma de todo o apostolado” (AA 3).

 

Pio XII dizia: “Os fiéis, e mais propriamente os leigos, encontram-se na linha mais avançada da vida da Igreja; para eles, a Igreja é o princípio vital da sociedade humana. Por isso, eles devem ter consciência, cada vez mais clara, não só de pertencerem à Igreja, mas de serem a Igreja, isto é, a comunidade dos fiéis sobre a terra, sob a orientação do chefe comum, o Papa, e dos Bispos em comunhão com ele. Eles são a Igreja” (ChL 9).

 

“Maria exerce sobre o gênero humano uma influência moral que não podemos definir melhor, senão comparando-a às forças físicas de atração, afinidade e coesão, que na Natureza unem entre si, os corpos e as partes componentes... Parece-nos ter demonstrado que Maria tomou parte em todos os grandes movimentos, que constituem a vida das sociedades e a sua verdadeira civilização” (Petitalot).

 

2. Absoluta necessidade do Apostolado dos Leigos

 

Não temos dúvida em afirmar que a saúde moral de uma comunidade católica depende da presença no seu seio de um grupo numeroso de apóstolos que, embora formado por leigos, partilha do espírito do sacerdote, assegurando-lhe estreito contato com o povo e constante controle da realidade. A segurança resulta desta perfeita união entre o sacerdote e o povo.

 

Ora, o apostolado exige ardoroso interesse pela prosperidade da Igreja e pela sua obra, interesse que dificilmente existirá sem o desejo de trabalhar pessoalmente, na extensão do Reino de Deus. A organização apostólica torna-se assim o molde de verdadeiros apóstolos.

 

Onde estas qualidades de apostolado não forem cuidadosamente cultivadas, a nova geração terá de enfrentar inevitável-


[Capítulo 10      Apostolado da Legião      página 59]

 

mente um sério problema: a falta de sincero interesse pela Igreja e a ausência de sentido de responsabilidade. Deste Catolicismo infantil, o que se poderá esperar? Só está seguro, em tempo de tranqüilidade. A experiência ensina-nos que, ao menor sinal de perigo, o rebanho sem energia se deixa dominar pelo desespero, pisoteando, na fuga, até o próprio pastor, ou é devorado pela primeira alcatéia de lobos que aparece. “Em todos os tempos” – diz um princípio formulado pelo Cardeal Newman – “os leigos têm sido a justa medida do espírito católico”.

 

“Fomentar entre os leigos o sentido de uma vocação própria – eis o importantíssimo papel da Legião de Maria. Nós, os leigos, corremos o risco de identificar a Igreja com o clero e os religiosos, a quem Deus concedeu o que chamamos, em sentido demasiadamente exclusivo, uma vocação. Somos tentados, inconscientemente a olhar-nos como multidão anônima, salvando-nos por grande sorte, se cumprirmos o mínimo exigido. Esquecemo-nos de que o Senhor chama as suas ovelhas pelo nome (Jo 10, 3) e que – usando as palavras de S. Paulo (Gl 2, 20), que como nós não esteve fisicamente presente no Calvário: – “O Filho de Deus amou-me e se entregou a Si mesmo por mim”. Cada um de nós, seja ele carpinteiro de aldeia como o próprio Jesus ou uma humilde dona de casa, como a Virgem Maria, tem uma vocação; é chamado individualmente por Deus a amá-lO e a servi-lO, a fazer um trabalho particular que outros poderão talvez, realizar melhor, mas nunca substituir. Só eu e mais ninguém posso dar o meu coração a Deus ou executar o meu trabalho. Ora, a Legião de Maria cultiva exatamente este sentido pessoal da religião. O legionário não se contenta com uma atitude passiva ou irresponsável: homem ou mulher, tem de ser e de fazer alguma coisa por Deus. A religião não é coisa de menor importância, mas a inspiração da vida inteira, por mais simples que ela seja aos olhos humanos. A convicção de uma vocação pessoal cria, inevitavelmente, o espírito apostólico, o desejo de prosseguir a obra de Cristo, de ser outro Cristo, de servi-lO no mais pequenino de seus irmãos. A Legião é assim o substituto leigo de uma ordem religiosa, a tradução da idéia cristã de perfeição, na vida dos leigos; a expansão do Reino de Cristo no mundo do dia-a-dia” (Alfredo O’Rahilly).


[Capítulo 10      Apostolado da Legião      página 60]

 

3. A Legião e o Apostolado dos Leigos

 

Como tantos outros grandes princípios, o apostolado é em si mesmo uma teoria fria e abstrata. Daí o perigo real de não exercer atração sobre as pessoas, de tal maneira que poderão não corresponder ao elevado destino que lhes foi imposto ou, pior ainda, poderão ser julgados incapazes de lhe corresponder. O resultado desastroso seria o abandono do esforço exercido, para levar os leigos a desempenharem, na batalha da Igreja, a sua parte própria e indispensável.

 

Ora, – diz um qualificado juiz, o Cardeal Riberi, então Delegado Apostólico nas Missões da África e depois Internúncio na China: “A Legião de Maria é o apostolado apresentado de forma atraente e fascinante; tão palpitante de vida que a todos encanta; realizado conforme o desejo de Pio XI, isto é, em inteira dependência da Virgem Mãe de Deus; exigindo a qualidade como elemento básico para o recrutamento; protegido pela oração assídua, pelo sacrifício de si próprio, por uma organização perfeita e por uma estreita cooperação com o sacerdote. A Legião de Maria é um milagre dos tempos modernos”.

