MANUAL OFICIAL
DA
LEGIÃO DE MARIA
1ª edição no Brasil
conforme nova edição revista
e aumentada publicada pelo
Concilium em 1993
CONCILIUM LEGIONIS MARIAE
De Montfort House
North Brunswick Street
Dublin – Ireland
NOVA EDIÇÃO REVISADA NO BRASIL – 1996
Concilium Legionis –Dublin / Irlanda
Nada
obsta:
Joseph Moran, O.P.
Censor Theologicus Deputatus
Imprima-se:
+
Desmond Connell
Arcebispo de Dublin
Hiberniae
Primas
Dublin,
8 de dezembro de 1993.
SENATUS DO BRASIL
Nada
obsta:
Pe. Antonio Carlos Rossi Keller
Censor “ad hoc”
Imprima-se:
Paulo Evaristo Card. Arns
Arcebispo Metrop. de São
Paulo
São Paulo, 14. 6. 1996.
_____________________________________________________________
DISTRIBUIÇÃO
DE MATERIAIS:
Vide
relação anexa no final deste Manual.
Índice Geral dos Assuntos
Página
Abreviaturas
dos livros da Bíblia........................................................... 3
Abreviaturas
dos Documentos do Magistério........................................ 4
João Paulo
II à Legião de Maria............................................................. 5
Nota
Preliminar....................................................................................... 7
Perfil
de FRANK DUFF......................................................................... 8
Fotografias:
Frank Duff........................................................ face à
pág. 8
[Altar] Legionário.............................................
face à pág. 106
Vexilla...........................................................
face às págs.146-7
Capítulos:
1. Nome
e origem.................................................................................... 9
2.
Finalidade da Legião........................................................................... 11
3. O
espírito da Legião............................................................................ 12
4.
Serviço legionário............................................................................... 13
5.
Espiritualidade da Legião.................................................................... 17
6. Os
deveres dos legionários para com Maria........................................ 25
7. O
legionário e a Santíssima Trindade.................................................. 41
8. O
legionário e a Eucaristia................................................................... 44
9. O
legionário e o Corpo Místico de Cristo............................................ 50
10.
Apostolado da Legião......................................................................... 57
11. O
plano da Legião............................................................................... 67
12.
Fins externos da Legião....................................................................... 71
13.
Condições de admissão na Legião....................................................... 80
14. O
Praesidium....................................................................................... 83
15.
Compromisso legionário...................................................................... 89
16.
Graus suplementares da Legião........................................................... 91
17. As
almas dos legionários falecidos...................................................... 102
18.
Ordem a observar na reunião do Praesidium....................................... 104
20. O
sistema legionário não deve ser alterado......................................... 124
21. O
místico lar de Nazaré....................................................................... 126
22.
Orações da Legião............................................................................... 129
23. As
orações são invariáveis................................................................... 133
24.
Padroeiros da Legião............................................................................ 134
25. O Quadro
da Legião............................................................................. 143
27.
Vexillum Legionis................................................................................ 147
28.
Administração da Legião...................................................................... 150
29.
Lealdade legionária............................................................................... 168
30.
Solenidades legionárias......................................................................... 170
31.
Expansão e recrutamento.......................................................................
177
Página
32.
Antecipando objeções prováveis............................................................ 180
33.
Principais deveres dos legionários.......................................................... 188
34.
Deveres dos oficiais do Praesidium........................................................ 207
35.
Receitas e Despesas................................................................................ 217
36.
Praesidia que exigem tratamento especial............................................... 219
37.
Sugestões de trabalhos............................................................................. 227
38. Os
Patrícios.............................................................................................. 257
39.
Principais diretrizes do apostolado legionário......................................... 269
40.
“Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda a criatura”.............. 304
41. “A
maior das três é a caridade”
............................................................... 324
APÊNDICES:
Apêndice
1: Cartas e mensagens papais.......................................................... 327
Apêndice
2: Alguns extratos da Constituição
Lumen Gentium do Vaticano
II ................................................. 332
Apêndice
3: Trechos do Direito Canônico sobre as
obrigações e direitos dos
fiéis leigos na Igreja............................. 334
Apêndice
4: A Legião Romana......................................................................... 336
Apêndice
5: A Arquiconfraria de Maria, Rainha dos Corações....................... 338
Apêndice
6: A Medalha da Imaculada Conceição
chamada “Medalha Milagrosa”
.................................................... 340
Apêndice
7: A Confraria do Santíssimo Rosário............................................... 342
Apêndice
8: O ensino da Doutrina Cristã........................................................... 344
Apêndice
9: Associação de Pioneiros da Temperança
Total em honra do Coração
de Jesus............................................... 345
Apêndice
10: O estudo da Fé.............................................................................. 346
Apêndice
11: Síntese marial............................................................................... 349
Oração
de S. Bernardo........................................................................................ 352
Índice
das referências bíblicas............................................................................. 353
Índice
dos Documentos do Magistério.................................................................
355
Índice
das referências papais................................................................................
356
Índice
dos Autores e outras pessoas de interesse..................................................
357
Índice
geral dos assuntos (pormenorizado)
.......................................................... 360
Índice
alfabético dos assuntos...............................................................................
366
Nota
sobre as referências a Jesus Cristo................................................................
373
Poema
de José Maria Plunket................................................................................
374
Abreviaturas dos Livros da Sagrada Escritura
|
Antigo Testamento |
Novo Testamento |
|
GN Gênesis EX
Êxodo JS Josué 1 SM 1
Samuel 1 Cr 1 Crônicas Sl
Salmo Ecl Eclesiastes Ct Cântico
dos Cânticos Eclo Eclesiástico
Is
Isaías] Dn Daniel |
Mt Mateus, Mc Marcos, Lc
Lucas Jo
João , At Atos dos Apóstolos, Rm Romanos 1 Cor 1
Coríntios, 2 Cor 2 Coríntios, Gl Gálatas Ef Efésios Fl
Filipenses Cl
Colossenses 1 Ts 1
Tessalonicenses 1 Tm 1 Timóteo 2 Tm 2 Timóteo Hb
Hebreus 1 Pd
1 Pedro 1 Jo
1 João Jd
Judas |
Abreviaturas dos Documentos do Magistério
DOCUMENTOS DO VATICANO II (1962-1965)
AA Apostolicam
Actuositatem (Decreto sobre o Apostolado dos Leigos)
DV Dei
Verbum (Constituição Dogmática sobre a Divina Revelação)
GS Gaudium
et Spes (Constituição Pastoral sobre a Igreja no Mundo Contemporâneo)
LG Lumen
Gentium (Constituição Dogmática sobre a Igreja)
PO Presbyterorum
Ordinis (Decreto sobre o Ministério e Vida dos Sacerdotes)
SC Sacrosanctum
Concilium (Constituição sobre a Sagrada Liturgia)
UR Unitatis
Redintegratio (Reintegração da Unidade)
OUTROS DOCUMENTOS DO MAGISTÉRIO
AAS Acta
Apostolicae Sedis (Atos da Sé Apostólica)
AD Ad
diem illum (Jubileu da definição da Imaculada Conceição, S. Pio X, 1904)
AN Acerbo
Nimis (Ensino da Doutrina Cristã, S. Pio X, 1905)
CIC Catecismo
da Igreja Católica, 1992.
ChL Christifideles
Laici (A vocação e a missão dos fiéis leigos na Igreja e no Mundo, João Paulo II,
1988)
CT Catechesi
Tradendae (A catequese no nosso tempo, João Paulo II, 1979)
EI Enchiridion
Indulgentiarum (Lista oficial das indulgências e das leis que as regem. Sagrada
Penitenciaria, 1968)
EN Evangelii
Nuntiandi (Evangelização do mundo moderno, Paulo VI, 1975)
FC Familiaris
Consortio (A família cristã no mundo moderno, João Paulo II, 1981)
JSE Jucunda
Semper (O Rosário, Leão XIII, 1894)
MC Mystici
Corporis (O Corpo Místico de Cristo, Pio XII, 1943)
Mcul Marialis Cultus (A reta ordenação e
desenvolvimento da devoção à Bem-aventurada Virgem Maria, Paulo VI, 1974)
MD Mediator
Dei (A Sagrada Liturgia, Pio XII, 1947)
MF Mysterium
Fidei ( O Mistério da Fé – sobre o mistério da Eucaristia, Paulo VI, 1965)
MN Mens
Nostra (Retiros, Pio XI, 1929)
PDV Pastores Dabo Vobis (A formação dos
sacerdotes nos tempos atuais, João Paulo II, 1992)
RM Redemptoris
Missio ( A validade permanente do mandato missionário, João Paulo II, 1990)
RMat Redmptoris Mater (Maria, Mãe do Redentor, João
Paulo II, 1987).
SM Signum
Magnum (Consagração a Nossa Senhora, Paulo VI, 1967)
UAD Ubi
Arcano Dei (A paz de Cristo no Reino de Cristo, Pio XI, 1922).
Palavras do Santo Padre João Paulo II
A um grupo de legionários italianos em
30 de outubro de 1982.
1. As
minhas boas-vindas são dirigidas a cada um de vós. É um motivo de alegria para
mim ver-vos nesta sala em tão grande número, vindos das várias regiões da
Itália, tanto mais que sois apenas uma pequena parte do movimento apostólico,
que, no espaço de sessenta anos, se espalhou rapidamente pelo mundo e hoje, a
dois anos da morte do seu Fundador, Frank Duff, está presente em muitíssimas
dioceses da Igreja universal.
Os meus predecessores, a começar por Pio XI, dirigiram
palavras de reconhecimento à Legião de Maria, e eu próprio, no dia 10 de maio
de 1979, quando recebi uma das vossas primeiras delegações, recordei com grande
prazer as ocasiões em que tinha estado com a Legião, em Paris, Bélgica, Polônia
e agora, como bispo de Roma, no decurso das minhas visitas pastorais às
paróquias da cidade.
Hoje, portanto, ao receber em audiência a peregrinação
italiana do vosso movimento, gostaria de realçar aqueles aspectos que
constituem a substância da vossa espiritualidade e o vosso modo de ser e de
trabalhar dentro da Igreja.
2. Sois
um movimento de leigos que vos propondes fazer da fé a aspiração da vossa vida,
para conseguirdes a santidade pessoal. Sem dúvida que é um ideal sublime e
difícil. Mas hoje a Igreja, através do Concílio, chama todos os cristãos leigos
a este ideal, convidando-os a participar do sacerdócio real de Cristo, que eles
exercem pelo testemunho da santidade de vida, pela abnegação e caridade
concreta; a ser no mundo, com o esplendor da fé, esperança e caridade, aquilo
que a alma é para o corpo (Lumen Gentium, 10 e 38).
A vossa vocação própria, como leigos, isto é, a vocação a
serdes um fermento no Povo de Deus, uma força inspiradora no mundo moderno, a
conduzir o sacerdote ao meio do povo, é eminentemente eclesial. O mesmo Concílio
Vaticano Segundo exorta todos os leigos a aceitarem com pronta generosidade, o
chamamento a uma mais íntima união com o Senhor; considerando como de todos,
aquilo que lhes é próprio, participam na mesma missão salvífica da Igreja,
tornam-se seus instrumentos vivos, sobretudo onde, por causa das particulares
condições da sociedade moderna – o aumento constante da população, a redução do
número de sacerdotes, o surgimento de novos problemas, a autono-
mia de
muitos setores da vida humana – a Igreja dificilmente pode estar presente e
ativa (ibidem, 33).
A área do apostolado dos leigos está nos dias de hoje
extraordinariamente dilatada. Por isso, o compromisso da vossa típica vocação
torna-se mais urgente, estimulante, vivo e relevante. A vitalidade do laicato
cristão é sinal da vitalidade da Igreja. O vosso compromisso legionário
torna-se por isso mais urgente, considerando, por um lado, as necessidades da
sociedade italiana e das nações de antiga tradição cristã, e, por outro, os
brilhantes exemplos que vos precederam no vosso próprio movimento. Quero
lembrar-vos apenas alguns nomes: Edel Quinn, com a sua atividade na África
negra; Afonso Lambe, nas áreas marginalizadas da América Latina e, finalmente,
os milhares de legionários assassinados na Ásia ou que terminaram a vida nos
campos de trabalho.
Por outras palavras, vós pretendeis servir cada pessoa,
imagem de Cristo, com o espírito e solicitude de Maria.
Se o nosso único Mediador é o homem Jesus Cristo, como
declara o Concílio, “a função maternal de Maria em relação aos homens de modo
algum enfraquece o brilho ou diminui esta única mediação de Cristo; manifesta
antes a sua eficácia” (LG 60). Por isso, a Virgem é invocada na Igreja com os
títulos de Advogada, Auxiliadora, Perpétuo Socorro, Medianeira, Mãe da Igreja.
Daqui vem, que no seu nascimento e crescimento e no seu
trabalho apostólico, olha para Aquela que deu Cristo à luz, concebido pela ação
do Espírito Santo. Onde está a Mãe, aí está também o Filho. Aquele que se
afasta da Mãe acaba, mais cedo ou mais tarde, por se distanciar do Filho. Não é
de admirar que hoje, em vários setores da sociedade, notamos uma difundida
crise da fé em Deus, precedida de uma queda na devoção à Virgem Mãe.
A vossa Legião faz parte dos movimentos que se sentem
pessoalmente comprometidos a propagar ou fazer nascer a fé, mediante a expansão
ou o renascimento da devoção a Maria. Deste modo, será sempre capaz de fazer
quanto puder para que, pelo amor à Mãe, seja mais conhecido e amado o Filho –
caminho, verdade e vida de cada pessoa.
É nesta perspectiva de fé e de amor que vos concedo, de
todo o coração a Bênção Apostólica.
A presente edição deste Manual recebeu revisão de linguagem
a partir da edição de Portugal, traduzida diretamente do original inglês
(Dublin – Irlanda).
A equipe
responsável não fez qualquer alteração no conteúdo (não se contemplaram outros
aspectos como: normas, orientações pastorais etc., bem como os nomes em latim,
que foram mantidos), visto ser isso competência exclusiva do Concilium
Legionis.
Buscou-se, sempre sendo fiel ao original, tão somente
simplificar a linguagem, de modo a torná-la mais acessível e mais clara. Procurou-se
adequar o vocabulário, o máximo possível, à realidade de comunicação e
expressão do Brasil.
Que o mesmo Divino Espírito, que iluminou e animou este
trabalho, venha a suprir, no coração e no entendimento da família legionária,
as falhas que nossas limitações não conseguiram sanar.
Com carinho, pelas mãos de Maria,
EQUIPE DE REVISÃO
1921 – 1996
“LEGIÃO DE MARIA:
75 anos no Mundo e
45 Anos de Caminhada no Brasil”
A Legião é um
sistema que pode ser desequilibrado pela supressão ou alteração de qualquer das
suas partes. Dela poderiam ter sido escritos os seguintes versos de Whittier:
“Arrancai um só fio, e danificareis a teia.
Quebrai uma que seja dos milhares de teclas,
e o estrago há de repercutir-se em todas
elas”.
Por isso, se não
estais dispostos a pôr em prática o sistema como vem escrito nestas páginas,
por favor, não fundeis a Legião. Lede cuidadosamente a este respeito o capítulo
20: “O sistema legionário não deve ser
alterado”.
Além disso,
ninguém pertence à Legião, sem nela se haver filiado, através de um Conselho
devidamente aprovado.
Se a experiência
passada pode servir de exemplo, nenhum ramo da Legião falhará, no caso de se
conformar fielmente com as normas aqui traçadas.
Fundador da Legião de Maria
Frank Duff nasceu em Dublin, na Irlanda, a 7 de junho de
1889. entrou para o Funcionalismo Civil aos 18 anos. Aos 24, alistou-se na
Sociedade de S. Vicente de Paulo, onde foi levado a um mais profundo
compromisso com a sua Fé Católica e adquiriu, ao mesmo tempo, uma grande
sensibilidade às necessidades dos pobres e desfavorecidos.
Juntamente com um grupo de senhoras católicas e o Padre
Michael Toher, da Arquidiocese de Dublin, fundou o primeiro Praesidium da
Legião de Maria, a 7 de setembro de
Os seus ímpetos de profunda compreensão do papel da
Santíssima Virgem no plano da Redenção, bem como do papel dos fiéis leigos na
missão da Igreja, refletem-se no Manual, quase inteiramente, obras das suas
mãos.

Frank
Duff
[página 9]
LEGIÃO DE MARIA
“Quem é esta que
avança como a aurora, formosa como a lua, brilhante como o sol, terrível como
um exército em ordem de batalha?” (Ct 6, 9).
“O nome da Virgem
era Maria” (Lc 1, 27).
“Legião de Maria!
Que nome bem escolhido!” (Pio XI).
1
NOME E ORIGEM
A Legião de Maria é uma Associação de católicos que, com a
aprovação da Igreja e sob o poderoso comando de Maria Imaculada, Medianeira de
todas as graças, (formosa como a lua, brilhante como o sol e, para Satanás e
seus adeptos, terrível como um exército em ordem de batalha), se constituíram
em Legião para servir na guerra, perpetuamente travada pela Igreja contra o mal
que existe no mundo.
“Toda a vida humana, quer individual quer coletiva, se
apresenta como uma luta dramática entre o bem e o mal, entre a luz e as trevas”
(GS 13).
Este exército, hoje tão numeroso, teve a mais humilde das
origens. Não proveio de longas meditações: surgiu espontaneamente, sem
premeditações de regras e práticas. Surgiu a idéia. Marcou-se uma tarde para a
reunião de um pequeno grupo cujos componentes dificilmente supunham que estavam
a ser instrumentos da Divina e amorosa Providência. O aspecto daquela reunião
foi idêntico ao das reuniões legionárias que depois viriam a se efetuar em toda
a terra. No meio do grupo, sobre uma mesa,
[Capítulo 1 Nome e Origem página 10]
com uma
toalha branca, erguia-se uma imagem da Imaculada Conceição (igual à da Medalha
Milagrosa) ladeada por dois vasos de flores e duas velas acesas. Esta
disposição, tão expressiva no seu conjunto, fruto da inspiração de um dos
primeiros a chegar, refletia perfeitamente o ideal da Legião de Maria. A Legião
é um exército. E, antes mesmo de os legionários se reunirem, ela, a Rainha, já
aguardava, de pé, aqueles que certamente atenderiam ao seu chamado. Não foram
eles que a adotaram: foi ela que os adotou. E desde então, com ela marcharam e
combateram, certos de que haviam de vencer e perseverar, precisamente na medida
em que estivessem unidos a ela.
O primeiro ato coletivo destes legionários foi ajoelhar.
Aquelas cabeças jovens e ardentes inclinaram-se. Rezou-se a Invocação e a
Oração ao Espírito Santo; e depois, aqueles dedos que, durante o dia, haviam
trabalhado arduamente, desfiaram as contas do terço, a mais simples das
devoções. Terminadas as orações, sentaram-se e, sob a proteção de Maria
(representada por sua imagem), aplicaram-se a procurar os meios de mais agradar
a Deus e de O tornar mais amado neste mundo, que lhe pertence. Desta troca de
impressões nasceu a Legião de Maria, com a fisionomia que hoje apresenta.