 

A Legião respeita o sacerdote e obedece-lhe com acatamento que deve aos legítimos superiores. Mais ainda: o seu apostolado baseia-se no fato de que os principais canais da graça são a missa e os sacramentos, de que o sacerdote é o ministro oficial. Todos os esforços e trabalhos deste apostolado devem dirigir-se para este elevado fim: levar o alimento divino à multidão doente e esfomeada. Isso significa que um dos objetivos principais da ação legionária é conduzir o sacerdote ao meio do povo, se não em pessoa, o que às vezes é impossível, ao menos tornando compreensível a sua função e valorizando a sua influência.

 

Esta é a idéia essencial do apostolado da Legião. Apesar de leiga na massa dos seus membros, trabalhará em união com o sacerdote, sob a sua direção e em plena identificação de interesses. Procurará ardentemente apoiar os seus esforços e conseguir-lhe um lugar mais vasto na vida dos homens, de sorte que, recebendo-o, recebam Aquele que o enviou.

 

“Em verdade, em verdade vos digo: quem recebe aquele que Eu enviar recebe-Me a Mim, e o que Me recebe, recebe Aquele que Me enviou” (Jo 13, 20).


[Capítulo 10      Apostolado da Legião      página 61]

 

4. O Sacerdote e a Legião

 

A idéia do sacerdote, assistido por um grupo dedicado de apóstolos que participa dos seus trabalhos, tem a mais santa das aprovações: o exemplo do próprio Jesus Cristo que, preparando-se para converter o mundo, rodeou-se de homens escolhidos aos quais instruiu e encheu do Seu espírito.

 

Esta divina lição aprenderam-na e aplicaram-na os Apóstolos, chamando em seu auxílio todos os fiéis para os ajudarem na conquista dos seres humanos. Como muito bem disse o Cardeal Pizzardo, é possível que os estrangeiros vindos de Roma (At 2, 10) que ouviram a pregação dos Apóstolos no dia de Pentecostes, fossem os primeiros a anunciar Jesus Cristo naquela cidade, lançando assim as sementes da Igreja-Mãe, que São Pedro e São Paulo haviam de fundar oficialmente. “Que teriam feito os Doze, perdidos na imensidão do mundo, se não estivessem rodeado de colaboradores – homens e mulheres, velhos e novos – dizendo-lhes: Trazemos conosco o tesouro do Céu, ajudai-nos a reparti-lo” (Pio XI).

 

A estas palavras de um grande Pontífice podem ajuntar-se as de um outro, como demonstração de que o exemplo de Nosso Senhor e seus Apóstolos, na conversão do mundo foi dado por Deus como modelo a seguir por cada sacerdote (um outro Cristo) no seu pequenino mundo, paróquia, bairro ou obra especial.

 

Falando um dia o Papa S. Pio X com um grupo de cardeais, dizia-lhes: “Que coisa é mais necessária nos tempos presentes para a salvação da sociedade?” – “Levantar escolas católicas”, respondeu um. – “Não”, retorquiu o Papa. – “Multiplicar as igrejas”, tornou outro. – “Também não”. – “Intensificar o recrutamento sacerdotal”, sugeriu um terceiro. – “Não, não”, replicou o Papa: “O que há de mais necessário é a existência em cada paróquia de um grupo de leigos que sejam ao mesmo tempo virtuosos, instruídos, resolutos e verdadeiramente apostólicos”.

 

No fim da vida, este santo Pontífice contava, para a salvação do mundo, com grupos de católicos convenientemente treinados por um clero zeloso, que se entregaram ao apostolado pela palavra e pela ação, mas sobretudo, pelo exemplo. Nas dioceses em que exerceu o sagrado ministério antes de ser Papa, dava menos importância ao recenseamento dos paroquianos do que à relação dos católicos, capazes de irradiar a sua fé, dedicando-se ao apostolado. Era de opinião que em todas as classes, podia haver um grupo de especial destaque. Por isso, ele classificava os sacerdotes de acordo com os resultados obtidos nesta matéria,


[Capítulo 10      Apostolado da Legião      página 62]

 

pelo seu zelo e pelos seus talentos (Chautard: A alma de todo o apostolado, 4).

 

“A missão de pastor não se limita ao cuidado singular dos fiéis, mas estende-se também propriamente à formação da verdadeira comunidade cristã. Para que seja cultivado devidamente o espírito de comunidade, deverá abraçar não só a Igreja local, mas também a Igreja inteira. A comunidade local, porém, não deve se preocupar somente com o cuidado pelos seus fiéis, mas também, cheia de ardor missionário, deve preparar, para todos, o caminho para Cristo. Considere, todavia, como recomendados de modo especial, os que estão se preparando para o Batismo e os recém-batizados, que devem ser educados gradualmente, no conhecimento e na vivência da vida cristã” (PO 6).

 

“Deus feito homem achou necessário deixar o Seu Corpo Místico na terra. Se não o tivesse feito, a Sua obra teria terminado no Calvário. A Sua morte teria merecido a salvação para o gênero humano, mas como é que tantos homens teriam ganho o Céu sem a Igreja para lhes comunicar a vida da cruz? Cristo identifica-se, de modo especial, com o sacerdote. O sacerdote é como um coração a mais, que abre caminho para os corações, ao sangue da vida sobrenatural. É uma parte essencial do sistema de transmissão espiritual no Corpo Místico de Cristo. Se ele falha, o sistema é bloqueado, e aqueles que dele dependem não recebem a vida que nos planos de Cristo deveriam receber. O sacerdote, dentro dos devidos limites, deveria ser para o seu povo o que Cristo é para a Igreja. Os membros de Cristo são um prolongamento d’Ele mesmo e não simplesmente empregados, agregados, partidários. Os membros de Cristo possuem a vida de Cristo. Partilham da atividade de Cristo. Deveriam ter a maneira de ver de Cristo. Os sacerdotes, por sua vez, deveriam ser uma só coisa com Cristo, sob todos os aspectos possíveis. Se Cristo achou necessário formar um Corpo espiritual para si, o sacerdote deveria fazer o mesmo. Deveria formar, para si, membros que fossem uma só coisa com ele. Se um sacerdote não tiver membros vivos, formados por ele, unidos a ele, o seu trabalho se reduzirá a dimensões insignificantes. Ficará só e desamparado. “O olho não pode dizer à mão: não necessito do teu serviço; nem a cabeça pode dizer aos pés: vós não me sois necessários” (1Cor 12, 21).

 

De sorte que, se Cristo fez do Seu Corpo Místico o princípio do Seu caminho, da Sua verdade, da Sua vida para os homens, isto tudo vai agir, exatamente, através do novo Cristo, o sacerdote. Se ele não exerce a sua função de modo que ela seja verdadeiramente a


[Capítulo 10      Apostolado da Legião      página 63]

 

perfeita construção do Corpo Místico, a que se refere a Carta aos Efésios (4, 12 – texto habitualmente traduzido por “edificação dos fiéis”), a vida divina só em pequena quantidade penetrará nos corações e neles frutificará. Além disso, o sacerdote ficará empobrecido, porque, embora a missão da cabeça seja ministrar a vida ao corpo, não é menos verdade que a cabeça vive pela vida do corpo, crescendo com o seu crescimento, partilhando da sua fraqueza se ele perde as forças.

 

O sacerdote que não compreende esta lei da missão sacerdotal, avançará pela vida afora, realizando apenas uma pequena parte das suas possibilidades, quando o seu verdadeiro destino em Cristo é abraçar os horizontes” (Padre F.J. Ripley).

 

5. A Legião na Paróquia

 

“Nas atuais circunstâncias, os fiéis leigos podem e devem fazer muitíssimo para o crescimento de uma autêntica comunhão com a Igreja no seio das suas paróquias e para o despertar do impulso missionário com relação aos que em nada acreditam e também com relação àqueles que por ventura abandonaram ou diminuíram a prática da vida cristã” (ChL 27). Logo se perceberá que, com a fundação da Legião de Maria se desenvolverá enormemente um verdadeiro espírito de comunidade. Através da Legião, os leigos acostumam-se a trabalhar na paróquia em íntima união com os sacerdotes e a participarem das responsabilidades pastorais. A regulamentação das várias atividades paroquiais, mediante uma reunião regular semanal, traz vantagens evidentes. Todavia uma consideração mais elevada se impõe: as pessoas envolvidas nas atividades paroquiais, pertencendo à Legião, receberão uma formação espiritual que as ajudará a compreender que a paróquia é uma comunidade Eucarística e que por meio de um sistema bem organizado, se tornarão capazes de atingir cada um dos paroquianos, com o objetivo de elevar a comunidade. Alguns dos trabalhos em que a Legião pode se empenhar na paróquia, são apresentados no capítulo 37: Sugestões de Trabalhos.

 

“O apostolado dos leigos deve ser considerado pelos sacerdotes como parte integrante do seu ministério, e pelos fiéis, como uma exigência da vida cristã” (Pio XI).


[Capítulo 10      Apostolado da Legião      página 64]

 

6. Um idealismo forte e uma ação intensa, frutos da Legião

 

Se a Igreja se prendesse a uma rotina demasiadamente cautelosa, colocaria a Verdade de que é guarda, em situação desfavorável. A natureza generosa necessita de um ideal de ação; e se a juventude se acostumar a procurá-lo nas organizações ou sistemas não religiosos, isso constituirá uma desgraça terrível, cujas conseqüências atingirão as gerações futuras.

 

A Legião pode remediar este mal, realizando os seu programa de iniciativa, de esforços e de sacrifícios, ajudando a Igreja a apropriar-se destas duas palavras que dão vida: “Idealismo” e “Ação”, de modo a torná-las preciosas auxiliares da sua doutrina.

 

No dizer do historiador Lecky, o mundo é governado pelos ideais. Sendo assim, aqueles que criam um ideal mais alto, arrastam por ele, o gênero humano. Trata-se, é evidente, de um ideal prático e suficientemente claro, que possa ser atingido por todos. Admitamos que os ideais apresentados pela Legião correspondam a estas duas exigências.

 

Uma das mais importantes características da Legião será o desabrochar de numerosas vocações religiosas entre os legionários e os seus filhos.

 

Alguém poderá apresentar a objeção de que ninguém quererá assumir, no egoísmo universal em que vivemos, o “pesado” compromisso de membro da Legião. É um erro. A multidão daqueles que preferem uma vida vulgar passa sem deixar rastro. Pelo contrário, os poucos que correspondem, enérgicos, ao esforço exigido por um ideal mais elevado, permanecerão, transmitindo lentamente o seu ardor a outros.