Que maravilha! Quem, considerando a humildade de tais
pessoas e a simplicidade do seu procedimento, poderia prever, mesmo num momento
de entusiasmo, o destino que em breve as esperava? Quem, dentre elas, poderia
imaginar que estava sendo inaugurado um sistema que, sendo dirigido com
fidelidade e vigor, possuiria o poder de comunicar, através de Maria, a doçura
e a esperança às nações? Entretanto, assim havia de ser.
O primeiro alistamento dos legionários de Maria realizou-se
Circunstâncias, aparentemente casuais, determinaram o dia 7
de setembro, que parecia menos indicado que o seguinte. Só alguns anos depois –
quando provas sem número de um verdadeiro amor maternal, levaram à reflexão – é
que se compreendeu que, no ato do nascimento da Legião, esta recebera das mãos
de sua Rainha uma enternecedora carícia. “Da tarde e da manhã
[Capítulo 2 Finalidade da Legião página 11]
se fez
o primeiro dia” (Gn 1, 5); e com certeza os primeiros e não os últimos perfumes
da festa da sua Natividade eram os mais apropriados aos momentos iniciais de
uma organização, cujo principal e constante objetivo consiste em reproduzir em
si própria, a imagem de Maria, de maneira a glorificar melhor o Senhor e a
comunicá-lO aos homens.
“Maria é a Mãe de
todos os membros do Salvador, porque ela, pela sua caridade, cooperou no
nascimento dos fiéis, na Igreja. Maria é o molde vivo de Deus, porque foi só
nela que um Deus-Homem se formou, de verdade, sem perder qualquer traço da sua
divindade; e porque só nela é que o homem pode verdadeiramente e de uma maneira
viva, formar-se em Deus, na medida em que a natureza humana disto é capaz, pela
graça de Jesus Cristo” (Santo Agostinho).
“A Legião de Maria
apresenta a verdadeira face da Igreja Católica” (João XXIII).
2
FINALIDADE DA LEGIÃO
A Legião de Maria tem como fim a glória de Deus, por meio
da santificação dos seus membros, pela oração e cooperação ativa, sob a direção
da autoridade eclesiástica, na obra de Maria e da Igreja: o esmagamento da
cabeça da serpente e a extensão do reino de Cristo.
A menos que o Concilium aprove e as reservas apontadas no
Manual Oficial da Legião, a Legião de Maria está à disposição do Bispo da
Diocese e do Pároco para toda e qualquer forma de serviço social e de Ação
Católica que estas autoridades julguem convenientes aos legionários e útil à
Igreja. Os legionários nunca tomarão sobre si qualquer destas atividades numa
Paróquia sem a aprovação do Pároco ou do Ordinário. Por “Ordinário”, nestas
páginas, entende-se o Ordinário local, isto é, o Bispo diocesano ou outra
autoridade eclesiástica competente.
[Capítulo 3 O Espírito da Legião página 12]
a) “O fim imediato
de tais organizações é o fim apostólico da Igreja, isto é, destinam-se à
evangelização e à santificação dos homens e à formação cristã da sua
consciência, de modo que possam fazer penetrar o espírito do Evangelho, nas
várias comunidades e nos diversos ambientes.
b) Os leigos,
cooperando a seu modo com a Hierarquia, contribuem com a sua experiência e
assumem a sua responsabilidade no governo destas organizações, no estudo das
condições em que a ação pastoral da Igreja se deve exercer e na elaboração e
execução dos planos a realizar.
c) Os leigos agem
unidos, como um corpo orgânico, para que se manifeste com maior evidência a
comunidade da Igreja e para que o apostolado seja mais eficaz.
d) Os leigos, quer
se ofereçam espontaneamente quer sejam convidados à ação e à direta colaboração
com o apostolado hierárquico, trabalham sob a superior orientação da mesma
hierarquia, a qual pode aprovar essa cooperação com um mandato explícito” (AA
20).
3
O ESPÍRITO DA LEGIÃO
O espírito da Legião é o próprio espírito de Maria, de
quem os legionários se esforçarão, de modo particular, por adquirir a profunda
humildade, a obediência perfeita, a doçura angélica, a aplicação contínua à
oração, a mortificação universal, a pureza perfeita, a paciência heróica, a
sabedoria celeste, o amor corajoso e sacrificado a Deus e, acima de tudo, a sua
fé, virtude que só ela praticou no mais alto grau, jamais igualado. Inspirado
nesta fé e neste amor de Maria, a Legião lança-se a toda a tarefa, seja ela
qual for, “sem alegar impossibilidades, porque julga que tudo lhe é possível e
permitido” (Imitação de Cristo, L. III: 5).
“O modelo perfeito
desta vida espiritual e apostólica é a bem-aventurada Virgem Maria, Rainha dos
Apóstolos: levando na terra uma vida semelhante à do comum dos homens, cheia de
cuidados
[Capítulo 4 Serviço Legionário página 13]
domésticos e de trabalhos, a todo o momento
se mantinha unida a seu Filho e de modo singular cooperou na obra do
Salvador... Prestem-lhe todos um culto cheio de devoção e confiem à sua
solicitude materna a própria vida e apostolado” (AA 4).
4
SERVIÇO LEGIONÁRIO
1. O legionário deve “revestir-se da armadura de Deus” (Ef 6, 11).
A Legião Romana, cujo nome foi adotado pela organização,
atravessou os séculos com uma gloriosa tradição de lealdade, de coragem, de
disciplina, de resistência e de triunfos, embora a serviço de causas por vezes
indignas, ou, pelo menos, puramente terrenas (Conferir Apêndice 4: A Legião
Romana). Evidentemente que a Legião de Maria não pode apresentar-se à sua
Rainha com menos virtudes que a Legião Romana, como se fosse uma jóia, mas sem
as pedras preciosas que a enfeitam. As velhas virtudes daquele exército são,
por conseguinte, o mínimo exigido para o serviço legionário.
S. Clemente, que foi convertido por S. Pedro e trabalhou
com S. Paulo, propõe a Legião Romana como modelo a ser imitado pela Igreja.
“Quem são os
inimigos? São os perversos que resistem à vontade de Deus. Lancemo-nos pois,
resolutamente na batalha de Cristo e sujeitemo-nos às suas gloriosas ordens.
Atentemos bem para os que servem na Legião Romana, debaixo das autoridades
militares e notemos a sua disciplina, a sua prontidão, a sua obediência na
execução das ordens. Nem todos são prefeitos ou tribunos ou centuriões ou
chefes de cinqüenta homens ou de outro grau inferior de autoridade. Mas cada
homem, na sua escala, executa as ordens do Imperador e dos seus Oficiais
superiores. O grande não pode existir sem o pequeno, nem o pequeno, sem o grande.
Uma certa unidade orgânica liga todas as partes, de modo que cada uma ajuda as
demais e é ajudada por todas. Tomemos o exemplo do nosso corpo. A cabeça não é
nada sem os pés e os pés não são nada sem a cabeça. Mesmo os mais pequenos
órgãos do nosso corpo são necessários e de grande
[Capítulo 4 Serviço Legionário página 14]
valor
para o corpo inteiro. Com efeito, todas as partes trabalham unidas, em mútua
dependência, e aceitam uma obediência comum para bem de todo o corpo” (S.
Clemente, Papa e Mártir: Epístola aos Coríntios (AD. 96), cap. 36 e 37).
2. O legionário deve ser “uma hóstia viva, santa, agradável
a Deus... não conformado com este século”
(Rm 12, 1-2).
Deste alicerce, brotarão, no legionário fiel, virtudes
tanto mais elevadas, quanto mais sublime é a sua causa, e, acima de tudo, uma
nobre generosidade que será o eco das palavras de Santa Teresa d’Ávila:
“Receber tanto e dar tão pouco em troca! Oh! É um martírio que me leva à
morte”. Contemplando o Senhor Jesus crucificado que ofereceu por ele o último
suspiro e a última gota de sangue, o legionário deverá esforçar-se por
reproduzir no seu apostolado uma doação completa semelhante.
“Diz-me, meu povo:
que mais devia eu ter feito pela minha vinha, além do que fiz?” (Is 5, 4).
3. O legionário não deve furtar-se ao “trabalho e à fadiga” (2Cor 11, 27).
Como recentes acontecimentos comprovam, haverá sempre
lugares na terra, em que o zelo católico deve estar preparado para enfrentar a
tortura ou a própria morte. Assim muitos legionários passaram o limiar da
glória de maneira triunfal. Mas, em geral, a dedicação do legionário encontrará
um campo de ação mais modesto, embora lhe ofereça ampla oportunidade para um
heroísmo pacífico, que não será por isso, menos verdadeiro. O apostolado da
Legião obrigará o contato com muitos que, preferindo ficar longe de qualquer
influência salutar, manifestarão o seu desagrado ao receber a visita daqueles
cuja única missão é espalhar o bem. É claro que todos poderão ser conquistados,
mas somente o serão, à custa de um trabalho corajoso e paciente.
Olhares malévolos, injúrias e repulsas, caçoadas e críticas
agressivas, o cansaço do corpo e do espírito, ânsias torturantes provenientes
de insucessos e de dolorosas ingratidões, frio cortante, chuva que cega, lama e
vermes, mau cheiro, ruas escuras, ambientes asquerosos, renúncia voluntária a
prazeres legítimos, aceitação do sofrimento, próprio a todo o trabalho de
apostolado, a angústia
[Capítulo 4 Serviço Legionário página 15]
provocada
em toda a alma delicada, perante a falta de religião e a libertinagem, a dor de
quem partilha sinceramente o sofrimento do próximo – tudo isto não encerra
encanto algum para a natureza; mas, suportado com doçura e até com alegria,
levado com perseverança até o fim, aproximar-se-á, na balança divina, daquele
amor, o maior de todos, que consiste em dar a vida pelo amigo.
“Que darei eu ao
Senhor por todos os benefícios com que Ele me cumulou?” (Sl 116, 12).
4. O legionário deve “andar no amor, como também Cristo nos
amou e se entregou a Si mesmo por nós” (Ef 5, 2).
O segredo do bom êxito junto do próximo está em estabelecer
com ele um contato pessoal, contato de amor e de simpatia. Este amor deve ser
mais do que aparência. Tem se de ser capaz de resistir às provas da verdadeira
amizade, o que obrigará freqüentemente, a certo número de sacrifícios.
Cumprimentar, em meios de certa distinção, alguém que pouco antes visitamos na
cadeia; acompanhar publicamente pessoas andrajosas, apertar efusivamente mãos
pouco limpas; compartilhar de uma refeição oferecida numa casa pobre ou suja:
eis o que pode ser custoso para muitos. Mas, se assim não procedermos, a nossa
amizade passará por simulação: perde-se o contato e a alma que estava a ser
elevada afunda-se de novo na desilusão.
Na raiz de todo o trabalho verdadeiramente fecundo deve
estar o firme propósito de uma doação total de nós próprios. Sem esta
disposição, o apostolado não tem base. O legionário que delimita o seu zelo
declarando: “Sacrificar-me-ei até aqui, mas não mais”, embora gaste grandes
energias, realizará apenas um trabalho insignificante. Pelo contrário, se esta
boa vontade existe, ainda que nunca ou só em pequena escala, seja chamada a
atuar, não deixará de ser poderosamente produtiva em grandes obras.
“Jesus respondeu-lhe:
darás a tua vida por Mim? (Jo 13, 38).
5. O legionário deve “acabar a sua carreira” (2Tm 4, 7).
Assim, o serviço a que a Legião chama os seus soldados, não
tem limites nem restrições. Não se trata de um simples conselho de perfeição,
mas de uma necessidade, porque, se não visamos a um tal objetivo, a
perseverança no organismo é impossível. Man-
[Capítulo 4 Serviço Legionário página 16]
ter-se
durante uma vida inteira, no trabalho de apostolado, constitui por si mesmo,
heroísmo que só será atingido por uma série contínua de atos heróicos que
encontram a sua recompensa, na própria perseverança.
Mas a perseverança não é uma característica própria só do
indivíduo. Todo e cada um dos múltiplos
deveres da Legião deve levar o cunho de um esforço constante. Mudanças
acontecerão necessariamente: pessoas e lugares diferente que se visitam,
trabalhos que terminaram, substituídos por novos empreendimentos. Tudo isto,
porém, é o resultado da variação constante da vida e não o fruto de inconstância
caprichosa e de uma curiosidade sedenta de novidade, que acaba por arruinar a
melhor disciplina. Receosa deste espírito de instabilidade, a Legião apela
incessantemente para um espírito cada vez mais firme dos seus membros,
mandando-os depois de cada reunião para as suas tarefas, levando consigo uma
senha imutável: “Firme!”
A execução perfeita depende de um esforço contínuo que, por
sua vez, é o resultado de uma vontade indomável de vencer. Para obter esta
firmeza da vontade é essencial nunca ceder, nem pouco, nem muito. Por isso a
Legião impõe a todos os seus ramos e a todos os seus membros, uma atitude firme
que não combine com a aceitação de qualquer derrota ou com a tendência que leve
a qualificar este ou aquele pormenor do trabalho legionário com os termos de
“prometedor”, “pouco prometedor”, “desesperador”, etc. A facilidade de
classificar de “desesperador”, este ou aquele caso, acaba permitindo que uma
alma de preço infinito continue livre e desenfreadamente a sua corrida
descuidada para o inferno. Além disso, esse comportamento mostra que existe um
desejo irresponsável de mudanças e de progresso visível, que tende a substituir
o motivo mais sublime do apostolado, por outro menos elevado. E então a não ser
que a semente brote debaixo dos pés do semeador, surge o desânimo e cedo ou
tarde o trabalho é abandonado.
Mais ainda: a Legião declara com insistência que o ato de
classificar qualquer caso de desesperado enfraquece automaticamente a atitude a
assumir perante outros casos. Consciente ou inconscientemente, iniciar-se-á
qualquer trabalho com espírito de dúvida, perguntando-nos se vale ou não o
esforço a ser empregado. A menor sombra de dúvida paralisa a ação. E o pior é
que a fé deixará de atuar com a intensidade que se espera dela nos empreendimentos
da Legião, pois apenas se lhe permite modesta interferência, quando alguma
coisa parece razoável. Então a fé, bloqueada dessa maneira e barrada as suas
resoluções, apare-
[Capítulo 4 Serviço Legionário página 17]
cerão
imediatamente a timidez natural, a mesquinhez, a prudência do mundo, até ali
abafadas, e a Legião vai se encontrar diante de um serviço feito por acaso ou
indiferente, que constitui oferta vergonhosa, indigna do Céu.
Eis porque a Legião não se interessa senão secundariamente
pelo programa de trabalho; ela se preocupa em primeiro lugar, com a intensidade
do ardor colocado na sua realização. Não exige dos seus membros, riqueza ou
influência, mas uma fé firme, não exige grandes feitos, mas, unicamente um
esforço que não esmoreça; não exige talento, mas um amor que nunca se
satisfaça; não exige uma força gigantesca, mas uma disciplina contínua. O
trabalho do legionário deve ser inflexível e firme, recusando-se sempre a
admitir qualquer desânimo. No momento da crise, deve ser uma rocha e em todos
os momentos, constante. Deve esperar o bom êxito de maneira humilde, mas nunca
ser seu escravo. Na luta contra os insucessos, deve ser um corajoso combatente,
jamais desanimando, colocando-se sempre acima das dificuldades e monotonias, porque
elas lhe oferecem ocasião de provar a sua energia e a sua fé. Pronto e
resoluto, se o chamam; sempre alerta, quando na reserva; e mesmo sem combate,
sem inimigo à vista, sempre de sentinela, pela causa de Deus. Com o coração
cheio de ambições insaciáveis, mas contente com a função humilde de tapar uma
brecha; nenhum trabalho excessivo; nenhuma tarefa desprezível demais; em tudo,
a mesma cuidadosa atenção, a mesma paciência inesgotável, a mesma coragem
férrea; em cada tarefa a marca profunda da mesma firmeza inalterável. Sempre a
serviço do próximo, sempre à disposição dos fracos para os ajudar a atravessar
as horas difíceis de desânimo, sempre de guarda, à espera do momento em que
surpreenda naquele que até então teimava no erro, um sinal de sensibilidade; e
sempre incansável à procura dos transviados. Esquecido de si mesmo:
permanecendo junto da cruz de seus irmãos e não abandonando o seu posto, senão
quando tudo estiver consumado.
Nunca o desânimo deve penetrar nas fileiras de uma
associação consagrada à “Virgem Fiel” e que – para honra ou desonra – usa o seu
nome.
5
As orações da Legião refletem os princípios básicos da sua
espiritualidade. A Legião alicerça-se, em primeiro lugar, numa
[Capítulo 5 Espiritualidade da Legião página 18]
inabalável
Fé em Deus e no amor que Ele dedica a Seus filhos, de cujos esforços quer tirar
motivo de glória. Por isso, deseja Deus purificá-los e torná-los fecundos e
duradouros. Quando nos deixamos dominar pela indiferença ou por uma ansiedade
febril, é porque pensamos que Ele não passa de mero espectador do nosso
trabalho. Deveríamos antes tomar consciência de que, se as boas intenções
brotam em nós, é porque Ele aí as semeou e só frutificarão, se a sua virtude
nos amparar a todo o momento. Deus se preocupa mais com o bom êxito do nosso
trabalho do que nós próprios: esta ou aquela conversão, em que nos empenhamos,
deseja-a Ele infinitamente mais do que nós. Queremos ser santos? Por isso,
suspira Ele mil vezes mais do que nós mesmos.
A convicção da colaboração onipotente de Deus, bondoso Pai,
no trabalho da santificação pessoal e no serviço a favor do próximo, deve
constituir o apoio fundamental para os legionários. No caminho do bom êxito, só
pode haver um obstáculo: a falta de confiança. Tenhamos fé bastante e Deus se
servirá de nós para conquistar o mundo.
“Porque todo
aquele que nasceu de Deus vence o mundo; e esta é a vitória que vence o mundo,
a nossa fé” (1Jo 5, 4).
Acreditar quer
dizer “abandonar-se” à própria verdade da palavra de Deus vivo, sabendo e
reconhecendo humildemente “quanto são impenetráveis os seus desígnios e
desconhecidos os seus caminhos” (Rm 11, 33). Pela eterna vontade do Altíssimo,
veio Maria a encontrar-se, por assim dizer, no próprio centro dos “desconhecidos
caminhos” e dos “impenetráveis desígnios” de Deus e conforma-se a eles na
obscuridade da fé, aceitando plenamente e com o coração aberto, tudo quanto é
disposição dos desígnios divinos (RMat. 14).
1. Deus e Maria
Abaixo de Deus, é sobre a devoção a Maria, “maravilha
inefável do Altíssimo” (Pio IX), que a Legião se fundamenta. Mas qual a posição
de Maria em relação a Deus? Como todos os mortais foi tirada do nada; e embora
Deus a sublimasse a um “estado de graça imenso e inconcebível”, diante do Criador
Ela não passa do nada. Na verdade ela é, por excelência, a Sua criatura porque
Ele a trabalhou mais que nenhuma outra. Quanto mais Deus opera maravilhas em
Maria, tanto mais Ela se torna obra das Suas mãos.
Que grandes prodígios não realizou em seu favor!