 

Um Praesidium da Legião pode constituir um meio poderoso para ajudar o sacerdote no recrutamento cada vez maior de leigos que colaborem na evangelização dos que estão confiados aos seus cuidados. Deste modo, uma hora e meia, despendida por semana, a guiar os membros de um Praesidium, a encorajá-los, a sobrenaturalizá-los, vai lhe permitir estar em toda a parte, ouvir tudo, exercer influência em cada um, ultrapassando as possibilidades das suas forças físicas. Com efeito, a direção de vários Praesidia parece constituir uma das melhores aplicações do zelo de um pastor do rebanho.

 

O sacerdote, armado assim com os seus legionários, – armas humildes, como o bastão e a bolsa, a atiradeira e as pedras, mas tornados por Maria, instrumentos do Céu – pode avançar,


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como outro David, com a certeza antecipada da vitória, contra os mais provocadores Golias da descrença e do pecado.

 

“É a força moral e não a material que manterá o seu apostolado e assegurará o seu triunfo. Não são os gigantes os que mais fazem. Como era pequenina a Terra Santa! Todavia conquistou o mundo. E que insignificante não era a Ática! Não obstante formou o espírito humano. Um só era Moisés; um só, Elias; um só, David; um só, Paulo; um só, Atanásio; um só, Leão! A graça atua sempre por intermédio de poucos. Os instrumentos do Céu são: visão penetrante, convicção firme, resolução que não se deixa dominar; o sangue do mártir; a prece do santo, a ação heróica, a crise momentânea, a energia concentrada numa palavra ou num olhar. Não tenham medo, pequeno rebanho, porque é onipotente Aquele que está no meio de vocês e por vocês realizará prodígios” (Newman: A posição atual dos católicos).

 

7. Formação apostólica pelo método mestre e aprendiz

 

A formação de apóstolos é para a maior parte das pessoas um problema de fácil solução, mediante uma série de conferências e o estudo de livros de texto. A Legião julga, pelo contrário, que não pode haver formação efetiva sem trabalho correspondente que a acompanhe. A palestra sobre o apostolado, sem a realização de um trabalho real, levaria, talvez, a resultados apostos. Notemos que, ao expor o processo de concluir o trabalho, torna-se necessário descrever as suas dificuldades e apresentar motivos ou normas superiores para a sua perfeita realização. Falar desta maneira aos candidatos sem lhes mostrar ao mesmo tempo, de modo concreto, que o trabalho é fácil e está ao alcance das próprias forças, serviria apenas para intimidar e afastar. O sistema de conferência produz o teórico e também os homens que pensam converter o mundo com a atividade da inteligência. Tais pessoas perderiam o desejo de se consagrar aos serviços humildes e ao prosseguimento dedicado dos contatos individuais dos quais tudo depende, e que o verdadeiro legionário, diga-se de passagem, abraça prontamente.

 

A formação, no entender da Legião, deverá ser feita conforme o método mestre e aprendiz. É este o processo ideal de formação usado em todas as profissões e artes, sem exceção. Em vez de longas conferências, o mestre coloca a obra dian-


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te do aprendiz e, por demonstração prática, indica-lhe como se faz, explicando cada ponto à medida que o trabalho prossegue. Depois, sob o olhar do mestre que lhe corrige os desacertos, o aprendiz tenta por si mesmo, o trabalho. De tal método de formação surge o homem competente, o profissional. As palestras hão de basear-se, por conseqüência, no próprio trabalho, e cada uma das palavras se referirá a uma ação concreta, senão pouco fruto se há de colher. É estranho, mas há pouco aproveitamento de conferências, mesmo por parte de estudantes, regularmente aplicados!

 

Acrescente-se que, propor a pessoas desejosas de se iniciar numa organização apostólica, o sistema de conferências, seria afastar inúmeros candidatos. Poucos estariam dispostos a sujeitar-se a semelhante prova. A maior parte, ao deixar os bancos escolares, prometeu a si mesma, não voltar. Gente simples do povo fica apavorada diante da idéia de ter que voltar às aulas, mesmo “santas”. Daqui, a fraca atração exercida sobre as almas pelos métodos de estudo da estratégia apostólica. O processo legionário é mais simples e psicológico. “Venham conosco e trabalharemos juntos” – dizem os legionários. Convidam-nos não para uma aula, mas para o trabalho que eles mesmos estão fazendo. Certos de que a tarefa não excederá as suas energias, os novos operários alistam-se com entusiasmo na organização, tornando-se em breve apóstolos competentíssimos. Além de verem como os outros membros trabalham, os candidatos tomam parte nas atividades comum, e aprendem pelos relatórios e respectivos comentários, o melhor meio de os levar a bom fim.

 

“A Legião é muitas vezes criticada por falta de membros especializados ou por não insistir a que se dediquem a longos períodos de estudo. Digamos pois a este respeito: a) A Legião utiliza sistematicamente a contribuição dos seus membros mais bem qualificados. b) Evitando, embora, dar extrema importância ao estudo, esforça-se por preparar cada um dos seus membros, por métodos apropriados, para o seu apostolado particular. c) O objetivo dominante, porém, é apresentar uma estrutura com a qual a Legião possa dizer ao católico comum: ‘Venha, traga seu pouco talento e nós lhe ensinaremos a desenvolvê-lo e a usá-lo, por intermédio de Maria, para glória de Deus’. Não devemos esquecer que a Legião existe tanto para os humildes e desvalidos, como para os sábios e poderosos” (Padre Tomás O’Flynn, C.M., antigo Diretor Espiritual do Concilium Legionis Mariae).