[Capítulo 5 Espiritualidade da Legião página 19]
Com a idéia do Redentor, ela esteve presente no pensamento
de Deus desde toda a eternidade. Associou-a aos secretos desígnios dos Seus
planos de graça, tornando-a a verdadeira Mãe do Seu filho e daqueles que a Seu
Filho estão unidos. Fez todas estas coisas porque, em primeiro lugar, Ele
receberia de Maria, um ganho superior ao de todas as criaturas reunidas; e
ainda porque estava, no Seu plano, de maneira inatingível às nossas pobres
inteligências, aumentar por este meio, a glória que de nós próprios havia de
receber. Assim, a oração e o serviço amoroso com que testemunhamos a nossa
gratidão a Maria, nossa Mãe e auxiliadora da nossa salvação, não podem
representar prejuízo para Aquele que assim a criou. O que damos a Maria não vai
menos direta e inteiramente para Ele; não apenas é transmitido na sua
integridade, mas acrescentado com os méritos da intermediária. Maria é mais do
que uma fiel mensageira. Constituída por Deus, elemento vital do Seu plano de
misericórdia, a sua presença acrescenta ao mesmo tempo, a glória de Deus e a
nossa graça.
Assim como foi do agrado do eterno Pai receber por
intermédio de Maria, as homenagens que Lhe são dirigidas, assim se dignou, por
Sua grande misericórdia, escolher Maria para ser o canal pelo qual serão
derramadas sobre a humanidade as diversas demonstrações da Sua onipotência e
generosa bondade, começando pela causa de todas elas – a segunda Pessoa divina,
encarnada, nossa verdadeira vida, nossa única salvação.
“Se quero
tornar-me dependente da Mãe é para me tornar o escravo do Filho. Se desejo
tornar-me sua propriedade é para prestar a Deus com mais segurança, a homenagem
da minha sujeição” (Sto. Ildefonso).
2. Maria, Medianeira de todas as graças
A confiança da Legião em Maria é ilimitada, porque sabe
que, por decreto divino, o seu poder não tem limite. Deus deu a Maria tudo
quanto lhe podia dar. Tudo o que ela podia receber, recebeu-o plenamente. Deus
constituiu-a para nós um meio extraordinário de graça. Atuando em união com
ela, aproximamo-nos mais de Deus; e por isso adquirimos mais abundantes graças,
visto nos colocarmos na própria corrente da graça, pois Maria é a esposa do
Espírito Santo, o canal de todas as graças merecidas por Jesus Cristo. Nada
recebemos que não devamos a uma positiva intercessão da sua parte. Não se
contenta com transmitir-
[Capítulo 5 Espiritualidade da Legião página 20]
nos
tudo: tudo nos obtém. Penetrada de uma fé viva nesta função medianeira de
Maria, a Legião impõe-na aos seus membros como uma devoção especial.
“Julgai com que
amor ardente quererá Deus que honremos Maria, pois derramou nela a plenitude
dos Seus dons, de tal sorte que tudo que possuímos, esperança, graça, salvação,
tudo, – não duvidemos disso – tudo vem dela para nós” (S. Bernardo: Sermo de
Aquaeductu).
3. Maria Imaculada
O segundo aspecto da devoção da Legião a Maria é o culto da
Imaculada Conceição. Logo na primeira reunião os membros rezaram e deliberaram
em volta de um altarzinho da Imaculada Conceição, idêntico àquele que hoje
forma o centro de todas as reuniões legionárias. Além disso o primeiro sopro de
vida da Legião foi uma jaculatória em honra desse privilégio de Nossa Senhora,
que constitui a preparação para todas as dignidades e privilégios que depois
lhe foram concedidos.
Deus já tinha se referido à Imaculada Conceição, quando, no
Gênesis, nos prometeu Maria. Este privilégio faz parte integrante de Maria:
Maria é a Imaculada Conceição. Com este privilégio, a Sagrada Escritura anuncia
as suas celestes conseqüências: a Maternidade Divina de Maria, o esmagamento da
cabeça da Serpente, pela Redenção e, em relação aos homens, a Sua Maternidade
espiritual.
“Eu porei inimizade entre ti e a mulher e entre a tua
descendência e a dela: ela te esmagará a cabeça ao tentares mordê-la no
calcanhar” (Gn 3, 15). É nestas palavras dirigidas pelo Onipotente a Satanás,
que a Legião procura e encontra a confiança e a força na guerra contra o
pecado. Ela aspira, por isso, de todo o coração, a tornar-se plenamente a
descendência eleita de Maria, porque só assim terá o penhor da vitória: quanto
mais os seus membros se tornarem verdadeiros filhos da Imaculada, tanto mais
aumentará a sua hostilidade contra as potências do inferno e tanto mais
completa será a sua vitória.
“A Sagrada
Escritura, no Velho e no Novo Testamento e a venerável Tradição, mostram, de
modo progressivamente mais claro, e de certa forma nos apresentam o papel da
Mãe do Salvador na economia da salvação. Os livros do Antigo Testamento descrevem
[Capítulo 5 Espiritualidade da Legião página 21]
a história da salvação, na qual se vai
preparando lentamente a vinda de Cristo, ao mundo. Esses antigos documentos,
tais como são lidos na Igreja e interpretados à luz da plena revelação posterior,
vão pondo cada vez mais em evidência a figura de uma mulher, a Mãe do Redentor.
Vista sob esta luz, Maria encontra-se já profeticamente delineada na promessa
da vitória sobre a serpente (cfr. Gn 3, 15), feita aos primeiros pais caídos no
pecado” (LG 55).
4. Maria, nossa Mãe
Se pretendemos a herança de filhos, devemos estimar a
maternidade que nos dá direito a ela. O terceiro aspecto da devoção a Maria
consiste em honrá-la como nossa verdadeira Mãe, que de fato o é.
Maria tornou-se a Mãe de Jesus Cristo e nossa Mãe no
momento em que, respondendo à saudação do Anjo, exprimiu o seu humilde
consentimento: “Eis aqui a escrava do Senhor, faça-se em mim segundo a tua
palavra” (Lc 1, 38). A sua maternidade foi proclamada, no momento em que
atingiu a sua completa expansão, isto é, quando a Redenção se consumava. No
meio das dores do Calvário disse-lhe Jesus do alto da Cruz: “Mulher, eis aí o
teu filho” e a S. João: “Eis aí a tua Mãe” (Jo 19, 26-27). Na pessoa de S.
João, estas palavras foram dirigidas a todos os eleitos. Cooperando plenamente
pelo seu consentimento e pelas suas dores neste nascimento espiritual da
humanidade, Maria tornava-se no mais pleno e perfeito sentido, nossa Mãe.
Visto que somos seus verdadeiros filhos, devemos nos
comportar como tais e, como autênticas criancinhas, depender inteiramente dela.
Devemos pedir-lhe que nos alimente, nos guie, nos instrua, cure os nossos
males, console as nossas mágoas, nos aconselhe nas dúvidas e nos chame quando
nos extraviarmos; de maneira que, inteiramente entregues aos seus cuidados,
cresçamos na semelhança do nosso irmão mais velho, Jesus, e participemos da sua
missão de combate e vitória sobre o pecado.
“Maria é Mãe da Igreja não só por ser Mãe de
Jesus Cristo e a sua mais íntima colaboradora ‘na nova Economia, quando o Filho
de Deus assume dela a natureza humana, para, mediante os mistérios da sua
carne, libertar o homem do pecado’, mas também porque ‘brilha para toda a
comunidade dos eleitos, como modelo de virtude’. Como, na verdade, cada mãe humana
não pode limitar a sua
[Capítulo 5 Espiritualidade da Legião página 22]
missão à geração de um novo homem, mas deve
alargá-la à nutrição e à educação dos filhos, também assim se comporta a
bem-aventurada Virgem Maria. Depois de ter participado do sacrifício redentor
do Filho, e de maneira tão íntima que lhe fez merecer ser por ele proclamada
Mãe não só do discípulo João, mas – seja consentido afirmá-lo – do gênero
humano, por este de algum modo representado, Ela continua agora no céu a cumprir
a sua função materna de cooperadora no nascimento e no desenvolvimento da vida
divina em cada alma dos homens remidos. Esta é uma consoladora verdade que, por
livre consentimento do sapientíssimo Deus, faz parte integrante do mistério da
salvação humana: por isso ele deve ser considerada como de fé por todos os
cristãos” (SM).
Um dos mais queridos deveres da Legião consistirá em
manifestar uma sincera devoção à Mãe de Deus. Isso só poderá ser realizado por
intermédio dos seus membros, estando pois cada um deles obrigado a trabalhar
nesse sentido, através de sérias meditações e zelosas práticas.
Ora, para que esta devoção seja, em verdade, um tributo da
Legião, deve constituir uma obrigação essencial para a qual devem concorrer
todos em perfeita unidade – obrigação tão importante como a da reunião semanal
ou a do apostolado: eis aqui um ponto em que nunca será demais insistir.
Mas esta unidade é extremamente delicada, pois depende,
dentro de certa medida, da colaboração de cada membro, que pode infelizmente
comprometê-la. Compete a cada um o dever de velar cuidadosamente por ela. Se
esta unidade falhar, se os legionários não forem como que “pedras vivas de uma
construção, um edifício espiritual” (1Pd 2, 5), uma parte vital da estrutura da
Legião será mutilada. Se as pedras vivas não se assentarem de maneira
conveniente, o sistema legionário caminhará para a ruína e não abrigará nem
conseguirá reter os seus filhos, senão com dificuldade. E não será mais aquilo
para o que foi criado: um lar de nobres e santas virtudes, um ponto de partida
para decisões heróicas.
Ao contrário, se todos formarem um bloco no cumprimento
perfeito deste dever do serviço legionário, não só a Legião se distinguirá
entre todas as organizações pela sua elevada devoção a Maria, mas se
distinguirá também por uma maravi-
[Capítulo 5 Espiritualidade da Legião página 23]
lhosa
unidade de espírito, de fim e de ação. Esta unidade é tão preciosa aos olhos de
Deus que a revestiu de um irresistível poder. Se, para o indivíduo, a
verdadeira devoção a Maria é um canal extraordinário de graça, que não será ela
para uma organização que persevera, num mesmo espírito, em oração, com aquela
(At 1, 14) que tudo recebeu de Deus; que participa do seu espírito e entra
plenamente nos desígnios divinos no que respeita à distribuição da graça?! Por
acaso tal organização não será cheia do Espírito Santo? (At 2, 4). E de quantos
“prodígios e milagres” não será capaz? (At 2, 43).
“A Virgem no Cenáculo,
orando no meio dos Apóstolos e por eles, com uma intensidade indizível, atrai
sobre a Igreja este tesouro, que nela abundará por todo o sempre: a plenitude
do Espírito Consolador; dom supremo de Cristo” (JSE).
6. Oh! Se Maria fosse conhecida!
Ao sacerdote que luta quase desesperado num mar de
indiferença religiosa, recomendamos as palavras do Padre Faber, encontradas no
prefácio de “A Verdadeira Devoção a Maria” (fonte abundante de inspiração para
a Legião), da autoria de S. Luís de Montfort. Esta página poderá servir de
preparação para o exame das vantagens e benefícios que lhe podem advir da
Legião. O Padre Faber afirma, em síntese, que Maria não é suficientemente
conhecida e amada, com grave prejuízo para as almas: – “A devoção que se lhe
consagra é pequena, magra e pobre. Não confia em si própria. Por isso Jesus não
é amado, os hereges não são convertidos, a Igreja não é exaltada; por isso, as
almas que poderiam ser santas enfraquecem e degeneram; os sacramentos não são
devidamente freqüentados; as almas não são evangelizadas com ardente zelo
apostólico. Jesus é pouco conhecido, porque Maria é posta em segundo plano.
Milhares de almas se perdem, porque Maria lhes é recusada. E esta sombra
miserável e indigna, a que ousamos chamar a devoção à Virgem Santíssima, é a
causa de todas estas misérias e prejuízos, males e omissões e fraquezas.
Todavia, se tomarmos em devida consideração as revelações dos Santos, Deus
insiste por uma devoção à Sua Mãe Santíssima, maior, mais larga, mais vigorosa,
totalmente outra. Que alguém experimente esta devoção em si próprio, e a
surpresa perante as graças que ela traz consigo e
[Capítulo 5 Espiritualidade da Legião página 24]
as
transformações que produz na alma, vão convencê-lo da sua quase incrível
eficácia como meio de obter a salvação dos homens e a chegada do Reinado de
Jesus Cristo”.
“À Virgem poderosa
é dado o poder de esmagar a cabeça da Serpente; às almas unidas a ela, é dado
vencer o pecado. Devemos crer nisto com inabalável fé, com uma firme esperança”.
Deus que nos dar
tudo; tudo depende agora de nós e de ti, por quem tudo é recebido e
economizado, por quem tudo é transmitido, ó Mãe de Deus! Tudo depende da união
dos homens com aquela, a quem Deus tudo confia” (Gratry).
7. Levar Maria ao mundo
Visto que a devoção a Maria realiza tais prodígios, a nossa
preocupação deve consistir em tornar fecundo, semelhante instrumento; numa
palavra, deve consistir
Assim, usando o nome de Maria, com valor indizível, baseada
numa confiança ilimitada e filial na sua Rainha, tornada mais sólida e firme
pelo enraizamento profundo no coração de cada um, constituída por membros que
trabalham em perfeita harmonia de lealdade e disciplina – a Legião de Maria não
considera presunção, antes confiança legítima, o pensar que o seu sistema forma
um poderoso mecanismo que, para envolver o mundo, exige apenas ser acionado pela
mão da Autoridade. Maria se dignará então empregá-la como instrumento, para
realizar nas almas, a sua obra maternal e levar avante a sua perpétua missão de
esmagar a cabeça da serpente.
“Todo aquele que
faz a vontade de Deus, esse é meu irmão e minha irmã e minha mãe” (Mc 3, 35).
“Que prodígio e que honra! A que sublimidade de glória Jesus nos eleva! As
mulheres proclamam bem-aventurada aquela que O deu à luz; e, todavia, nada as
impede de participarem da mesma maternidade. É que o Evangelho nos fala aqui de
uma nova forma de geração, de um novo parentesco” (S. João Crisóstomo).
[página 25]
6
1. Cada legionário
terá, para com Maria, uma profunda devoção, incessantemente renovada por sérias
meditações e zelosas práticas. Deve considerar esta devoção como um dos deveres
legionários essenciais e, de todos, o mais importante. (Cf. Cap. 5: Espiritualidade da Legião, e
Apêndice 5: Confraria de Maria, Rainha dos Corações).
A Legião tem o propósito de levar Maria ao mundo, porque considera
este objetivo a forma infalível de ganhar o mundo para Jesus Cristo.
É evidente que o legionário
que não tem Maria no coração, não pode participar da Sua obra. Está divorciado
da finalidade da Legião. É um soldado desarmado, um elo partido, ou antes um
braço paralisado – unido embora ao resto do corpo – mas sem ação, inútil para o
trabalho.
A grande preocupação de todos os exércitos (e portanto da
Legião) é a união dos soldados com o chefe, de maneira que o plano deste seja
executado por todos prontamente. O exército age como um só homem. A isto, tende
o mecanismo complicado dos exercícios de combate e a sua disciplina.
Encontra-se, além disso, nos soldados de todos os grandes exércitos da
história, uma dedicação apaixonada pelo seu chefe, paixão que tornava mais
íntima a união entre eles e facilitava a aceitação dos sacrifícios exigidos
pela execução do plano de combate. De tal chefe se poderia dizer que ele era a
inspiração e a alma dos soldados, que vivia em seus corações, formando um só
com todos os seus homens. Assim se explica a influência que exercia sobre os
soldados; e isto, em certa medida, corresponde à verdade.
Esta união, porém, por mais perfeita que seja, não passa de
sentimental ou mecânica. A relação entre o cristão e Maria, sua Mãe, não é
assim. Dizer que Maria está na alma do legionário fiel seria exprimir uma união
infinitamente menos real do que a existente de fato. A Igreja resume a natureza
desta união nos louvores que tece a Maria, chamando-a “Mãe da Divina Graça”,
“Medianeira de Todas as Graças”. Estes louvores exprimem um tão perfeito
império sobre a vida da alma, que a mais estreita das uniões terrenas – a da
mãe com o filho por nascer – seria ainda imperfeita para exprimir esta
intimidade. Há, porém, fenômenos naturais
[Capítulo 6 Os deveres dos Legionários para com
Maria página 26]
que nos
podem ajudar a compreender o lugar de Maria na distribuição da graça. O sangue,
só pelo pulsar do coração, leva a vida a todo o corpo; os olhos são o meio
necessário para nos comunicarmos com o mundo visível; a ave, mesmo batendo as
asas, não pode elevar-se para o céu sem que o ar a sustenha. Da mesma maneira,
de acordo com o plano divino, a alma, sem Maria, não pode voar até Deus ou
realizar qualquer obra divina.
Esta dependência de Maria não é uma criação do sentimento ou da
razão, é uma realidade cuja existência depende do plano divino e não da nossa
inteligência. Existe, mesmo que não a conheçamos; mas pode e deve ser
fortemente fortalecida pela nossa aceitação consciente. Da nossa união íntima
com Maria, a quem S. Boaventura chama dispenseira do sangue do Senhor, hão de
resultar maravilhas de santificação e uma fonte incrível de influência sobre as
almas. Aquelas, a quem o ouro simples do apostolado não conseguir libertar do
pecado, serão salvas, logo que Maria enfeite o ouro, com as jóias do
Preciosíssimo Sangue, do qual dispõe livremente.
Comecemos, para isso, por nos consagrar fervorosamente a
Maria; renovemos freqüentemente esta consagração por meio de uma fórmula breve
que a resuma, tal como: “Eu sou todo
vosso, ó minha Rainha e minha Mãe, e tudo quanto tenho vos pertence”. Que a
alma ponha em prática, de maneira tão viva como contínua, o pensamento da
influência constante de Maria na sua vida, que dela se possa dizer: “Assim como
o corpo respira o ar, assim a alma respira Maria” (S. Luís Maria de Montfort).
Na Santa Missa, na sagrada comunhão, na adoração do
Santíssimo, na reza do terço, na prática da via-sacra e de outras devoções, a
alma legionária deve procurar identificar-se com Maria e meditar com Ela nos
augustos mistérios da Redenção. É que esta Mãe, acima de tudo fiel, viveu estes
mistérios com o Divino Salvador e neles desempenhou papel indispensável.
Imite-a e agradeça-lhe com ternura; alegre-se e
entristeça-se com ela; consagre-lhe o que Dante chama de “longo estudo e o
grande amor do seu coração”; esquecendo-se de si mesmo e dos seus recursos,
fixe nela o seu pensamento durante a oração, no trabalho e em todos os atos da
sua vida espiritual. Se assim proceder, o legionário encher-se-á de tal modo da
imagem e do pensamento de Maria, que formará com ela uma só alma. Perdido assim
na profundidade da alma da Mãe de Deus, o legionário partilhará da sua fé, da
sua humildade e da pureza do seu Coração Imaculado e, conseqüentemente, do seu
poder de oração; e
[Capítulo 6 Os deveres dos Legionários para com
Maria página 27]
há de
transformar-se, com rapidez, em Cristo, objetivo supremo da vida de todos. Por
outro lado, no seu legionário e por meio dele, Maria participa de todos os
deveres legionários e ainda dispensa às almas, os seus cuidados maternais, de
tal modo que em cada uma das almas, a quem o legionário se dedica e nos seus
companheiros de trabalho, não só é vista e servida a pessoa do Nosso Senhor,
mas é vista e servida através de Maria, com o mesmo amor primoroso e o mesmo
maternal cuidado que outrora, ela consagrou ao corpo de seu Divino Filho.
Quando os seus membros se tornarem assim, cópias vivas de
Maria, a Legião pode considerar-se, de verdade, Legião de Maria, cooperadora da
sua missão e certa de que com ela vai triunfar. A Legião há de dar Maria ao
Mundo, e esta há de iluminá-lo e inflamá-lo no mais ardente amor.
“Vivei alegremente
com Maria, com ela suportai todas as aflições; trabalhai, recreai-vos e
descansai com ela. Com ela procurai Jesus, levai-O em vossos braços; e, com
Jesus e Maria, fixai a vossa residência
A Legião fala aos seus membros, uma linguagem que respira o
ardor das batalhas. E com razão. Ela é o instrumento e a ação visível de Maria,
que é como um exército em ordem de batalha, e que trava uma luta intensa pela
salvação de cada ser humano. Além disso, a idéia de exército impressiona
poderosamente as pessoas. O fato de o legionário se considerar soldado, o
levará a cumprir, com uma seriedade militar, todos os seus deveres. Mas, como a
luta, em que andam empenhados os legionários, não é deste mundo, devem travá-la
conforme a tática do Céu. O fogo que arde nos corações dos verdadeiros
legionários, brota sempre das cinzas, de qualidades modestas e desapreciadas
pelo mundo; e, entre estas, ocupa lugar de destaque a virtude da humildade, tão
incompreendida e desprezada e, todavia, fonte de nobreza e energia
inconfundíveis para todos os que a procuram e praticam.
Na organização legionária, a humildade desempenha um papel
único. Primeiramente, é um instrumento essencial ao apostolado. A realização e
o progresso do contato pessoal, em
[Capítulo 6 Os deveres dos Legionários para com
Maria página 28]
que a
Legião fundamenta o seu trabalho, em tão larga escala, exige operários de
maneiras delicadas e modestas, qualidades que só podem brotar da verdadeira
humildade de coração. Mas a humildade é, para a Legião, mais do que instrumento
da sua ação externa: é a origem dessa ação. Sem humildade não pode haver ação
legionária eficaz.
Jesus Cristo, diz S. Tomás de Aquino, recomendou-nos acima
de tudo, a humildade, porque afasta o principal obstáculo à salvação dos
homens. Todas as outras virtudes derivam dela o seu próprio valor. Só à
humildade é que Deus concede os Seus favores, retirando-os logo que ela murcha
e desaparece. A Encarnação, fonte de todas as graças, dependeu da humildade.
Maria declara no Magnificat que Deus manifestou n’Ela o poder do Seu braço,
isto é, exerceu n’Ela a Sua onipotência. E expõe o motivo. Foi a humildade que
atraiu os Seus olhares e O fez descer à terra, para acabar com o velho mundo e
inaugurar uma nova era.
Como poderá Maria ser modelo de humildade, se considerarmos
que o seu grau de perfeição não pode ser medido, é quase infinito e ela bem o
sabia? Era humilde porque sabia, também, que tinha sido remida mais
perfeitamente que todos os filhos dos homens. Todas as maravilhas da sua
extraordinária santidade devia-as aos méritos de seu Filho; e este pensamento
vivia nela e nunca a largava. A sua inteligência sem par compreendia de maneira
perfeita que, assim como tinha recebido mais do que ninguém, como ninguém
estava em dívida para com Deus. Daí sua atitude de delicada e graciosa
humildade, sem esforço nem interrupção.
Na escola de Maria, o legionário aprenderá que a essência
da verdadeira humildade consiste em reconhecer com simplicidade, sem afetação,
aquilo que realmente somos aos olhos de Deus; e em compreender que, por nós,
nada somos e nada temos. Tudo que existe de bom em nós é puro dom de Deus: e
este dom Ele pode aumentar, diminuir ou retirá-lo completamente, com a mesma
liberdade com que no-lo concedeu. O legionário há de mostrar a sua sujeição,
numa preferência evidente pelas tarefas humildes e pouco desejadas; há de
mostrar também preferência na prontidão em aceitar desprezos e repulsas e, em
geral, na maneira habitual de proceder, perante as manifestações da vontade de
Deus, que há de ser o reflexo daquelas palavras de Maria: “Eis aqui a escrava
do Senhor!” (Lc 1, 38).
A necessária união do legionário com a sua Rainha exige
dele, não só o desejo profundo dessa união, mas a capacidade
[Capítulo 6 Os deveres dos Legionários para com Maria página 29]
para a
mesma. Uma pessoa pode querer ser um bom soldado e, no entanto, não ter jamais
as qualidades necessárias que possam fazer dela um bom dente de engrenagem na
máquina militar. Resultado: a união deste homem com o General é ineficaz, e
impede a execução dos planos militares. De maneira semelhante, o legionário
pode desejar ardentemente desempenhar uma parte importante nos planos de
campanha da sua Rainha, mas ser, todavia, incapaz de receber o que Maria
ardentemente deseja dar-lhe. No caso militar, a deficiência provém da falta de
coragem, de inteligência, de aptidão física e de qualidades semelhantes. No
legionário, a incapacidade provém da falta de humildade. O objetivo da Legião é
a santificação dos seus membros e a irradiação dessa santidade sobre as almas.
Ora, não pode haver santidade sem humildade. Além disso, a Legião exerce o seu
apostolado com Maria e por Maria. Se não nos assemelharmos a Maria, em certa
medida, não poderemos unir-nos a ela, e fraca será a semelhança, se lhe faltar
a virtude característica da humildade. Se a união com Maria é a condição
básica, indispensável, a raiz, por assim dizer, da ação legionária, então a
humildade é o solo onde esta união deve mergulhar as suas raízes. Se o solo é
pobre e árido, a vida legionária murcha e morre.
Segue-se, pois, que a batalha da Legião começa no coração
de cada legionário. Este tem de travar combate consigo mesmo, esmagando
decididamente o espírito de orgulho e de egoísmo.
Como é cansativa esta terrível batalha contra a raiz do mal
que se encontra dentro de nós, e este constante esforço para atingir em tudo, a
pureza de intenção! É a batalha de toda a vida. A confiança nos próprios
esforços inutiliza a vida inteira, porque o “eu” infiltra-se mesmo nos combates
contra si mesmo. De que valerão as próprias forças ao infeliz que se debate na
areia movediça? É necessário um ponto de apoio firme.
Legionário, o seu sólido apoio é Maria. Firme-se nela com
inteira confiança. Ela não lhe faltará, porque, está na humildade que lhe é
indispensável. A prática fiel do espírito de dependência de Maria é o caminho
real, simples e amplo da humildade, denominado por S. Luís de Montfort,
“segredo da graça, por poucos conhecido, capaz de rapidamente e com um esforço
mínimo nos esvaziar de nós mesmos, nos encher de Deus e nos tornar perfeitos”.
Medite esta verdade! O legionário, voltando-se para Maria,
deve necessariamente virar as costas a si mesmo. Maria apodera-se deste
movimento, elevar-o e torna-o instrumento sobrenatural de morte para o “eu”,
cumprindo-se assim a severa, mas produtiva
[Capítulo 6 Os deveres dos Legionários para com
Maria página 30]
lei da
vida cristã (Jo 12, 24-25). O calcanhar da humilde Virgem esmaga a serpente do
amor próprio, com as suas múltiplas cabeças, que são:
a) A exaltação de si mesmo: é que, se Maria, tão
rica em perfeições, a ponto de ser chamada pela Igreja “Espelho de Justiça”, e
dotada de ilimitado poder no reino da graça, se ajoelha, no entanto, como a
mais humilde serva do Senhor, qual não deve ser o lugar e a atitude do
legionário?
b) O egoísmo: porque tendo-se dado a Maria com todos
os seus bens, espirituais e temporais, para que deles disponha como for do seu
agrado, o legionário continua, no entanto, a servi-la com o mesmo espírito de
completa generosidade.
c) A auto-suficiência: porque o hábito de se apoiar
em Maria leva inevitavelmente à desconfiança das próprias forças.
d) A elevada idéia que faz de si mesmo: porque o
sentido da colaboração com Maria lhe traz a compreensão da sua própria
incapacidade. A contribuição do legionário resume-se em lamentáveis fraquezas!
e) O amor próprio: com efeito, que achará em si
mesmo digno de estima? O legionário, absorvido no amor e na admiração da sua
Rainha, sente-se pouco inclinado a afastar-se dela para se contemplar a si
próprio.
f) A admiração por si mesmo: porque, nesta aliança
com Maria, devem prevalecer os mais altos ideais. O legionário modela-se por
Maria e anseia pela sua perfeita pureza de intenção.
g) O próprio progresso: pensando como Maria, o
legionário se ocupará só de Deus. Não há lugar para projetos fomentadores de
orgulho ou desejo de recompensa.
h) A vontade própria: totalmente sujeito a Maria, o
legionário desconfia dos incentivos das próprias inclinações e escuta atento as
inspirações da graça.
No legionário que se esquece verdadeiramente de si mesmo,
Maria não encontra obstáculo à Sua maternal influência. Despertará nele,
energias e disposições para o sacrifício, que vão além das forças da natureza e
fará dele um bom soldado de Cristo (2Tm 2, 3), preparado para o árduo serviço
que a sua profissão exige.
“Deus alegra-se em
trabalhar com o nada. Foi do nada que Ele criou todas as coisas, reveladoras do
Seu poder infinito. Devemos ser imensamente zelosos da glória de Deus, mas
convencidos, ao mesmo tempo, da nossa incapacidade
[Capítulo 6 Os deveres dos Legionários para com Maria página 31]
servir-se dos nossos esforços, como
instrumentos da Sua glória. Para isso, lançará mão de meios completamente
opostos àqueles que somos levados a esperar. Depois de Jesus Cristo, ninguém
contribuiu mais para a glória de Deus, do que Maria; e, todavia, o único objeto
de seus pensamentos era o aniquilamento próprio. A sua humildade parece que
deveria constituir um obstáculo aos desígnios de Deus mas foi precisamente esta
humildade que facilitou o seu cumprimento” (Grou: O interior de Jesus e Maria).
Acentuamos em outra parte deste Manual que em Cristo, não
podemos escolher o que nos agrada: não podemos aceitar o Cristo glorioso sem
aceitar também, na nossa vida, o Cristo sofredor e perseguido. Só há um Cristo
– e este indivisível. Temos de tomá-lO como Ele é. Se procurarmos n’Ele a paz e
a felicidade, talvez verifiquemos que nos pregamos à Cruz. Os extremos
tocam-se, sem separação possível: não há triunfo sem dor, nem coroa sem
espinhos, nem glória sem amargura, nem calvário sem cruz. Estendendo a mão para
colher um deles e vamos nos encontrar envolvidos ao mesmo tempo com o outro.
A Nossa Senhora aplica-se a mesma lei. Também não podemos
dividir a sua vida em partes, para que cada um escolha a que mais lhe agrada. É
impossível acompanhá-la nas suas alegrias, sem que o nosso coração se despedace
com os seus sofrimentos.
Se quisermos, como S. João, o discípulo amado, trazê-la
para nossa casa (Jo 19, 27), terá de ser tal qual ela é, na sua integridade.
Preferir somente uma fase da sua vida é impossibilitar-se a recebê-la. A
devoção a Maria, é claro, deve atender e procurar reproduzir cada uma das
facetas da sua personalidade e da sua missão. O interesse principal não pode
perder-se com o que é menos importante: considerá-la, por exemplo, como modelo
perfeito, cujas virtudes devemos imitar, é bom; mas, se a devoção se limita a
uma tal atitude, não passa de parcial e mesquinha. Não basta dirigir-lhe
orações, mesmo que sejam em grande quantidade. No basta tão pouco conhecer e
alegrar-se com as maravilhosas e inumeráveis atenções com que as Três Pessoas
Divinas a rodearam e colocaram sobre ela, tornando-a assim, um reflexo das suas
próprias qualidades. Tais homenagens pertencem-lhe de direito e lhe devem ser
prestadas mas são, apenas, parte do todo. A devoção perfeita à mãe de Deus só
se alcança pela união com ela. União significa necessariamente comunhão de vida
com ela, e a
[Capítulo 6 Os deveres dos Legionários para com
Maria página 32]
sua
vida não se resume na preocupação com as homenagens de admiração, mas na
comunicação da graça.
A maternidade – primeiro de Cristo, depois, dos homens –
foi a única razão de ser da sua vida e do seu destino. Para tal fim foi criada
e preparada pela Santíssima Trindade, após deliberação eterna, como nota S.
Agostinho. Assumiu sua admirável missão no dia da Anunciação, e desde então tem
sido Mãe atenciosíssima no cumprimento dos seus deveres domésticos.
Restringiram-se eles por algum tempo a Nazaré, mas em breve, o pequeno lar
tornou-se o mundo inteiro, e seu Filho, o gênero humano. O seu zelo não
diminuiu: a todos os instantes o seu trabalho doméstico prossegue e nada se
pode fazer sem ela, nesta Nazaré imensa. Qualquer cuidado que nós pudermos dispensar
ao Corpo Místico de Cristo é apenas um complemento aos cuidados que ela mesma
lhe dedica. O apóstolo não faz mais do que associar-se às atividades maternais
de Maria. E neste sentido Nossa Senhora poderia declarar: “Eu sou o
Apostolado”, à semelhança do que outrora disse em Lurdes: “Eu sou a Imaculada
Conceição”.
Sendo a maternidade das almas a sua função essencial, a sua
verdadeira vida, segue-se que, sem participação nesta maternidade, não pode
haver união real com ela. Seja-nos permitido, por conseqüência, declarar mais
uma vez: a autêntica devoção a Maria conduz necessariamente ao apostolado.
Maria sem maternidade e cristão sem apostolado são idéias semelhantes: tanto
uma como a outra seriam incompletas, irreais, inconsistentes e falsas, para as intenções
divinas.
A
Legião não se baseia, portanto, como alguns pretendem, sobre dois princípios,
Maria e o Apostolado, mas sobre um só princípio – Maria – o qual abrange, por
si só, o apostolado e toda a vida cristã.
De boas intenções, diz o provérbio, o inferno está cheio.
Elas de nada valem, se não nos moverem a uma atitude positiva, na vida. E isso
pode acontecer com o oferecimento dos nossos trabalhos a Maria, se eles ficarem
num compromisso só de palavras. Não se pense que as obrigações apostólicas hão
de descer do céu, para pousarem de modo ostensivo sobre aqueles que se
contentam em esperar, passivamente, os acontecimentos. É de se recear que
semelhantes preguiçosos continuem indefinidamente no desemprego. O único meio
eficaz de nos oferecermos a Maria como apóstolos é fazer apostolado. Dado este
passo, Maria empolga a nossa atividade e incorpora-a na sua maternidade
espiritual.
Acresce ainda que Maria não pode realizar a sua obra
maternal sem este auxílio. Não irá longe demais esta afirmação?
[Capítulo 6 Os deveres dos Legionários para com
Maria página 33]
Como
pode a Virgem poderosa depender da ajuda de pessoas tão fracas? No entanto, é
verdade. A colaboração humana é um elemento necessário no plano divino; Deus só
salva o homem pelo homem. Os tesouros de graça de Maria são superabundantes,
mas não os distribuirá sem o nosso auxílio. Pudesse ela dispor do seu poder,
conforme os desejos profundos do seu coração e o mundo se converteria
rapidamente, num relance. Mas não! Tem de esperar que os homens se disponham a
servi-la. Sem eles, não pode cumprir a sua maternidade espiritual, e as almas
definham e morrem. Por isso, ela acolhe, com viva ânsia, e utiliza quantos se
coloquem realmente ao seu dispor: não só os santos e competentes, mas até os
enfermos e os incapazes. É tal a necessidade, que ninguém será rejeitado. Mesmo
os mais pequenos podem ser transmissores do seu poder; e, com os melhores, que
maravilhas não poderá fazer? Lembrem-se sempre desta imagem singela: vejam como
o sol atravessa deslumbrante a janela límpida, e, como luta para atravessá-la,
quando a encontra suja, para deixar passar um pouquinho de luz. Assim é com as
almas.
“Jesus e Maria,
eis o novo Adão e a nova Eva, a quem a árvore da cruz uniu na dor e no amor,
para reparar a falta cometida no Paraíso pelos nossos primeiros pais. Jesus é a
fonte e Maria o canal das graças, pelas quais renascemos e podemos reconquistar
o nosso lar celeste. Bendigamos, juntamente com o Senhor, Aquela que Ele elevou
à dignidade de Mãe de misericórdia, nossa Rainha, nossa Mãe amantíssima,
Medianeira das Suas graças e Despenseira dos Seus tesouros. O Filho de Deus
coroou-a de glória radiante e deu-lhe a majestade e o poder da Sua própria
realeza. Unida ao Rei dos Mártires, como Mãe e colaboradora na obra tremenda da
Redenção da humana raça, a Ele permanece unida para sempre, revestida de poder
praticamente ilimitado, na distribuição das graças que brotam da Redenção. O
seu império tem a vastidão do império do Seu Filho; nada escapa ao seu domínio”
(Pio XII: Discursos de 21 de abril de 1940 e 13 de maio de 1945).
Em circunstância alguma, o espírito de dependência com
relação a Maria deve constituir motivo para alguém se desculpar da falta de
esforço ou da falta de método. Deve ser justamente o contrário. Porque
trabalhamos com Maria e por ela, a nossa oferta
[Capítulo 6 Os deveres dos Legionários para com
Maria página 34]
há de
ser a mais excelente que se possa apresentar. Devemos trabalhar com energia,
destreza e primor.
De vez em quando, é preciso censurar certos núcleos ou
membros, que parece não desenvolverem esforço suficiente no cumprimento da sua
tarefa semanal, ou nos trabalhos de extensão ou recrutamento. Às vezes os
interessados respondem: “Eu não conto com as próprias forças! Confio
inteiramente a Nossa Senhora o cuidado de levar avante a tarefa imposta e
colher, a seu modo, resultados satisfatórios”. Acontece muitas vezes que tal
resposta procede de pessoas fervorosas, que são levadas a atribuir uma espécie
de virtude à própria inatividade, como se método e esforço significassem uma fé
mesquinha. Há também o perigo de se pensar que, se nós somos instrumentos de um
poder imenso, não interessa muito o grau do nosso esforço. Alguém perguntará
por que motivo deverá o pobre sócio de um milionário, esgotar-se com a
preocupação de ajuntar alguns magros reais, ao fundo comum que já está tão
enriquecido?
Torna-se necessário, por isso, insistir num princípio que
deve dirigir a atitude do legionário no seu trabalho. É este: os legionários
não são nas mãos de Maria simples instrumentos sem atividade própria. São
verdadeiros cooperadores dela no enriquecimento e resgate das almas. Nesta
cooperação, cada um supre o que o outro não pode dar. O legionário dá-se todo,
ação e talentos; Maria dá-se a si mesma, com toda a sua pureza e poder. Cada um
é obrigado a contribuir, sem reserva, para a obra comum. Se o legionário se
entrega a esta colaboração com honra e generosidade, Maria nunca faltará.