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O PLANO DA LEGIÃO

           

1. A santificação pessoal: fim e meio

 

O meio comum e essencial de que a Legião de Maria se serve para atingir o seu fim, consiste na execução de um serviço pessoal sob o impulso do Espírito Santo, isto é, tendo como princípio motor e apoio, a graça divina e como último objetivo, a glória de Deus e a salvação das almas.

 

A santificação pessoal é assim não só o fim da Legião de Maria, mas, também o seu principal meio de ação: “Eu sou a videira, vós os ramos. O que permanece em Mim e Eu nele, esse dá muito fruto, porque sem Mim nada podeis fazer”  (Jo 15, 5).

 

“A nossa fé crê que a Igreja, cujo mistério, o sagrado Concílio expõe, é infalivelmente Santa. Com efeito, Cristo, Filho de Deus, que é com o Pai “o único santo”, amou a Igreja como esposa, entregou-se por ela, para a santificar (cf. Ef 5, 25-26) e uniu-a a Si como Seu corpo, cumulando-a com o dom do Espírito Santo, para glória de Deus. Por isso, todos na Igreja, quer pertençam à Hierarquia ou quer por ela sejam pastoreados, são chamados à santidade, segundo a palavra do Apóstolo: “esta é a vontade de Deus, a vossa santificação” (1Ts 4, 3; cf. Ef 1, 4). Esta santidade da Igreja incessantemente se manifesta, e deve manifestar-se, nos frutos da graça que o Espírito Santo produz nos fiéis; exprime-se de muitas maneiras em cada um daqueles que, no seu estado de vida, tendem à perfeição da caridade, dando bom exemplo ao próximo; aparece de um modo especial na prática dos conselhos chamados evangélicos. A prática destes conselhos, abraçados sob o impulso do Espírito Santo por muitos cristãos, quer particularmente, quer nas condições ou estados aprovados pela Igreja, leva e deve levar ao mundo, admirável testemunho e exemplo desta santidade” (LG 39).

 

2. Um sistema perfeitamente organizado

 

As grandes fontes de energia natural, se não forem canalizadas, perdem-se. De modo semelhante, o zelo sem método e o entusiasmo sem direção nunca produzem grandes resultados, quer interiores quer exteriores, e mesmo assim, a maior parte das vezes, são de pouca duração. Consciente disso, a Legião apresenta aos seus membros mais um modo de vida do que uma simples tarefa a realizar. Baseia-se, para tal, num sistema perfeitamente


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organizado, no qual, tem força de regra aquilo que em outras organizações é apenas aconselhado ou simplesmente sugerido, impondo, mesmo no que se refere a cada pormenor, a mais exata observância. Promete, como prêmio, a perseverança e um visível progresso nas virtudes da perfeição cristã, especialmente a fé, o amor a Maria, a intrepidez, a imolação de si próprio, a fraternidade, o espírito de oração, a prudência, a paciência, a obediência, a humildade, a alegria e o espírito apostólico.

 

“O desenvolvimento do que comumente chamamos apostolado dos leigos é uma das manifestações especiais do nosso tempo, tendo por si, se atendermos unicamente ao número dos que a ele se podem dedicar, possibilidades ilimitadas de expansão. Apesar disso, como nos parecem insuficientes as disposições tomadas para a manutenção e progresso deste movimento colossal! Quando se compara o grande número de congregações religiosas tão admiravelmente concebidas para atender às necessidades daqueles que abandonam o mundo, com a maneira pela qual estão organizados os que no mundo permanecem, – que contraste impressionante! De um lado, que escrupuloso cuidado e que sábia precisão – para fazer render ao máximo a atuação de cada um! Do outro, como são elementares e superficiais as disposições empregadas! A organização exige dos seus membros, inegavelmente, a realização de uma tarefa; mas esta, para a maior parte deles, não passa, na roda da semana, de simples distração, que dificilmente chegará a representar algo mais importante. Devemos ter, quanto a este serviço, o mais elevado conceito. Não deveria ele constituir, para cada um dos membros, a base de toda a sua vida espiritual, e ainda ser o seu bordão de peregrino na caminhada para o céu?”

 

Sem dúvida, as congregações religiosas devem servir de modelo aos leigos que trabalham em comum. Não é ousado afirmar que, em igualdade de circunstâncias, a qualidade de trabalho realizado aumentará na medida em que mais se aproximar dos métodos das congregações. Surge, porém, uma dificuldade: até que ponto se deve impor uma regra? Por mais desejável que seja a disciplina para se trabalhar com eficácia, corre-se constantemente o perigo de exagerar, diminuindo assim o poder de atração do organismo. Nunca devemos esquecer que se trata de uma organização permanente de leigos. Não equivale, de forma alguma, a uma nova ordem religiosa, nem pretende vir a ser, como outrora aconteceu, e muitas vezes, com outras organizações.


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“O fim que se pretende atingir é este e não outro: levar a uma organização eficiente as pessoas que têm uma vida comum – como nós a conhecemos – e nas quais devemos ter em conta as diferenças de gostos e ocupações, que nem sempre são de caráter puramente religioso. A regulamentação a impor não deve ultrapassar aquilo que possa ser aceito pela maior parte das pessoas, a que a organização é destinada, mas, também não deve ficar aquém” (Padre Miguel Creedon, primeiro Diretor Espiritual do Concilium).

 

3. A perfeição dos membros

 

Segundo a Legião, a perfeição dos seus membros deve avaliar-se, não pelo prazer causado pelos êxitos reais ou aparentes, mas pela fidelidade exata ao seu método. Só merecem o nome de legionários na medida em que obedecem ao sistema.

 

Exortam-se os Diretores Espirituais e os Presidentes dos Praesidia a relembrar constantemente este ideal de perfeição àqueles que lhes foram confiados. Constitui o ideal que todos podem atingir e que não está no êxito nem na consolação conquistada pelo trabalho. Só na sua realização encontrar-se-á o remédio eficaz contra a monotonia, o trabalho enfadonho, a falta de êxito real ou imaginário que, aliás, podem reduzir a nada, no campo do apostolado, as mais prometedoras esperanças.

 

“Devemos notar que os nossos serviços à Sociedade de Maria se avaliam, não pela importância do cargo que nessa sociedade desempenhamos, mas pelo grau de espírito sobrenatural e de zelo por Maria, com que nos dedicamos ao dever que nos é imposto pela obediência, – por mais humilde e apagado que seja” (Pequeno Tratado de Mariologia, por um Marianista).

 

4. A obrigação principal

 

Como primeira obrigação e a mais importante no seu sistema, a Legião de Maria impõe aos seus membros a participação das reuniões. O que a lente é para os raios solares é a reunião para os membros: foco que os concentra, os incendeia, e inflama tudo quanto dele se aproxima. É a reunião que faz a Legião. Ela é o vínculo: se esse vínculo for partido ou relegado ao abandono, os membros desertam pouco a pouco e a obra desmorona.


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Pelo contrário, quanto mais a reunião for respeitada, tanto mais se intensificará o benéfico poder da organização.

 

As seguintes palavras, traçadas nos primeiros tempos da Legião, representam ainda hoje, como outrora, o seu modo de pensar sobre o organismo e, conseqüentemente, sobre a importância fundamental da reunião, – foco, como acima se disse, do sistema: “Numa organização, o indivíduo, por mais categorizado que seja, desempenha o papel de dente numa roda. Cede, em parte, a sua independência à máquina, isto é, ao conjunto dos seus associados que deste modo produzem cem vezes mais. Um sem-número de indivíduos que, de outra maneira, permaneceriam inativos ou inferiores à sua tarefa, entram em movimento; e cada um deles trabalha, não mais com a sua reduzida força pessoal, mas com o ardor e a potência incalculáveis que lhe são transmitidos pelas melhores qualidades de cada associado. Reparem em um bocado de carvão caído por terra, e o imaginem depois, transformados em brasa, em uma fornalha ardente. Assim é com os homens.

 

A organização possui, desta maneira, independentemente dos indivíduos que a compõem, uma vida própria. Mais que a beleza ou a necessidade do trabalho realizado, esta característica parece ser, na prática, o ímã que atrai os novos legionários. O organismo estabelece uma tradição, gera a lealdade, impõe o respeito e a obediência, e inspira poderosamente todos os membros. Interroguem-nos e verão que eles confiam na Legião como em uma mãe cheia de sabedoria e de prudência. E tem razão. Não é ela que os defende de todas as armadilhas: das imprudências do zelo, do desânimo nas dificuldades, do orgulho no êxito, da hesitação na defesa de idéias rejeitadas por todos, da timidez na solidão e, em geral, da areia movediça onde se afunda a inexperiência? É ela que se apodera da matéria bruta da boa intenção, trabalha-a e a transforma; é ela, enfim, que empreende a ação num plano regular e lhe assegura a expansão e a continuidade” (Padre Miguel Creedon).

 

“Considerada em relação a nós, seus membros, a Sociedade de Maria é a extensão, a manifestação visível de Maria, nossa Mãe Celeste. Maria recebeu-nos na Sociedade, como em seu amoroso seio maternal, para nos formar à imagem e semelhança de Jesus e assim nos tornar seus filhos prediletos; para distribuir a cada um de nós uma tarefa apostólica, e associar-nos dessa maneira à sua missão de corredentora das almas. Para nós, a causa e os interesses da Sociedade identificam-se com a causa e os interesses de Maria” (Pequeno Tratado de Mariologia, por um Marianista).


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5. A reunião semanal do Praesidium

 

            O Praesidium reúne-se semanalmente, numa atmosfera sobrenatural de oração, de práticas de piedade e de suave espírito fraterno. Nesta reunião, é marcada uma tarefa especial a cada membro e recebido o relatório do trabalho realizado. A reunião semanal é o coração da Legião, de onde jorra, para as veias e artérias, o sangue, que garante a vida, a fonte da luz e da energia; é um tesouro inesgotável que provê a todas as necessidades. É o grande exercício de comunidade, onde o Salvador, segundo a Sua promessa, assiste invisível, no meio dos Seus, e onde graças especiais são derramadas sobre o trabalho de cada um. É aí que os legionários são formados no espírito de religiosa disciplina que os leva, primeiro, a agir no propósito de agradarem a Deus e de se santificarem a si próprios; em seguida, a recorrer à organização como o meio mais apropriado para atingirem estes fins; e, por último, a entregar-se inteiramente à tarefa que lhes foi confiada, sem jamais a subordinar aos seus gostos pessoais.

 

Considerem os legionários a assistência à reunião semanal do Praesidium como o primeiro e mais sagrado dever para com a Legião. Nada a pode substituir. Sem ela, o trabalho será como um corpo sem alma. A razão mostra e a experiência comprova que o descuido no cumprimento deste dever primordial será seguido de um trabalho ineficaz e, em breve, de inevitáveis desistências.