Podemos, por isso, afirmar que o bom êxito do empreendimento depende
inteiramente do legionário, de maneira que este deve se dedicar a ele com toda
a inteligência e com todas as forças, aperfeiçoadas por um método cuidadoso e
uma perseverança incansável.
Mesmo que soubéssemos que Maria obteria, independentemente
do legionário, o resultado suspirado, mesmo nesse caso, deveríamos desenvolver
plenamente os nossos esforços, como se tudo dependesse deles. Ao mesmo tempo
que deposita uma ilimitada confiança no auxílio de Maria, o esforço do
legionário deve elevar-se sempre ao máximo. A generosidade tem de igualar a sua
confiança. O princípio da necessária e mútua influência, entre a fé ilimitada e
o esforço intenso e metódico, é expresso pelos santos, quando declaram que
devemos rezar como se tudo dependesse da oração e nada de nós próprios; e, ao
mesmo tempo, agir como se tudo dependesse absolutamente do nosso esforço.
Não devemos, pois, medir a quantidade do esforço pela
dificuldade da tarefa, nem nos perguntar qual o menor preço
[Capítulo 6 Os deveres dos Legionários para com
Maria página 35]
para se
obter o fim desejado. Mesmo nos negócios materiais, o hábito de regatear leva a
constantes reveses e ilusões. Em matéria sobrenatural, há de falhar sempre,
porque afasta de nós a graça, da qual depende realmente, o êxito dos nossos
trabalhos. Além disso, os juízos humanos não merecem inteira confiança:
impossibilidades aparentes desaparecem logo que são enfrentadas, ao passo que o
fruto que está quase à altura da mão, mas teima em fugir-lhe, será talvez
colhido por outra pessoa. Na ordem espiritual, a lei do menor esforço precipita
a alma de mesquinhez em mesquinhez, até cair finalmente na esterilidade total.
Para o legionário evitar tão desagradáveis conseqüências, só lhe resta um meio:
desenvolver em todas as tarefas, grandes ou pequenas, o máximo da sua energia.
Talvez não seja necessária tal soma de esforços. Pode ser que o toque de um
dedo baste para levar a obra ao fim; e, se fosse a realização da obra, o único
objetivo, seria razoável e suficiente, um leve esforço; mas não mais do que
isso. Como diz Byron, ninguém levanta a clava de Hércules para esmagar uma
borboleta ou matar um mosquito.
Os legionários, porém, devem
tomar consciência de que não é diretamente pelo bom êxito que trabalham; mas,
antes, por Maria, independentemente da facilidade ou dificuldade da sua tarefa.
A esta devem eles dar do melhor que possuem, quer ela seja notável ou
insignificante. Hão de merecer, assim, a plena cooperação de Maria, que não se
negará a realizar prodígios, se isso for preciso. O legionário não pode fazer
grande coisa? Pois bem, se nisso puser toda a sua alma, Maria virá em seu
socorro, com todo o seu poder, dando a um pequeno movimento, o efeito da força
de gigante; e se, depois de haver feito quanto pôde, o legionário se encontrar
a mil léguas do bom êxito, ela encurtará a distância e a fará desaparecer,
alcançando pela sua colaboração, um resultado maravilhoso.
Mesmo que o legionário ponha em ação dez vezes mais de
esforço do que o preciso para realizar um trabalho, nada se perdeu. Não
trabalha ele por Maria? Não é ele um soldado ao serviço dos seus vastos
desígnios, dos seus misericordiosos intentos? Maria há de receber com júbilo, o
excedente deste esforço, multiplicá-lo-á abundantemente, para com ele, suprir
as graves necessidades da família do Senhor. Nada do que entregamos à cuidadosa
dona de casa de Nazaré, é perdido.
Mas se, pelo contrário, a contribuição do legionário é
lamentavelmente inferior àquela que a sua Rainha tem direito de exigir dele, as
mãos de Maria ficam como que amarradas e por
[Capítulo 6 Os deveres dos Legionários para com
Maria página 36]
isso,
ficam impedidas de conceder generosamente os seus dons. O contrato de comunhão
de bens, tão cheio de inúmeras e excepcionais possibilidades, entre Maria e o
legionário, é anulado pela negligência, da qual este se torna culpado. E que
triste perda, para as almas e para si mesmo, ser abandonado às próprias forças!
Inútil, pois, procurar desculpas para justificar esforços
insuficientes ou maneiras desordenadas de agir, alegando inteira confiança
Por isso, como se nada tivéssemos dito a este respeito,
recordemos o princípio fundamental da aliança do legionário com Maria: o
legionário deve dar tudo quanto estiver a seu alcance. A função de Maria não
consiste em completar aquilo que o legionário se recusa a fornecer. Ela não
pode – a inconveniência é clara – dispensar o legionário do esforço e do método
no trabalho, da paciência e da reflexão, de que é capaz, e com a qual tem
obrigação de contribuir para o tesouro de Deus.
Maria deseja ardentemente dar, em grande quantidade, mas só
pode agir assim, com as almas generosas. Desejosa de que os legionários, seus
filhos, possam extrair graças preciosas das imensas riquezas do Seu coração,
ela, usando as palavras do seu próprio Filho, convida-os “a servir com todo o
coração, com toda a alma, com toda a mente e com todas as forças” (Mc 12, 30).
O legionário deve pretender unicamente de Maria que ela
acrescente, purifique, aperfeiçoe, sobrenaturalize a sua atividade natural, e
faça com que os seus fracos esforços sejam capazes de realizar aquilo que,
aliás, lhe seria impossível: obras grandiosas em cuja realização, se preciso
for, se hão de cumprir as palavras da Escritura: os montes serão arrancados e
precipitados no mar, a terra será aplainada e os caminhos serão endireitados,
para se facilitar a entrada no reino de Deus.
“Todos nós somos
servos inúteis, mas servimos um Mestre sumamente econômico que tanto aproveita
uma gota de suor da nossa fronte como uma gota de orvalho celeste. Nada
desperdiça.
Não sei a sorte
deste livro, nem se chegarei ao fim dele ou se chegarei ao final desta página.
Sei, porém, o suficiente para empregar nele o resto das minhas forças e dos
meus dias” (Frederico Ozanam).
[Capítulo 6 Os deveres dos Legionários para com
Maria página 37]
5. Os legionários devem praticar a Verdadeira Devoção à
Santíssima Virgem,
segundo São Luís Maria de Montfort
É para desejar que a prática da devoção mariana do
legionário se revista daquela característica, que São Luís Maria de Montfort
ensinou sob o nome de “Verdadeira Devoção” ou “Escravatura de Jesus em Maria”,
e que resumiu nas suas obras: “Tratado
da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem” e “O segredo de Maria” (Cf. Apêndice
5).
Esta devoção exige um contrato explícito com a Mãe de Deus,
pelo qual nos entregamos inteiramente a ela, com todos os nossos pensamentos,
ações e bens, espirituais e temporais, passados, presentes e futuros, não
reservando para nós nem a mínima parcela. Numa palavra, o doador coloca-se numa
situação idêntica à do escravo, que nada possui de seu, em total dependência e
à inteira disposição de Maria.
Mas o escravo antigo era muito mais livre do que o escravo
de Maria. O primeiro era senhor dos seus pensamentos, da sua vida interior e,
portanto, livre em tudo o que o tocava de mais perto. A doação de nós mesmos a
Maria abrange todas as coisas: cada um dos pensamentos e movimentos da nossa
alma, as nossas riquezas escondidas e o mais íntimo do nosso ser. Tudo – até ao
último suspiro – é entregue a Maria, para que o empregue para a glória de Deus.
O nosso sacrifício a Deus é uma espécie de martírio, com Maria, servindo de
altar. Assemelha-se ao sacrifício do próprio Cristo que, começado também no
seio de Maria, publicamente confirmado em seus braços no dia da Apresentação,
abrange todos os momentos da Sua vida e se completa no Calvário, na Cruz do
Coração de Maria.
A Verdadeira Devoção abre por um ato formal de Consagração;
consiste, porém, e principalmente em viver essa mesma consagração. Deve ser não
um ato passageiro, mas um estado habitual da nossa alma. Se Maria não tomar
posse de toda a nossa vida e não só de alguns minutos ou de algumas horas, a
valor do ato de Consagração – mesmo freqüentemente repetido – não passa de uma
oração passageira. É como árvore plantada que não lançou raízes.
Não quer isto significar que sejamos obrigados a pensar
constantemente nessa Consagração. Assim como a vida física é regulada pela
respiração ou pelo pulsar do coração, sem que disso tenhamos consciência, assim
deve acontecer com a Verdadeira
[Capítulo 6 Os deveres dos Legionários para com
Maria página 38]
Devoção:
atuar incessantemente na vida da alma, mesmo que não tenhamos consciência
disso. Basta que, de tempos em tempos, recordemos os direitos de propriedade de
Maria sobre nós, por meio de pensamentos, atos e jaculatórias apropriadas; que
de maneira habitual, reconheçamos a nossa inteira dependência dela, sempre
vagamente presente em nosso espírito; e que, o nosso comportamento seja uma
conseqüência dessa consagração, em todas as circunstâncias da nossa vida.
O fervor, se acaso existe, pode ser proveitoso. Todavia, a
sua ausência não afeta o valor da Devoção. Muitas vezes, até, o fervor amolece
a piedade, enfraquecendo-a.
Notemos bem: a Verdadeira Devoção não depende de fervores
ou de sentimentos de qualquer espécie. Como um grande edifício, ela pode, às
vezes, ser abrasada pelos ardores do sol, enquanto os seus fundos alicerces se
mantêm frios como a rocha, em que se assentam.
Em geral, a razão é fria; a melhor resolução da nossa vida
pode ser glacial: a própria fé pode ser gelada como um diamante. No entanto,
estes são os alicerces da Verdadeira Devoção. Sobre eles assentará com firmeza,
e os gelos e as tempestades que desabam sobre as montanhas hão de deixá-la
ainda mais forte.
As graças que têm acompanhado a prática da Verdadeira
Devoção e o lugar que ocupa na vida espiritual da Igreja, parecem indicá-la,
com razão, como uma autêntica mensagem celeste. Isto afirmava já São Luís Maria
de Montfort. Ligava-lhe numerosíssimas promessas, cuja realização ficaria
garantida a quantos cumprissem as condições estabelecidas.
Consultem a experiência; interroguem aqueles para quem a
prática desta Devoção é mais do que um ato passageiro e superficial e
verificarão com que profunda convicção falam dos seus benefícios. Perguntem a
eles se não estão sendo vítimas dos sentimentos ou da imaginação. Hão de
responder-lhes sempre, que os frutos são demasiado evidentes para admitir
ilusões.
Se a soma das experiências daqueles que compreendem,
ensinam e praticam a Verdadeira Devoção vale alguma coisa, parece indiscutível
que esta Devoção aumenta consideravelmente a vida interior, imprimindo-lhe um
caráter especial de generosidade e de pureza de intenção. Temos a sensação de
sermos guiados e protegidos e a alegre certeza de tirarmos, desde então, o
melhor proveito possível da nossa vida. Com ela enfrentamos sobrenaturalmente
as mil e uma dificuldades da existência: a coragem se fortalece, a fé torna-se
mais firme, fazendo-nos fiéis instrumentos de qualquer obra de Deus. Com ela,
desenvolve-se
[Capítulo 6 Os deveres dos Legionários para com
Maria página 39]
em nós,
uma ternura e sabedoria, que obriga a força a ocupar o lugar que lhe convém e
desenvolve-se também uma suave humildade, guarda de todas as virtudes.
Recebemos graças que temos de considerar extraordinárias. Sentimo-nos chamados,
freqüentemente, a obras que ultrapassam os nossos méritos e dotes naturais. Com
tal chamamento surgem auxílios que nos habilitam a carregar, sem
desfalecimento, gloriosos e pesados fardos. Numa palavra, em troca de um
esplêndido sacrifício que fizemos pela Verdadeira Devoção, entregando-nos a
Maria como escravos de amor, ganhamos o cêntuplo prometido àqueles que se
despojam de tudo, pela maior glória de Deus. Quando servimos, reinamos; quando
damos, enriquecemo-nos; quando nos entregamos, vencemos.
Algumas pessoas parecem reduzir toda a sua vida espiritual,
muito simplesmente, a uma questão egoísta de lucros e perdas. Ficam
desconcertadas perante a idéia de abandonar a Maria, Mãe das almas, as suas
riquezas espirituais. Ouve-se dizer: “Se eu der a Maria tudo o que me pertence,
não poderá acontecer encontrar-me, à hora da morte, diante do Supremo Juiz, de
mãos vazias, e por conseguinte, com um Purgatório necessariamente prolongado?”
A resposta é simples e bela: “Não, de modo nenhum, uma vez que Maria assiste ao
julgamento!” O pensamento contido nesta reflexão, é profundo.
Mas a hesitação em fazer a Consagração provém, na maioria
das vezes, não tanto das nossas considerações puramente egoístas, como da nossa
insegurança. Nós nos preocupamos com a sorte futura daqueles por quem temos
obrigação de rezar – a família, os amigos, o Papa, a Pátria, etc. – se
entregarmos a Maria todos os nossos tesouros espirituais. Ponhamos de lado tais
receios e façamos ousadamente a nossa Consagração. Com Maria tudo está seguro.
Ela é a guarda dos próprios tesouros de Deus e, por isso, também, capaz de
guardar os tesouros daqueles que depositam nela a sua confiança. Lancemos,
portanto, no seu coração excelso e generoso, a absoluta totalidade da nossa
vida, com todas as responsabilidades, obrigações e compromissos. Nas suas
relações conosco, Maria procede como se não tivesse outros filhos. A nossa
salvação, a nossa santificação, as nossas múltiplas necessidades estão,
indiscutivelmente, presentes no seu espírito. Quando rezamos pelas suas
intenções, estejamos certos de que nós somos a sua primeira intenção.
Não é neste momento, em que aconselhamos o sacrifício, que
convém provar que a Consagração é de fato lucrativa. Seria destruir os próprios
alicerces da oferta e privá-la do caráter do sacrifício, de que depende o seu
valor. Baste recordar que, em
[Capítulo 6 Os deveres dos Legionários para com
Maria página 40]
ocasião,
uma multidão de dez ou doze mil pessoas se encontrava esfomeada em lugar deserto
(Jo 6, 1-14). Uma só pessoa havia que levara, para comer, cinco pães de cevada
e dois peixes. Pediram-lhe que os cedesse para o bem de todos. E ele o fez,
generosamente. Os cinco pães e os dois peixes foram então abençoados pelo
Senhor, partidos e distribuídos à multidão imensa, que comeu até se saciar e,
no meio dela, o próprio doador. Os restos encheram, a transbordar, doze cestos!
Suponhamos agora que o tal indivíduo tivesse dito: “Que são cinco pães e dois
peixes para tanta gente? Além disso, eu preciso deles para os meus parentes que
estão comigo, cheios de fome. Não os posso dar”. Mas não! Deu-os e recebeu ele
e toda a família, da refeição milagrosa, muito mais do que havia entregue, com
certo direito indiscutível sobre o conteúdo dos doze cestos, se acaso desejasse
reclamá-lo.
É assim que Jesus e Maria tratam sempre a alma generosa que
se entrega a eles com todos os seus bens, sem reservas nem condições. O dom da
criatura, por eles divinamente multiplicado, basta para satisfazer as
necessidades de uma multidão imensa. As nossas necessidades e intenções que,
parece, deveriam sofrer com isso, são satisfeitas prodigamente, pela bondade
divina.
Apressemo-nos, pois, a entregar a Maria os nossos pães e
peixinhos: vamos depositá-los em seu colo, para que Jesus e ela os multipliquem
e, com eles, saciem milhões de almas que morrem de fome, no árido deserto deste
mundo.
Não vamos mudar a forma externa das nossas orações
ordinárias, ou o curso das nossas ações de cada dia, pelo fato de nos havermos
consagrado a Maria. Continuemos a empregar o tempo como antes e a rezar pelas
nossas intenções habituais e particulares, sujeitos, porém, à aceitação da
Santíssima Virgem.
“Maria mostra-nos
seu Divino Filho e dirige-nos o mesmo convite que outrora dirigiu aos servos de
Caná: “Fazei tudo o que Ele vos disser” (Jo 2, 5). Se, obedecendo à sua voz,
lançarmos nas talhas da Caridade e do Sacrifício a água sem sabor dos mil
pormenores da nossa vida diária, renovar-se-á o milagre de Caná. A água
converter-se-á em vinho delicioso, quer dizer, em graças de eleição para nós e
para os outros” (Cousin).
[página 41]
7
Não deixa de ser significativo o fato de o primeiro ato
coletivo da Legião ter sido a invocação e a oração ao Espírito Santo, logo
seguidas do Terço à Virgem e a seu Divino Filho.
Quando alguns anos mais tarde, se decidiu modelar o
Vexillum, o Espírito Santo passou a ser a característica predominante do novo
emblema. O projeto (coisa estranha!) havia sido fruto, não de uma preocupação
teológica, mas artística. Tratava-se de transformar o estandarte da Legião
Romana, que não tinha nenhum sentido religioso, em estandarte da Legião de
Maria. A pomba substituiria a águia e a imagem de Nossa Senhora substituiria a
do Imperador ou do Cônsul. Daí a representação final, em que o Espírito utiliza
Maria como canal das Suas influências vivificadoras e toma posse da Legião.
A pintura da Tessera, mais tarde, veio ilustrar a mesma
atitude de devoção: o Espírito Santo aparece pairando sobre a Legião. Por Seu
poder onipotente se trava um combate sem fim: a Virgem esmaga a cabeça da
Serpente, enquanto os seus batalhões avançam, vitoriosos, sobre as forças
adversas.
Secundária, mas interessante, é a circunstância de a cor da
Legião ser a cor vermelha e não a cor azul, como era lícito esperar. Assim foi
decidido, em relação à cor do halo da imagem de Nossa Senhora, no Vexillum e na
Tessera. Requeria o simbolismo a representação da Virgem, cheia do Espírito
Santo e, por conseqüência aureolada de vermelho. Daqui surgiu a idéia de a cor
da Legião ser a cor vermelha. A Tessera, em que a Senhora aparece radiante como
a bíblica Coluna de Fogo e envolta nas chamas do Espírito Divino, sublinha
ainda o mesmo pensamento.
Assim, ao compor a fórmula do Compromisso, impunha-se
logicamente – embora de início causasse surpresa – que ela fosse dirigida ao
Espírito Santo e não à Rainha da Legião. Batia-se assim na mesma tecla: o
Espírito Santo é o regenerador do mundo, não havendo graça concedida aos
indivíduos, por mínima que escape à Sua ação e Maria é sempre a Sua Medianeira.
Por virtude do Espírito, o Eterno Filho de Deus faz-se homem no seio de Maria.
O gênero humano uniu-se desta forma à Santíssima Trindade e Maria passou a
ligar-se, por uma relação única e distinta, a cada uma das Pessoas Divinas. É
um dever para nós procurar entrever esta tríplice relação. A compreensão
[Capítulo 7 O Legionário e a Santíssima Trindade página 42]
do
Plano Divino é sem dúvida uma grande graça, que não está fora do nosso alcance.
Insistem os Santos na necessidade de bem distinguir as Três
Divinas Pessoas e de prestar a cada uma delas a devida atenção. A este
respeito, o Credo Atanasiano (1) é absoluto e estranhamente
ameaçador, pois se trata do fim último da Criação e da Encarnação – a glória da
Santíssima Trindade.
(1)
Profissão de Fé cuja forma surgiu com o I Concílio Ecumênico (Nicéia – ano
325); quando Santo Atanásio defendeu
brilhantemente a divindade de Jesus contra aqueles que o consideravam uma
simples criatura do Pai, inferior a Ele e não o Filho de Deus.
Mas como poderemos nós penetrar, embora obscuramente, em
tão incompreensível mistério? Com certeza, só pela luz divina, que podemos
solicitar confiadamente da Virgem Maria, a quem pela primeira vez foi exposto,
com clareza o mistério da Trindade. A revelação teve lugar no momento histórico
da Anunciação. Pelo seu Arcanjo, a Trindade Santíssima assim se manifestou a
Maria: “O Espírito Santo descerá sobre ti e a virtude do Altíssimo te cobrirá
com a Sua sombra. E, por isso mesmo, o Santo que há de nascer de ti será
chamado Filho de Deus” (Lc 1, 35).
Aparecem nesta revelação de modo evidente as Três Divinas
Pessoas. Primeiro, o Espírito Santo, a quem é atribuída a obra da Encarnação;
em seguida, o Altíssimo,o Pai d’Aquele que há de nascer; e finalmente a Criança
que “será grande e chamada Filho do Altíssimo” (Lc 1,32).
A consideração das diferentes relações da Virgem com as
Divinas Pessoas vai nos ajudar a distingui-las de maneira mais perfeita.
A relação de Maria com a Segunda Pessoa Divina – a maternidade – é a mais acessível ao nosso
entendimento. A sua maternidade, porém, é de natureza mais íntima, mais
contínua e infinitamente mais elevada que a maternidade humana normal. No caso
de Jesus e de Maria, a união das almas ocupa o primeiro plano, e a da carne, o
segundo; de tal forma que, embora se tenham separado fisicamente na ocasião do
nascimento de Jesus, a união dos dois não só não se interrompeu, como progrediu
até, por graus incompreensíveis de intensidade, a ponto de Maria poder ser
declarada pela Igreja, não apenas “aliada” da Segunda Pessoa Divina –
Correndentora na obra da Salvação, Medianeira da Graça – mas de fato,
“semelhante a Ele”.
Do Espírito Santo,
Maria é comumente chamada, o templo ou o santuário. Semelhantes termos,
todavia, não exprimem
[Capítulo 7 O Legionário e a Santíssima Trindade página 43]
totalmente
a realidade, a união íntima e profunda do Espírito Santo com a Virgem, união
que a elevou à dignidade tão sublime que só Ele a excede. O Espírito Divino
apossou-se de Maria, fez uma só coisa com ela, e animou-a de tal sorte que pode
ser considerada a sua verdadeira alma. Maria não é um mero instrumento ou canal
da Sua atividade divina; é, antes, a Sua Cooperadora inteligente, consciente, a
ponto de se poder afirmar que a ação de Maria é a ação do Espírito Santo e que
a rejeição da intervenção de Maria é a rejeição simples da intervenção do
Espírito Divino.
O Espírito Santo é Amor, Beleza, Poder, Sabedoria, Pureza e
tudo quanto é divino. Quando desce em plenitude a uma alma, desaparecem as
dificuldades e os mais graves problemas encontram solução de acordo com a
Vontade Divina. Aceitando a Sua colaboração, o homem entra no domínio da
onipotência (Sl 77). Ora, uma das condições para O atrair a nós é a compreensão
da relação da Virgem com Ele. Outra, porém, existe e vital, uma especial
consideração pelo Espírito Santo como Pessoa real e distinta, com a Sua missão
específica junto do gênero humano. Um tal apreço não conseguirá manter-se sem
que o nosso espírito se volte com freqüência para Ele. Se lançarmos mão desta
prática nas nossas devoções à Santíssima Virgem, todas elas se poderão orientar
para o Espírito Santo. O Rosário, por exemplo, é uma oração que os legionários
poderão utilizar especialmente desta forma. É que o Rosário constitui uma
excelente devoção ao Espírito Santo, não só por ser a principal forma de oração
a Nossa Senhora, como também pelo fato de conter os quinze mistérios em que se
celebram as mais importantes intervenções do Espírito de Deus, no drama da
Redenção.
A relação de Maria com o Eterno Pai é usualmente definida como a de Filha. Semelhante título
propõe-se designar:
a) a posição de Maria como “a primeira de todas as
criaturas, a mais grata Filha de Deus, a mais próxima e a mais querida”.
(Newman);
b) a plenitude da sua união com Jesus, pela qual contraiu
uma nova relação com o Pai (1), que lhe dá direito a ser chamada
misticamente, a Filha do Eterno Pai;
(1)
“Como Mãe de Deus, Maria contrai uma certa afinidade com o Pai” (Lépicier).
c) a semelhança sublime com o Pai, que a tornou capaz de
dar ao mundo a Luz Eterna que nasce do seio deste Pai amoroso.
A designação de “Filha” talvez não nos dê a entender
bastante, a influência que a sua relação com o Pai lhe permite exer-
[Capítulo 7 O Legionário e a Santíssima Trindade página 44]
cer em
nós, filhos d’Ele e dela. “Deus Pai comunicou a Maria a Sua fecundidade, tanto
quanto era possível comunicar a uma simples criatura, para lhe dar o poder de produzir
Seu Filho e todos os membros do Seu Corpo Místico” (S. Luís Maria de Montfort).
A sua relação com o Pai é um elemento fundamental, sempre presente, no fluxo de
vida que verte para as almas. Deus exige que os Seus dons ao homem se traduzam,
por parte deste, em apreço e cooperação. Por conseguinte, esta união
vivificante deve ser objeto freqüente dos nossos pensamentos. O Pai Nosso, que
os legionários repetem tantas vezes, rezado com esta especial intenção, dará
satisfação plena a este dever. Composto por Jesus Cristo, nele pedimos o que
nos é mais necessário e do modo mais perfeito. Rezado com inteira consciência e
no espírito da Igreja Católica, realizará perfeitamente o propósito de
glorificar o Eterno Pai e de prestar-Lhe a homenagem do nosso reconhecimento,
pelo dom superabundante com que nos presenteou, por Maria.
“Recordemos para
confirmar a dependência que devemos ter da Santíssima Virgem, o exemplo que nos
deram as Pessoas da Santíssima Trindade.
O Pai não deu e
não dá o Seu Filho senão por Maria; não adota filhos senão por ela, nem
comunica as Suas graças senão por ela. Deus Filho não foi formado para todo o
mundo, senão por Maria, nem é formado e gerado todos os dias senão por ela, em
união com o Espírito Santo e só por meio dela comunica os seus merecimentos e
virtudes. O Espírito Santo não formou Jesus Cristo senão por ela, e só por meio
dela distribui os Seus dons e favores. Depois de tantos e tão manifestos
exemplos da Santíssima Trindade, poderemos nós, sem uma cegueira extrema,
dispensar-nos de Maria, não nos consagrarmos a ela, nem dela depender?” (S.
Luís Maria de Montfort: Tratado de Verdadeira Devoção, 140).
8
Como já acentuamos, a santidade dos membros é de
fundamental importância para a Legião. Além disso é também o seu principal meio
de ação. É que o legionário não pode ser canal
[Capítulo 8 O Legionário e a Eucaristia página 45]
de
graças para os outros, senão na medida em que ele próprio as possui. Por isso,
ao ingressar na Legião, cada membro pede insistentemente por intermédio de
Maria a plenitude do Espírito Santo e a graça de ser instrumento do Seu poder
divino, que há de renovar a face da terra.
As graças assim pedidas brotam todas, sem exceção, do
Sacrifício de Jesus no Calvário. É pela Santa Missa que o Sacrifício da Cruz se
perpetua entre os homens. A Missa não é, pois, uma simples representação
simbólica do passado: ela torna real e atualmente presente no meio de nós essa
ação sublime que Nosso Senhor consumou no Calvário e pela qual remiu a
humanidade.
A Cruz não vale mais do que a Missa, porque são um e mesmo
sacrifício, afastados o tempo e o espaço pela mão do Onipotente. O Sacerdote e
a Vítima são idênticos, difere apenas o modo de oferecer o Sacrifício. A Missa
contém tudo quanto Jesus Cristo ofereceu a Deus e tudo quanto alcançou para os
homens; e o oferecimento dos que participam da Missa torna-se um só com o
próprio sacrifício do Salvador.
O legionário deverá recorrer à Missa, se deseja, para si e
para os outros, uma participação abundante nas riquezas da Redenção. A Legião
não impõe aos seus membros qualquer obrigação concreta sobre a participação na
Missa, pois as ocasiões e circunstâncias da vida de cada membro são muito
diferentes. Todavia, preocupada com eles e com seus trabalhos, insiste com
todos e suplica-lhes que tomem parte nela, com freqüência – diariamente se for
possível – e recebam nessa ocasião a Sagrada Comunhão.
Se os legionários são obrigados a agir sempre em união
íntima com Maria, é sobretudo no ato solene da participação na Santa Missa que
o devem fazer.
Como sabemos, a Missa compõe-se de duas partes principais,
a Liturgia da Palavra e a Liturgia Eucarística. É importante ter presente que
estas duas partes estão tão intimamente unidas que formam um só ato de culto
(SC 56). Por isso, os fiéis devem tomar parte na Missa inteira, onde estão a
mesa da Palavra e a mesa do Corpo de Cristo, para que por elas sejam instruídos
e alimentados (SC 48, 51).
“O sacrifício da
Missa não é tão somente uma recordação simbólica da Cruz. Ao contrário, a Missa
torna atualmente presente o sacrifício do Calvário, como uma excelsa realidade
não sujeita a tempo e a espaço. O espaço e o tempo desaparecem, pela mão do
Onipotente. O mesmo Jesus que morreu na Cruz está ali presente. Os
participantes unem-se à Sua vontade santíssima e sacrifical; e,
[Capítulo 8 O Legionário e a Eucaristia página 46]
por Jesus presente no meio deles consagram-se
ao Pai celeste como uma viva oblação. A Santa Missa é, pois, uma tremenda
realidade, a realidade do Gólgota: torrente de dor e de arrependimento, de amor
e de devoção, de heroísmo e de espírito de sacrifício, que brota do altar e
corre sobre a comunidade em oração” (Karl Adam: O Espírito do Catolicismo).
2. Liturgia da Palavra
A Missa é, acima de tudo, a celebração da fé, daquela fé
que nasceu em nós e foi alimentada pela audição da Palavra de Deus. Recordemos
a este respeito as palavras da Instrução Geral sobre o Missal (nº 9): “Quando
na Igreja se lê a Sagrada Escritura, é o próprio Deus que fala ao Seu povo, é
Cristo presente na Sua palavra quem anuncia o Evangelho. Por isso, as leituras
da Palavra de Deus, que oferecem à Liturgia um dos elementos de maior
importância, devem ser escutados por todos com veneração”. A homilia é
também de grande importância: parte necessária da Missa nos Domingos e Dias
Santos, e também desejável nos outros dias. Pela homilia, o sacerdote explica o
texto sagrado à luz dos ensinamentos da Igreja, para o crescimento da fé dos
presentes.
Nossa Senhora é o modelo da nossa participação na palavra,
porque “é a Virgem que sabe ouvir, que acolhe a palavra de Deus com fé, fé que
foi para Ela a preparação e o caminho para a maternidade divina” (MCul 17).
Nosso Senhor não começou a obra da Redenção, sem o
consentimento de Maria, solenemente pedido e livremente dado; nem a completou
no Calvário, sem a sua presença. “Por esta comunhão de sofrimentos e de
vontades entre Maria e Cristo, mereceu ela, com justíssima razão, tornar-se a
Restauradora do mundo perdido e a Despenseira de todas as graças, que Jesus
alcançou com a Sua morte e com o Seu sangue” (AD 9). Junto a Cruz do Salvador
esteve Maria, representando o gênero humano; também agora,
[Capítulo 8 O Legionário e a Eucaristia página 47]
Com Maria, no Calvário, estiveram também os representantes
de uma Legião – o centurião e a sua coorte – que desempenharam um fúnebre papel
no oferecimento da Vítima, embora não soubessem que estavam crucificando o Senhor
da Glória (1Cor 2, 8). E ó maravilha! a graça desceu, em torrentes, sobre os
seus corações. “Contemplai e vede”, diz S. Bernardo, “como a fé tem o olhar
penetrante. Reparai bem nos seus olhos de lince! Por ela, no Calvário, o
Centurião reconheceu a vida na morte; e, num último suspiro, o Espírito
soberano”. Contemplando a sua Vítima morta e desfigurada, os legionários
romanos proclamaram-na Verdadeiro Filho de Deus (Mt 27, 54).
A conversão destes homens grosseiros e cruéis foi o fruto
repentino e inesperado das orações de Maria. Estranhos filhos, os primeiros que
a Mãe dos homens recebeu no Calvário e que lhe tornaram para sempre tão
querido, o nome de legionários. Depois disto, quem poderá duvidar de que ela,
quando os seus legionários – unindo-se às suas intenções, elemento integrante
da sua cooperação – participam todos os dias da santa Missa, os reúna à volta
de si e lhes dê aqueles olhos penetrantes de fé e o seu Coração transbordante
para que, assim, tomem parte de maneira mais íntima e proveitosa na continuação
do sublime sacrifício do Calvário?
Quando virem levantar o Filho de Deus, os legionários hão
de unir-se a Ele, para com Ele formarem uma só Vítima. A Missa, sacrifício de
Jesus Cristo, é também o deles. Deveriam, em seguida, receber o Corpo adorável
do Senhor: para obter a plenitude dos frutos do Divino Sacrifício é
absolutamente necessário que os participantes comunguem com o sacerdote a carne
da Vítima imolada.
Hão de compreender então, a parte essencial de Maria, a
nova Eva, nestes mistérios sagrados – parte e cooperação tão íntima que,
“quando o seu amado Filho consumava a Redenção do gênero humano no altar da
Cruz, lá estava a Seu lado, sofrendo e remindo
com Ele” (Pio XI). Ao se retirarem, Maria acompanhará os legionários,
dando-lhes parte das suas graças e da distribuição que se segue, derramando
através deles, em todos quantos encontrarem ou, naqueles por quem trabalharem,
os infinitos tesouros da Redenção.
“A sua maternidade
é particularmente notada e vivida pelo povo cristão no Banquete Sagrado –
celebração litúrgica do mistério da Redenção – no qual se torna presente
Cristo, no seu verdadeiro Corpo, nascido da Virgem Maria.
[Capítulo 8 O Legionário e a Eucaristia página 48]
Com muita razão, a
piedade do povo cristão percebeu sempre uma ligação profunda entre a devoção à
Virgem Santíssima e o culto da Eucaristia: pode-se comprovar este fato, na
liturgia tanto ocidental como oriental, na tradição das Famílias religiosas, na
espiritualidade dos movimentos contemporâneos, mesmo dos movimentos juvenis e
na pastoral dos santuários marianos: Maria conduz os fiéis à Eucaristia (RMat
44).
A Eucaristia é o centro e a fonte da graça: por isso, deve
constituir também a pedra angular do sistema legionário. A mais ardente
atividade não fará nada que preste, se esquecer, por um só momento, que o seu
motivo principal é o estabelecimento em todos os corações do reino da
Eucaristia. Deste modo será atingido o fim para que Jesus veio ao mundo:
comunicar-se às almas, para as fazer uma só coisa com Ele. Ora, o meio
principal para conseguir tal união é a Eucaristia. “Eu sou”, diz Jesus “o pão
vivo que desceu do Céu. Quem comer deste pão viverá eternamente; e o pão que Eu
darei é a minha carne, para a salvação do mundo” (Jo 6, 51-52).
A Eucaristia é o bem infinito. Neste sacramento, com
efeito, está o próprio Jesus tão presente como outrora em Nazaré ou no Cenáculo
de Jerusalém. A Sagrada Eucaristia não é o símbolo da Sua pessoa ou um
instrumento do Seu poder: é o mesmo Jesus, vivo e inteiro. Por isso, Aquela que
O concebeu e nutriu “encontrava na hóstia adorável o fruto bendito do seu
ventre, e renovava na sua vida de união com Jesus Sacramentado os ditosos dias
de Belém e Nazaré” (S. Pedro Juliano Eymard).
Muitos, para quem Jesus não passa de um homem inspirado, O
honram e imitam; e maiores homenagens Lhe renderiam, se n’Ele vissem algo de
mais elevado. Como deveríamos nós nos comportarmos, visto possuirmos o
inestimável benefício da fé? Como são indesculpáveis os católicos que crêem mas
não praticam. Aquele Jesus, que os outros tanto admiram, possuem-n’O os
católicos, vivo, na Eucaristia. Têm livre acesso a Ele; podem e devem
recebê-l’O, mesmo todos os dias, como alimento das suas almas.
À vista disto, como é triste verificar a vergonhosa
negligência com que é tratada tão rica herança e como pessoas que crêem na
Sagrada Eucaristia, por pecados e desleixos, se privam deste alimento vital da
alma, que Jesus, desde o primeiro instante da
[Capítulo 8 O Legionário e a Eucaristia página 49]
Sua
existência terrestre, pensava
Maria é a Mãe deste Corpo Místico. E assim como outrora
cuidava dedicadamente de todas as necessidades de Jesus Menino, assim deseja
agora ardentemente nutrir o Corpo Místico, do qual é Mãe, tanto quanto o é de
Jesus. Que angústias para o seu Coração maternal, ao ver a fome – às vezes
extrema – de seu Filho, no Seu Corpo Místico, porque poucos se alimentam como
devem do Pão Divino, e muitos, absolutamente nada. Que todos quantos desejam de
fato unir-se a Maria, para participar dos seus cuidados maternais para com as
almas, partilhem também das suas angústias e se esforcem, com ela, por matar a
fome do Corpo Místico de Jesus. O legionário deve aproveitar todos os recursos
para despertar nas pessoas com quem realiza o seu apostolado, o conhecimento e
o amor ao Santíssimo Sacramento, e também aproveitar para destruir o pecado e a
indiferença que d’Ele afastam tanto, os homens. Cada comunhão obtida representa
um lucro incomensurável, porque, alimentando a alma individual, nutre todo o
Corpo Místico de Cristo e o faz crescer em sabedoria, em estatura e em graça
diante de Deus e dos homens (Lc 2, 52).
“Esta união da Mãe
com o Filho na obra da Redenção alcança o ponto culminante no Calvário, onde
Cristo ‘se ofereceu a si mesmo, vítima sem mácula, a Deus’ (Hb 9, 14), e onde
Maria esteve de pé, junto à Cruz (Cf. Jo 19, 15), ‘sofrendo profundamente com o
seu Unigênito e associando-se com ânimo maternal ao seu sacrifício, consentido
amorosamente na vítima que havia gerado’, e oferecendo-a também ela, ao eterno
Pai. Para perpetuar ao longo dos séculos o Sacrifício da Cruz, o divino
Salvador instituiu o Sacrifício Eucarístico, memorial da sua Morte e
Ressurreição, e confiou-o à Igreja, sua Esposa, a qual, sobretudo aos domingos,
convoca os fiéis para celebrar a Páscoa do Senhor, até que ele volte: o que a
mesma Igreja faz em comunhão com os Santos do céu e, em primeiro lugar, com a
bem-aventurada Virgem Maria, de quem imita a caridade ardente e a fé
inabalável” (MCul 20).