 

“Àqueles que não marcham com Maria aplicam-se as palavras de Santo Agostinho: ‘Bene curris, sed extra-viam’: corres bem, mas por fora do caminho. Aonde irás assim parar?”  (Petitalot)

 

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FINS EXTERNOS DA LEGIÃO

 

1. O trabalho atualmente em curso

 

A Legião não se propõe este ou aquele trabalho especial: tem como objetivo principal a santificação dos seus membros. Para atingir esta finalidade apóia-se, em primeiro lugar, na assistência às diversas reuniões, em que a oração e outras práticas de


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piedade estão tão unidas e entrelaçadas que moldam com suas características toda a atividade legionária. Mas a Legião procura desenvolver a santidade de um modo peculiar, dando-lhe o caráter de apostolado, aquecendo-a até o ponto de sentir a necessidade de se comunicar. Esta difusão não é apenas o aproveitamento de uma força em desenvolvimento, mas, por uma espécie de reação, é um elemento necessário ao desenvolvimento dessa mesma força: nada contribui mais para o progresso do espírito apostólico do que o exercício do apostolado. Daí, o motivo por que a Legião impõe a cada membro uma obrigação essencial da máxima importância: a de realizar semanalmente um trabalho ativo, determinado pelo Praesidium. A execução desta tarefa constitui um ato de obediência ao Praesidium. Salvas as exceções adiante indicadas, o Praesidium pode aprovar qualquer trabalho ativo que satisfaça a referida obrigação. Todavia, a Legião exige que o trabalho obrigatório seja orientado para reais necessidades e, entre estas, as mais graves, pois a intensidade do zelo que a Legião se esforça por inflamar nos seus membros exige um objetivo digno. Um trabalho insignificante provocará reações desfavoráveis: corações prontos a sacrificar-se pelo próximo, a pagar a Jesus Cristo amor com amor e, em reconhecimento pelos Seus trabalhos e por Sua morte, prontos a dar-Lhe o seu esforço e o seu sacrifício – acabarão por instalar-se na pobreza de uma rotina e na perda de entusiasmo pelo trabalho apostólico.

 

“Eu não fui recriado com a mesma facilidade com que fui criado. Deus disse uma palavra – e tudo foi feito; mas, se isto bastou para me criar, já para me recriar disse muitas palavras, obrou muitas maravilhas e sofreu muitas dores.” (São Bernardo).

 

2. O fim mais remoto e mais elevado: o fermento da comunidade

 

Por mais importante que seja o trabalho que esteja sendo realizado, a Legião não o considera como o fim último ou mesmo principal do apostolado de seus membros. O trabalho pode consumir uma, duas ou mais horas da semana do legionário; para a Legião, porém, que olha mais longe, cada hora deve constituir a irradiação do fogo apostólico aceso no seu lar. O sistema que inflama assim as pessoas lançou no mundo uma força poderosa. O espírito apostólico domina como senhor e tudo governa: pensamentos, palavras e ações. As suas manifestações externas não


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são limitadas pelo tempo nem pelo espaço. Os indivíduos mais tímidos e os menos dotados adquirem uma capacidade especial para influenciar os outros, de modo que, onde quer que estejam, e mesmo sem terem a intenção de exercer apostolado, conseguem dominar o pecado e a indiferença. É a experiência universal que no-lo ensina. Tal como o general que contempla, satisfeito, a sólida ocupação dos pontos estratégicos, a Legião vê com alegria os lares, as oficinas, as escolas, os estabelecimentos comerciais e os lugares dedicados ao trabalho e ao recreio, onde um verdadeiro legionário foi colocado pelas circunstâncias. Mesmo onde a falta de religião e o escândalo se encontram fortemente entrincheirados, a presença desta nova Torre de David impedirá o seu avanço e fará com que recuem. A Legião nunca dará seu apoio à corrupção: antes, deverá se esforçar em remediá-la, tornando-a objeto das suas orações, lamentando-a com mágoa, combatendo-a contínua e decididamente, em busca de um êxito que certamente há de alcançar.

 

Assim, pois, a Legião começa por reunir os seus membros a fim de que, perseverem em oração, juntamente com a sua Rainha. Envia-os em seguida aos lugares de pecado e de aflição, para aí praticarem o bem e para que fazendo-o, se inflamem na vontade de realizar maiores coisas; e, finalmente, estende o seu olhar para os largos caminhos e pequenos atalhos da vida de cada dia, a fim de neles descobrir campo de ação para missões, cada vez mais gloriosas. Conhecedora das realizações operadas por pequeninos núcleos legionários; ciente das possibilidades ilimitadas de recrutamento; e convicta de que o seu sistema, se vigorosamente utilizado pela Igreja, constitui um meio extraordinariamente eficaz para purificar o mundo pecador, a Legião deseja ardentemente que os seus membros se multipliquem e se tornem Legião no número, como o são no nome.

 

Unindo os legionários ativos, os auxiliares e aqueles que estão sob sua influência, a Legião conseguirá abranger uma população inteira e erguê-la do nível de negligência e da rotina a uma entusiasmada fidelidade à Igreja. Imagine-se o que isto significa numa aldeia ou cidade! Os fiéis deixam de ser um peso morto na Igreja, para constituírem uma força motriz, cujos impulsos, diretamente ou através da comunicação dos Santos, atingem os confins da Terra e, até os lugares mais sombrios. Uma população inteira organizada pela causa de Deus – que ideal sublime! Ideal não apenas teórico, mas possível e prático no mundo dos nossos dias, se todos resolverem levantar os olhos para o alto e a pôr mãos à obra.