[página 50]
9
O LEGIONÁRIO E O CORPO MÍSTICO DE CRISTO
1. O serviço legionário é baseado nesta doutrina
Já na primeira reunião de legionários ficou bem claro o
caráter sobrenatural do serviço a que iam se dedicar. A sua convivência com o
próximo devia transparecer cordialidade, não por motivos meramente naturais,
mas porque deveriam ver nesse próximo a mesmíssima Pessoa de Cristo, tendo
sempre presente que tudo o que fizessem aos outros, ainda que de maneira fraca
ou desprezível, o faziam Àquele mesmo Senhor que afirmou: “Em verdade vos digo
que o que fizestes ao mais pequeno dos meus irmãos, a mim próprio o fizestes”
(Mt 25, 40).
Ora, o que se deu com a primeira reunião tem-se dado com
todas as que se lhe seguiram. Nenhum esforço tem sido poupado na intenção de
fazer ver aos legionários que tal critério deve ser, não só a pedra basilar do
seu serviço, mas o alicerce da disciplina e da harmonia na vida interna da
Legião. O legionário deve ver e respeitar nos Oficiais e nos companheiros, o
próprio Cristo. Que ele tenha sempre presente esta verdade transformadora. Para
ajudá-lo a atingir tal fim é que se inscreve esse princípio na Ordem
Permanente, lida mensalmente na reunião do Praesidium. Essa Ordem insiste ainda
neste outro princípio fundamental da Legião: devemos trabalhar em tão estreita
união com Maria que seja ela quem de fato, por meio do legionário, execute a
sua obra.
Estes princípios básicos da Legião não são mais, afinal, do
que a conseqüência da Doutrina do Corpo Místico de Cristo, doutrina que
constitui o tema principal das Epístolas de São Paulo: e isto nada tem de
singular, sabendo-se que a conversão do Apóstolo se deve à declaração dessa
doutrina. Perante o clarão que baixara do céu, o grande perseguidor dos
cristãos caiu por terra, cego, e ouviu estas aterradoras palavras: “Saulo,
Saulo, porque me persegues?” E Saulo interrogou: “Quem é tu, Senhor?” E uma voz
respondeu-lhe: “Eu sou Jesus, a quem tu persegues” (At 9, 4-5). Que maravilha
que estas palavras ficassem gravadas a fogo vivo na alma do Apóstolo e que este
se sentisse a todo momento compelido a falar e a escrever sobre a verdade nelas
contida.
[Capítulo 9 O Legionário e o Corpo Místico de
Cristo página 51]
São Paulo compara a união entre Cristo e os batizados
àquela que existe entre a cabeça e os outros membros do corpo humano. Neste,
cada membro tem a sua finalidade, a sua função especial; uns são mais nobres,
outros menos, mas todos, dependendo uns dos outros, são animados pela mesma
vida. Deste modo, o dano sofrido por um deles reflete-se em todos; mas, se um
recebe benefício, todos dele participam.
A Igreja é o Corpo Místico de Cristo e a Sua plenitude (Ef
1, 22-23); Cristo é a Cabeça, a parte principal, indispensável e perfeita, onde
todos os membros vão buscar as suas energias e a sua própria vida. O batismo
une-nos a Cristo com laços de tal forma estreitos, que ninguém poderá
imaginá-los. O termo “místico” não significa, de forma alguma, irreal. De
acordo com as vibrantes palavras da Sagrada Escritura – “somos membros do Seu
corpo, formados da Sua carne e dos Seus ossos” (Ef 5, 30). Daqui resultam
certos deveres sacratíssimos de amor e de serviço, não só entre os membros e a
Cabeça, mas entre os próprios membros (1Jo 4, 15-21). A comparação do corpo
ajuda-nos poderosamente a compreender esses deveres, e tal conhecimento
constitui já meio caminho andado para o seu cumprimento.
Com razão se tem afirmado ser este o dogma central do
Cristianismo. De fato, toda a vida sobrenatural, todas as graças concedidas ao
homem são fruto da Redenção. Esta se baseia no fato de Cristo e a Sua Igreja
constituírem uma única pessoa mística; e assim é que as reparações operadas por
Cristo, a Cabeça, e os méritos infinitos da Sua Paixão pertencem também aos
Seus membros, os fiéis. Deste modo se explica como é que Nosso Senhor pôde
sofrer pelo homem, conseguindo o perdão de culpas que não cometera. “Cristo é a
Cabeça da Igreja, Seu Corpo, do qual ele é o Salvador” (Ef 5, 23).
A atividade do Corpo Místico é a do próprio Cristo. Os
fiéis são n’Ele incorporados e n”Ele vivem, sofrem e morrem, e,
[Capítulo 9 O Legionário e o Corpo Místico de
Cristo página 52]
Maria, pelo seu privilégio de Mãe da Cabeça e dos membros,
passa a ser um eminente laço de união do Corpo Místico. Se é certo que “somos
membros do Seu Corpo, formados da Sua carne e dos Seus ossos”, somos também,
com igual verdade e plenitude, filhos de Maria, Sua Mãe. A Santíssima Virgem
foi criada para conceber e dar à luz o Cristo total, quer dizer, o Corpo
Místico com todos os seus membros, perfeitos e ligados entre si (Ef 4, 15-16),
e unidos com a Cabeça, Jesus Cristo; e ela cumpriu seu destino, em colaboração
e mediante o poder do Espírito Santo, que é a vida e a alma do Corpo Místico.
No seio maternal de Maria, e dócil aos seus cuidados, a alma irá crescendo em
Cristo, até chegar à idade perfeita (Ef 4, 13-15).
“Maria desempenha
um papel único e sem igual na economia divina. Ela preenche, entre os membros
do Corpo Místico, um lugar à parte – o primeiro depois da Cabeça. Neste
organismo divino do Cristo Total, a sua função está intimamente ligada à vida
de todo o Corpo. É o Coração... Servindo-nos de uma imagem mais popular, ela
assemelha-se, por motivo da sua função – é o que diz S. Bernardo – ao pescoço,
que liga a cabeça aos membros do Corpo. A figura suficientemente clara
demonstra o porquê da mediação universal de Maria, entre Cristo – a Cabeça
Mística – e os Seus membros. No entanto, a comparação do pescoço é menos
vigorosa que a do coração, para significar a enorme importância da influência
de Maria e do seu poder, o maior depois de Deus, nas operações da vida sobrenatural;
e isto, porque o pescoço não passa de simples ligação, nada fazendo para
iniciar ou influenciar a vida. O coração, pelo contrário, é um centro de vida,
o primeiro a receber os tesouros que imediatamente distribui a todo o
organismo” (Mura: O Corpo Místico de Cristo).
2. Maria e o Corpo Místico
Os cuidados postos por Maria na alimentação, no cuidado e
no carinho do Corpo físico do seu Divino Filho, continuam a ser dispensados
agora, em favor de todos e de cada um dos membros do Corpo Místico, dos mais
humildes aos mais nobres. E assim é que, “agindo os membros com mútua
solicitude” (1Cor 12, 25), jamais o fazem independentemente de Maria, mesmo
quando deixem, por descuido ou ignorância, de reconhecer a sua presença. Nada
mais fazem do que unir os seus esforços aos esforços de Maria. É uma
[Capítulo 9 O Legionário e o Corpo Místico de
Cristo página 53]
obra
que lhe pertence e à qual se tem entregado por completo desde a Anunciação até
hoje. Considera-se, assim, que não são propriamente os legionários que se valem
do auxílio da sua Rainha para melhor servir os restantes membros do Corpo
Místico, mas é ela que se digna utilizá-los. E, por tratar-se de uma obra que
pertence a Maria, ninguém pode cooperar nela, sem que a Senhora benevolente, se
digne permiti-lo. Tal fato, conseqüência lógica da doutrina do Corpo Místico,
deve ser meditado por todos os que se dedicam ao serviço do próximo, mas não
reconhecem o lugar e os privilégios de Maria. Constitui, além disso, uma boa
lição para os que confessam acreditar nas Escrituras, mas desconhecem e
menosprezam a Mãe de Deus. Cristo – fiquem todos sabendo – amou Sua Mãe,
sujeitando-se a ela (Lc 2, 51); e o seu exemplo obriga todos os membros do Seu
Corpo Místico a fazerem o mesmo: “Honrarás... tua Mãe” (Ex 20, 12). Por
mandamento divino, cabe a nós amá-la filialmente. Todas as gerações hão de
bendizer tão boa Mãe (Lc 1, 48).
Portanto, assim como ninguém poderá pensar em colocar-se a
serviço do próximo a não ser com Maria, assim também não poderá realizar
dignamente tal missão, se não tiver , ainda que imperfeitamente, as mesmas
intenções de Maria. Quanto maior for a nossa união com ela, tanto mais
perfeitamente cumpriremos o divino preceito de amar a Deus e de servir o
próximo (1Jo 4,19-21).
A função própria dos legionários dentro do Corpo Místico é
guiar, consolar e esclarecer os outros. Tal missão, note-se, só será
devidamente cumprida, quando os legionários se compenetrarem por completo, da
doutrina do Corpo Místico e da identificação deste com a Igreja. A posição e os
privilégios da Igreja, a sua unidade, a sua autoridade, o seu desenvolvimento,
padecimentos, milagres, triunfos, o seu poder de conferir a graça e o perdão
dos pecados: tudo isto não será apreciado no seu justo valor, se não se compreender
que Cristo vive na Igreja e que é por intermédio dela, que continua a Sua
missão na terra. A Igreja reproduz verdadeiramente a vida de Cristo.
Cada membro da Igreja é intimado por Cristo, sua Cabeça, a
desempenhar determinada missão dentro do Corpo Místico.
“Jesus Cristo” – lemos na Constituição Lumen Gentium – “comunicando o Seu Espírito, fez dos Seus irmãos,
chamados de entre todos os povos, o Seu Corpo Místico. Nesse corpo a vida de
Cristo difunde-se naqueles que nEle crêem...” Como todos os membros do corpo
humano, apesar de serem muitos, formam, um só corpo, assim também os fiéis em
Cristo”
[Capítulo 9 O Legionário e o Corpo Místico de
Cristo página 54]
(Cf.
1Cor 12, 12). “Na organização do Corpo Místico de Cristo existe igualmente diversidade
de membros e funções. É um único Espírito que distribui os seus vários dons
para bem da Igreja, na medida das riquezas e exigências dos serviços” (Chl 20).
Para saber a forma de serviço que deve caracterizar os
legionários na vida do Corpo Místico, fixemos os olhos
“Não pode dizer a vista à mão: não preciso da tua ajuda;
nem a cabeça aos pés: não me sois necessários” (1Cor 12, 21). Tais palavras
revelam ao legionário, a importância da sua cooperação na obra do apostolado. E
isto, não devido apenas à sua união com Cristo, com o qual forma um só Corpo e
de quem depende, mas ainda porque o próprio Cristo, que é a cabeça, depende
verdadeiramente do legionário a quem bem poderia se dirigir nestes termos: “Eu
necessito da tua ajuda na Minha obra de santificar e salvar as almas”. São
Paulo destaca, a propósito, a dependência em que se encontra a cabeça em
relação ao corpo, quando fala de completar em sua carne, o que falta à Paixão
de Cristo (Cl 1, 24). A frase, estranha, não significa de modo algum que a obra
de Cristo ficasse imperfeita; ela salienta apenas a idéia de que, cada membro
do Corpo Místico tem de contribuir, na medida do possível, para a própria
salvação e para a salvação dos restantes membros (Fl 2, 12)
Essa doutrina instrui o legionário sobre a sublime vocação,
a que foi chamado, como membro do Corpo Místico: a de completar o que falta à
missão de Nosso Senhor. Maravilhoso pensamento este: Jesus Cristo necessita de
mim para levar a luz e a esperança aos que vivem nas trevas, o consolo aos
aflitos, a vida aos mortos no pecado. Inútil seria acrescentar,
conseqüentemente, que o legionário tem de agir dentro do Corpo Místico,
copiando de modo singular o amor e a obediência incomparáveis que Cristo, a
Cabeça, dedicou à Sua Mãe; amor que o Seu Corpo Místico tem de reproduzir.
“Assim como São
Paulo nos assegura completar em seu próprio corpo a medida dos sofrimentos de
Cristo, assim podemos afirmar que um verdadeiro cristão, membro de Jesus e a
Ele unido pela grã-
[Capítulo 9 O Legionário e o Corpo Místico de
Cristo página 55]
ça, continua e vai até o fim, através do seu
trabalho comprometido com o espírito de Jesus, as ações do próprio Salvador,
durante a Sua vida mortal. E isto de tal forma que, quando um cristão reza, dá
continuidade à oração iniciada por Jesus sobre a terra; quando trabalha,
completa o que faltou à vida apostólica de Jesus. Temos de ser assim outros
tantos Cristos sobre a terra, continuando-O na Sua Vida e nas suas ações,
agindo e sofrendo tudo, no espírito de Jesus, isto é, com santas e divinas
disposições” (São João Eudes: O Reino de Jesus).
3. O sofrimento no Corpo Místico
A missão dos legionários coloca-os em íntimo contato com
todos os homens, especialmente com os que sofrem. Necessário é, pois, que
conheçam a fundo aquilo que o mundo é inclinado a chamar, o problema do
sofrimento. Ninguém pode fugir nesta vida à sua Cruz. A maior parte revolta-se
contra ela, procurando desviá-la dos seus ombros, e, porque isso é impossível,
ficam esmagados sob o seu peso. Inutilizam assim os planos da Redenção, que
exigem o complemento da dor para que a vida resulte frutuosa, do mesmo modo
que, qualquer tecido exige o cruzamento de fios para se obter o tecido. A dor
só aparentemente contraria e impossibilita a vida do homem. Na realidade, ela a
favorece e a aperfeiçoa. Assim o ensina a Sagrada Escritura, em cada uma das
suas páginas, quando proclama a necessidade “não só de crer em Cristo, mas
também a de sofrer por Ele” (Fl 1, 29); e ainda: “Se morrermos com ele, com Ele
viveremos; se com Ele padecermos, com Ele reinaremos” (2Tm 2, 11-12).
A nossa morte em Cristo, de que fala o Apóstolo, está
representada por uma cruz salpicada de Sangue – aquela
[Capítulo 9 O Legionário e o Corpo Místico de
Cristo página 56]
Saibam todos os cristãos que não podem selecionar em Cristo
o que agrada e rejeitar o restante. Saibam-no tão bem como o soube Maria nas alegrias
da Anunciação. Ela já então sabia que não era convidada a ser somente mãe
venturosa, mas também mãe dolorosa; tendo-se entregado a Deus sem a menor
reserva desde sempre, aceita o Cristo completo. Ao acolher o Menino no seu
seio, ela tinha perfeito conhecimento de
tudo quanto estava contido no mistério; estava disposta tanto a esgotar com o
seu Filho o cálice da amargura, como a compartilhar com Ele, as Suas glórias.
Nesse momento, se uniram aqueles dois Corações Sacratíssimos tão estreitamente,
que chegaram quase a identificar-se. Foi, então, que começaram a pulsar em
conjunto dentro do Corpo Místico e em seu benefício; e, Maria se tornou a
Medianeira de todas as Graças, o Vaso Espiritual que recebe e espalha o
Precioso Sangue do Senhor. Ora, o que aconteceu à Mãe, acontecerá com aos
filhos. O homem será tanto mais útil a Deus, quanto mais íntima for a sua união
com o Sagrado Coração, a fonte, onde ele irá beber o Sangue Redentor, para o
derramar com grande fartura sobre as almas. É necessário porém, que esta união
com o Sangue e o Coração de Cristo, abranja totalmente a vida de Jesus; não
basta que se aproprie de uma ou de outra fase. Seria tão leviano como indigno
receber de braços abertos o Rei da Glória e rejeitar o Homem das Dores, porque
Um e Outro são o mesmo Cristo. Aquele que não acompanhar o Cristo sofredor, não
tomará parte na Sua missão junto das almas nem participará da Sua glória.
Conclui-se, portanto, que sofrer é sempre uma graça: graça
que, quando não cura, fortifica. Nunca podemos conceber o sofrimento como
castigo do pecado. “Fica sabendo” diz S. Agostinho, “que as aflições do gênero
humano não são uma lei penal, pois o sofrimento tem caráter terapêutico”. Por
outro lado, a Paixão do Senhor transborda, por privilégio todo especial, sobre
os santos e os justos, a fim de os tornar mais semelhantes ao Redentor. Este
intercâmbio e esta fusão de sofrimentos é a base de toda a mortificação e
reparação.
Uma simples comparação com a circulação do sangue no corpo
humano dá a idéia perfeita da função e da finalidade do sofrimento. Tomemos
para exemplo a mão. A pulsação que ali se nota corresponde ao bater do coração
– fonte do sangue quente que nela circula. É que a mão está unida ao corpo de
que faz parte. Se a circulação diminui, as veias se encolhem e o sangue
encontra maior dificuldade em correr; e essa dificuldade aumenta à medida que o
frio se torna mais intenso. Se o frio for de tal
[Capítulo 9 O Legionário e o Corpo Místico de
Cristo página 57]
intensidade
que faça cessar a pulsação, a mão gelará e os seus tecidos morrerão. Ficará
caída, sem sangue e não tardará a surgir a gangrena, caso esta situação se
prolongue.
Estes diversos graus de frio ajudam-nos a compreender
melhor as possíveis situações espirituais do Corpo Místico. Em alguns a
capacidade de receber o Precioso Sangue é tão limitada, que correm perigo de
morte, como membros gangrenados que têm de ser amputados. O remédio para um
membro gelado é evidente: provocar de novo a circulação para que recupere a
vida. Introduzir o sangue à força, nas veias e artérias constitui, sem dúvida
processo doloroso, mas a dor é anúncio de futura alegria. Acontece que a
maioria dos católicos praticantes não são de fato membros gelados; contentes
consigo, dificilmente se considerarão até membros frios. No entanto, o Precioso
Sangue não circula neles no grau desejado pelo Senhor, o que o obriga a
introduzir neles à força, a Sua vida.
O Sangue Divino, circulando e dilatando as veias
endurecidas, causa dores ao paciente: são os sofrimentos da vida. Estas dores,
porém, bem compreendidas, não deveriam constituir uma fonte de alegria? A
consciência da dor converte-se, então, na consciência da presença real e íntima
de Nosso Senhor Jesus Cristo.
“Jesus Cristo
sofreu tudo quanto tinha de sofrer, nada faltou para fazer transbordar a medida
dos Seus padecimentos. No entanto, a Sua Paixão não terminou ainda... Terminou,
sim, no que ser refere à Cabeça, mas continua nos membros do Seu Corpo. Com
muita razão, pois, Nosso Senhor, que ainda sofre no Seu Corpo, deseja ver-nos
tomar parte no seu sacrifício redentor. Exige-o a nossa união com Ele: porque,
se somos o Corpo de Cristo e membros uns dos outros, tudo quanto sofra a
Cabeça, os membros também deveriam sofrer em solidariedade com ela” (Santo Agostinho).