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“Sim, o laicado é uma ‘raça escolhida, um sacerdócio santo’, chamado a ser o ‘sal da terra’, e a  ‘luz do mundo’. A sua missão específica é exprimir o Evangelho na vida pessoal e, desta forma, colocá-lo como fermento, na realidade do mundo, em que vive e trabalha. As grandes forças que moldam o mundo – a política, os meios de comunicação social, a ciência, a tecnologia, a cultura, a educação, a indústria e o trabalho – são precisamente as áreas em que os leigos gozam de uma especial competência no exercício da sua missão. Se estas forças forem guiadas por verdadeiros discípulos de Cristo, que sejam ao mesmo tempo inteiramente competentes nos conhecimentos humanos, podemos estar seguros de que o mundo será transformado, a partir de dentro, pelo poder redentor de Cristo.” (João Paulo II, Irlanda, Limerick, outubro de 1979).

 

3. A união de todos os homens

 

“Procurar primeiro o Reino de Deus e a Sua justiça” (Mt 6, 33), ou seja, trabalhar diretamente na salvação das almas, eis a preocupação maior da Legião de Maria. Não se deve esquecer, no entanto, que outras coisas lhe foram dadas por acréscimo, como, por exemplo, o seu valor como elemento social. Torna-se, assim, a Legião de Maria um tesouro nacional para o país onde se encontra, e converte-se, para os seus habitantes, em um valioso elemento de riqueza espiritual.

 

O exercício frutuoso da máquina social exige, como qualquer outro mecanismo, a cooperação harmoniosa de todas as suas peças. Cada uma, isto é, cada indivíduo, deve cumprir rigorosamente a função que lhe foi confiada causando o menor atrito possível.   Aliás, se o indivíduo não cumpre com a sua obrigação, surge o desperdício de energia, o bom andamento é perturbado e os dentes da roda da máquina social deixam de se ajustar uns aos outros. Reparar o mal é impossível, pois torna-se dificílimo descobrir-lhe a extensão ou as causas. Por isso, o remédio a adotar consiste em aumentar a força motriz ou lubrificar a máquina com mais dinheiro. Este remédio leva a um fracasso progressivo, pois diminui a noção de serviço ou de colaboração espontânea. Há sociedades com tal vitalidade que podem continuar a funcionar mesmo quando metade de suas partes se encontram mal engrenadas. Mas à custa de quanta pobreza, de quanta frustração e infelicidade! Não se poupam dinheiro nem esforços para pôr em


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ação peças que deviam mover-se sem dificuldade ou ser, até mesmo, fontes de energia. Resultado: problemas, desordens, crises. 

 

Ninguém ousará negar que isto se passa mesmo nos Estados mais bem governados. O egoísmo é a regra da vida individual; o ódio converte a existência de muitos em forças puramente destrutivas, e cada dia que desponta traz consigo uma nova e universal demonstração da verdade que pode ser expressa rigorosamente nestes termos: “Os homens que negam Deus, que Lhe são traidores, atraiçoarão igualmente todas as pessoas e tudo quanto existe abaixo de Deus – no Céu e na Terra” (Brian O’Higgins). 

 

A que alturas podemos esperar que se eleve o Estado, se ele não é mais que a soma das vidas individuais? Se as são um perigo e um tormento para si próprias, que poderão oferecer ao mundo senão uma parte da sua própria desordem?

 

Suponhamos agora que uma força nova surge na sociedade, comunicando-se de indivíduo a indivíduo, como que por contágio, e converte em centro de atração os ideais generosos de abnegação e de fraternidade: – que transformação não seria operada! As chagas vivas cicatrizam-se e a vida passa a ser vivida num nível superior. Imagine-se ainda o aparecimento de uma nação em que a vida se ajuste por estas elevadas normas e apresente perante o mundo o exemplo de um povo inteiro que pratica unanimemente a sua Fé, e resolve, em conseqüência, todos os seus problemas sociais. Quem põe em dúvida que tal nação passaria a constituir, para o mundo, um farol luminoso, a cujos pés se sentaria a Terra para alimentar-se da luz dos seus ensinamentos?

 

Ora é indiscutível que a Legião possui a força capaz de interessar os leigos na sua própria religião, de forma vital e também de comunicar um idealismo ardente aos que vivem sob a sua influência, fazendo-os esquecer as divergências, as distinções e as rivalidades e fazendo com que se resolvam a amar o gênero humano e a servi-lo devotadamente. Este idealismo, que se encontra enraizado na religião, não é um simples sentimento, não se evapora: disciplina o indivíduo, educando-lhe a vontade de servir; anima-o a sacrificar-se e torna-o capaz de maiores heroísmos.

 

Por quê? A razão está na causa motriz. A energia deve ter uma fonte. A Legião dispõe de um motivo que força a servir a comunidade. E o motivo é este: Jesus e Maria eram cidadãos de Nazaré. Amavam a sua aldeia e o seu país com religiosa devoção, pois para os judeus a fé e a pátria estavam tão divinamente enlaçadas que formavam apenas uma só coisa. Jesus e Maria viveram perfeitamente a vida comum de sua localidade. Cada pessoa, cada coisa ali era para eles objeto do mais profundo interesse. Se-


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ria impossível imaginá-los indiferentes ou descuidados sob qualquer aspecto.