10
1. Dignidade do Apostolado
Para descrever a dignidade do apostolado, para o qual a
Legião convida os seus membros, e demonstrar a sua importância para a Igreja,
não podemos encontrar palavras mais expressivas do que a seguinte declaração:
[Capítulo
10 Apostolado da Legião página 58]
“O dever e o direito dos leigos ao apostolado, se originam
da sua mesma união com Cristo Cabeça. Com efeito, pertencendo pelo Batismo ao
Corpo Místico de Cristo e robustecidos pela Confirmação com a força do Espírito
Santo, é pelo Senhor mesmo que são destinados ao apostolado. São sagrados em
ordem a um sacerdócio real e a um povo santo (cf. 1 Pd 2, 4-10) para que todas
as suas atividades seja oblações espirituais e por toda a terra dêem testemunho
de Cristo. E os Sacramentos, sobretudo a Sagrada Eucaristia, comuniquem e
alimentem neles, aquele amor que é a alma de todo o apostolado” (AA 3).
Pio XII dizia: “Os fiéis, e mais propriamente os leigos,
encontram-se na linha mais avançada da vida da Igreja; para eles, a Igreja é o
princípio vital da sociedade humana. Por isso, eles devem ter consciência, cada
vez mais clara, não só de pertencerem à Igreja, mas de serem a Igreja, isto é,
a comunidade dos fiéis sobre a terra, sob a orientação do chefe comum, o Papa,
e dos Bispos em comunhão com ele. Eles são a Igreja” (ChL 9).
“Maria exerce
sobre o gênero humano uma influência moral que não podemos definir melhor,
senão comparando-a às forças físicas de atração, afinidade e coesão, que na
Natureza unem entre si, os corpos e as partes componentes... Parece-nos ter
demonstrado que Maria tomou parte em todos os grandes movimentos, que
constituem a vida das sociedades e a sua verdadeira civilização” (Petitalot).
2. Absoluta necessidade do Apostolado dos Leigos
Não temos dúvida em afirmar que a saúde moral de uma
comunidade católica depende da presença no seu seio de um grupo numeroso de
apóstolos que, embora formado por leigos, partilha do espírito do sacerdote,
assegurando-lhe estreito contato com o povo e constante controle da realidade.
A segurança resulta desta perfeita união entre o sacerdote e o povo.
Ora, o apostolado exige ardoroso interesse pela
prosperidade da Igreja e pela sua obra, interesse que dificilmente existirá sem
o desejo de trabalhar pessoalmente, na extensão do Reino de Deus. A organização
apostólica torna-se assim o molde de verdadeiros apóstolos.
Onde estas qualidades de apostolado não forem
cuidadosamente cultivadas, a nova geração terá de enfrentar inevitável-
[Capítulo 10 Apostolado da Legião página 59]
mente
um sério problema: a falta de sincero interesse pela Igreja e a ausência de
sentido de responsabilidade. Deste Catolicismo infantil, o que se poderá
esperar? Só está seguro, em tempo de tranqüilidade. A experiência ensina-nos
que, ao menor sinal de perigo, o rebanho sem energia se deixa dominar pelo
desespero, pisoteando, na fuga, até o próprio pastor, ou é devorado pela
primeira alcatéia de lobos que aparece. “Em todos os tempos” – diz um princípio
formulado pelo Cardeal Newman – “os leigos têm sido a justa medida do espírito
católico”.
“Fomentar entre os
leigos o sentido de uma vocação própria – eis o importantíssimo papel da Legião
de Maria. Nós, os leigos, corremos o risco de identificar a Igreja com o clero
e os religiosos, a quem Deus concedeu o que chamamos, em sentido demasiadamente
exclusivo, uma vocação. Somos tentados, inconscientemente a olhar-nos como
multidão anônima, salvando-nos por grande sorte, se cumprirmos o mínimo
exigido. Esquecemo-nos de que o Senhor chama as suas ovelhas pelo nome (Jo 10,
3) e que – usando as palavras de S. Paulo (Gl 2, 20), que como nós não esteve
fisicamente presente no Calvário: – “O Filho de Deus amou-me e se entregou a Si
mesmo por mim”. Cada um de nós, seja ele carpinteiro de aldeia como o próprio
Jesus ou uma humilde dona de casa, como a Virgem Maria, tem uma vocação; é
chamado individualmente por Deus a amá-lO e a servi-lO, a fazer um trabalho
particular que outros poderão talvez, realizar melhor, mas nunca substituir. Só
eu e mais ninguém posso dar o meu coração a Deus ou executar o meu trabalho.
Ora, a Legião de Maria cultiva exatamente este sentido pessoal da religião. O
legionário não se contenta com uma atitude passiva ou irresponsável: homem ou
mulher, tem de ser e de fazer alguma coisa por Deus. A religião não é coisa de
menor importância, mas a inspiração da vida inteira, por mais simples que ela
seja aos olhos humanos. A convicção de uma vocação pessoal cria,
inevitavelmente, o espírito apostólico, o desejo de prosseguir a obra de
Cristo, de ser outro Cristo, de servi-lO no mais pequenino de seus irmãos. A
Legião é assim o substituto leigo de uma ordem religiosa, a tradução da idéia
cristã de perfeição, na vida dos leigos; a expansão do Reino de Cristo no mundo
do dia-a-dia” (Alfredo O’Rahilly).
[Capítulo
10 Apostolado da Legião página 60]
Como tantos outros grandes princípios, o apostolado é em si
mesmo uma teoria fria e abstrata. Daí o perigo real de não exercer atração
sobre as pessoas, de tal maneira que poderão não corresponder ao elevado
destino que lhes foi imposto ou, pior ainda, poderão ser julgados incapazes de
lhe corresponder. O resultado desastroso seria o abandono do esforço exercido,
para levar os leigos a desempenharem, na batalha da Igreja, a sua parte própria
e indispensável.
Ora, – diz um qualificado juiz, o Cardeal Riberi, então
Delegado Apostólico nas Missões da África e depois Internúncio na China: “A
Legião de Maria é o apostolado apresentado de forma atraente e fascinante; tão
palpitante de vida que a todos encanta; realizado conforme o desejo de Pio XI,
isto é, em inteira dependência da Virgem Mãe de Deus; exigindo a qualidade como
elemento básico para o recrutamento; protegido pela oração assídua, pelo
sacrifício de si próprio, por uma organização perfeita e por uma estreita
cooperação com o sacerdote. A Legião de Maria é um milagre dos tempos modernos”.
A Legião respeita o sacerdote e obedece-lhe com acatamento
que deve aos legítimos superiores. Mais ainda: o seu apostolado baseia-se no
fato de que os principais canais da graça são a missa e os sacramentos, de que
o sacerdote é o ministro oficial. Todos os esforços e trabalhos deste
apostolado devem dirigir-se para este elevado fim: levar o alimento divino à
multidão doente e esfomeada. Isso significa que um dos objetivos principais da
ação legionária é conduzir o sacerdote ao meio do povo, se não em pessoa, o que
às vezes é impossível, ao menos tornando compreensível a sua função e
valorizando a sua influência.
Esta é a idéia essencial do apostolado da Legião. Apesar de
leiga na massa dos seus membros, trabalhará em união com o sacerdote, sob a sua
direção e em plena identificação de interesses. Procurará ardentemente apoiar
os seus esforços e conseguir-lhe um lugar mais vasto na vida dos homens, de
sorte que, recebendo-o, recebam Aquele que o enviou.
“Em verdade, em
verdade vos digo: quem recebe aquele que Eu enviar recebe-Me a Mim, e o que Me
recebe, recebe Aquele que Me enviou” (Jo 13, 20).
[Capítulo
10 Apostolado da Legião página 61]
4. O Sacerdote e a Legião
A idéia do sacerdote, assistido por um grupo dedicado de
apóstolos que participa dos seus trabalhos, tem a mais santa das aprovações: o
exemplo do próprio Jesus Cristo que, preparando-se para converter o mundo,
rodeou-se de homens escolhidos aos quais instruiu e encheu do Seu espírito.
Esta divina lição aprenderam-na e aplicaram-na os
Apóstolos, chamando em seu auxílio todos os fiéis para os ajudarem na conquista
dos seres humanos. Como muito bem disse o Cardeal Pizzardo, é possível que os
estrangeiros vindos de Roma (At 2, 10) que ouviram a pregação dos Apóstolos no
dia de Pentecostes, fossem os primeiros a anunciar Jesus Cristo naquela cidade,
lançando assim as sementes da Igreja-Mãe, que São Pedro e São Paulo haviam de
fundar oficialmente. “Que teriam feito os Doze, perdidos na imensidão do mundo,
se não estivessem rodeado de colaboradores – homens e mulheres, velhos e novos
– dizendo-lhes: Trazemos conosco o tesouro do Céu, ajudai-nos a reparti-lo”
(Pio XI).
A estas palavras de um grande Pontífice podem ajuntar-se as
de um outro, como demonstração de que o exemplo de Nosso Senhor e seus
Apóstolos, na conversão do mundo foi dado por Deus como modelo a seguir por cada
sacerdote (um outro Cristo) no seu pequenino mundo, paróquia, bairro ou
obra especial.
Falando um dia o Papa S. Pio X com um grupo de cardeais,
dizia-lhes: “Que coisa é mais necessária nos tempos presentes para a salvação
da sociedade?” – “Levantar escolas católicas”, respondeu um. – “Não”, retorquiu
o Papa. – “Multiplicar as igrejas”, tornou outro. – “Também não”. –
“Intensificar o recrutamento sacerdotal”, sugeriu um terceiro. – “Não, não”,
replicou o Papa: “O que há de mais necessário é a existência em cada paróquia
de um grupo de leigos que sejam ao mesmo tempo virtuosos, instruídos, resolutos
e verdadeiramente apostólicos”.
No fim da vida, este santo Pontífice contava, para a
salvação do mundo, com grupos de católicos convenientemente treinados por um
clero zeloso, que se entregaram ao apostolado pela palavra e pela ação, mas
sobretudo, pelo exemplo. Nas dioceses em que exerceu o sagrado ministério antes
de ser Papa, dava menos importância ao recenseamento dos paroquianos do que à
relação dos católicos, capazes de irradiar a sua fé, dedicando-se ao
apostolado. Era de opinião que em todas as classes, podia haver um grupo de
especial destaque. Por isso, ele classificava os sacerdotes de acordo com os
resultados obtidos nesta matéria,
[Capítulo
10 Apostolado da Legião página 62]
pelo
seu zelo e pelos seus talentos (Chautard: A alma de todo o apostolado, 4).
“A missão de pastor não se limita ao cuidado singular dos
fiéis, mas estende-se também propriamente à formação da verdadeira comunidade
cristã. Para que seja cultivado devidamente o espírito de comunidade, deverá
abraçar não só a Igreja local, mas também a Igreja inteira. A comunidade local,
porém, não deve se preocupar somente com o cuidado pelos seus fiéis, mas
também, cheia de ardor missionário, deve preparar, para todos, o caminho para
Cristo. Considere, todavia, como recomendados de modo especial, os que estão se
preparando para o Batismo e os recém-batizados, que devem ser educados
gradualmente, no conhecimento e na vivência da vida cristã” (PO 6).
“Deus feito homem
achou necessário deixar o Seu Corpo Místico na terra. Se não o tivesse feito, a
Sua obra teria terminado no Calvário. A Sua morte teria merecido a salvação
para o gênero humano, mas como é que tantos homens teriam ganho o Céu sem a
Igreja para lhes comunicar a vida da cruz? Cristo identifica-se, de modo
especial, com o sacerdote. O sacerdote é como um coração a mais, que abre
caminho para os corações, ao sangue da vida sobrenatural. É uma parte essencial
do sistema de transmissão espiritual no Corpo Místico de Cristo. Se ele falha,
o sistema é bloqueado, e aqueles que dele dependem não recebem a vida que nos
planos de Cristo deveriam receber. O sacerdote, dentro dos devidos limites,
deveria ser para o seu povo o que Cristo é para a Igreja. Os membros de Cristo
são um prolongamento d’Ele mesmo e não simplesmente empregados, agregados,
partidários. Os membros de Cristo possuem a vida de Cristo. Partilham da
atividade de Cristo. Deveriam ter a maneira de ver de Cristo. Os sacerdotes,
por sua vez, deveriam ser uma só coisa com Cristo, sob todos os aspectos
possíveis. Se Cristo achou necessário formar um Corpo espiritual para si, o
sacerdote deveria fazer o mesmo. Deveria formar, para si, membros que fossem
uma só coisa com ele. Se um sacerdote não tiver membros vivos, formados por
ele, unidos a ele, o seu trabalho se reduzirá a dimensões insignificantes.
Ficará só e desamparado. “O olho não pode dizer à mão: não necessito do teu
serviço; nem a cabeça pode dizer aos pés: vós não me sois necessários” (1Cor
12, 21).
De sorte que, se
Cristo fez do Seu Corpo Místico o princípio do Seu caminho, da Sua verdade, da
Sua vida para os homens, isto tudo vai agir, exatamente, através do novo
Cristo, o sacerdote. Se ele não exerce a sua função de modo que ela seja
verdadeiramente a
[Capítulo
10 Apostolado da Legião página 63]
perfeita construção do Corpo Místico, a que
se refere a Carta aos Efésios (4, 12 – texto habitualmente traduzido por
“edificação dos fiéis”), a vida divina só em pequena quantidade penetrará nos
corações e neles frutificará. Além disso, o sacerdote ficará empobrecido,
porque, embora a missão da cabeça seja ministrar a vida ao corpo, não é menos
verdade que a cabeça vive pela vida do corpo, crescendo com o seu crescimento,
partilhando da sua fraqueza se ele perde as forças.
O sacerdote que
não compreende esta lei da missão sacerdotal, avançará pela vida afora,
realizando apenas uma pequena parte das suas possibilidades, quando o seu
verdadeiro destino em Cristo é abraçar os horizontes” (Padre F.J. Ripley).
“Nas atuais circunstâncias, os fiéis leigos podem e devem
fazer muitíssimo para o crescimento de uma autêntica comunhão com a Igreja no
seio das suas paróquias e para o despertar do impulso missionário com relação
aos que em nada acreditam e também com relação àqueles que por ventura
abandonaram ou diminuíram a prática da vida cristã” (ChL 27). Logo se perceberá
que, com a fundação da Legião de Maria se desenvolverá enormemente um
verdadeiro espírito de comunidade. Através da Legião, os leigos acostumam-se a
trabalhar na paróquia em íntima união com os sacerdotes e a participarem das
responsabilidades pastorais. A regulamentação das várias atividades paroquiais,
mediante uma reunião regular semanal, traz vantagens evidentes. Todavia uma
consideração mais elevada se impõe: as pessoas envolvidas nas atividades
paroquiais, pertencendo à Legião, receberão uma formação espiritual que as
ajudará a compreender que a paróquia é uma comunidade Eucarística e que por
meio de um sistema bem organizado, se tornarão capazes de atingir cada um dos
paroquianos, com o objetivo de elevar a comunidade. Alguns dos trabalhos em que
a Legião pode se empenhar na paróquia, são apresentados no capítulo 37: Sugestões
de Trabalhos.
“O apostolado dos
leigos deve ser considerado pelos sacerdotes como parte integrante do seu
ministério, e pelos fiéis, como uma exigência da vida cristã” (Pio XI).
[Capítulo
10 Apostolado da Legião página 64]
6. Um idealismo forte e uma ação intensa, frutos da Legião
Se a Igreja se prendesse a uma rotina demasiadamente
cautelosa, colocaria a Verdade de que é guarda, em situação desfavorável. A
natureza generosa necessita de um ideal de ação; e se a juventude se acostumar
a procurá-lo nas organizações ou sistemas não religiosos, isso constituirá uma
desgraça terrível, cujas conseqüências atingirão as gerações futuras.
A Legião pode remediar este mal, realizando os seu programa
de iniciativa, de esforços e de sacrifícios, ajudando a Igreja a apropriar-se
destas duas palavras que dão vida: “Idealismo” e “Ação”, de modo a torná-las
preciosas auxiliares da sua doutrina.
No dizer do historiador Lecky, o mundo é governado pelos
ideais. Sendo assim, aqueles que criam um ideal mais alto, arrastam por ele, o
gênero humano. Trata-se, é evidente, de um ideal prático e suficientemente
claro, que possa ser atingido por todos. Admitamos que os ideais apresentados
pela Legião correspondam a estas duas exigências.
Uma das mais importantes características da Legião será o
desabrochar de numerosas vocações religiosas entre os legionários e os seus
filhos.
Alguém poderá apresentar a objeção de que ninguém quererá
assumir, no egoísmo universal em que vivemos, o “pesado” compromisso de membro
da Legião. É um erro. A multidão daqueles que preferem uma vida vulgar passa
sem deixar rastro. Pelo contrário, os poucos que correspondem, enérgicos, ao
esforço exigido por um ideal mais elevado, permanecerão, transmitindo
lentamente o seu ardor a outros.
Um Praesidium da Legião pode constituir um meio poderoso
para ajudar o sacerdote no recrutamento cada vez maior de leigos que colaborem
na evangelização dos que estão confiados aos seus cuidados. Deste modo, uma
hora e meia, despendida por semana, a guiar os membros de um Praesidium, a
encorajá-los, a sobrenaturalizá-los, vai lhe permitir estar em toda a parte,
ouvir tudo, exercer influência em cada um, ultrapassando as possibilidades das
suas forças físicas. Com efeito, a direção de vários Praesidia parece
constituir uma das melhores aplicações do zelo de um pastor do rebanho.
O sacerdote, armado assim com os seus legionários, – armas
humildes, como o bastão e a bolsa, a atiradeira e as pedras, mas tornados por
Maria, instrumentos do Céu – pode avançar,
[Capítulo
10 Apostolado da Legião página 65]
como
outro David, com a certeza antecipada da vitória, contra os mais provocadores
Golias da descrença e do pecado.
“É a força moral e
não a material que manterá o seu apostolado e assegurará o seu triunfo. Não são
os gigantes os que mais fazem. Como era pequenina a Terra Santa! Todavia
conquistou o mundo. E que insignificante não era a Ática! Não obstante formou o
espírito humano. Um só era Moisés; um só, Elias; um só, David; um só, Paulo; um
só, Atanásio; um só, Leão! A graça atua sempre por intermédio de poucos. Os
instrumentos do Céu são: visão penetrante, convicção firme, resolução que não
se deixa dominar; o sangue do mártir; a prece do santo, a ação heróica, a crise
momentânea, a energia concentrada numa palavra ou num olhar. Não tenham medo,
pequeno rebanho, porque é onipotente Aquele que está no meio de vocês e por
vocês realizará prodígios” (Newman: A posição atual dos católicos).
7. Formação apostólica pelo método mestre e aprendiz
A formação de apóstolos é para a maior parte das pessoas um
problema de fácil solução, mediante uma série de conferências e o estudo de
livros de texto. A Legião julga, pelo contrário, que não pode haver formação
efetiva sem trabalho correspondente que a acompanhe. A palestra sobre o
apostolado, sem a realização de um trabalho real, levaria, talvez, a resultados
apostos. Notemos que, ao expor o processo de concluir o trabalho, torna-se
necessário descrever as suas dificuldades e apresentar motivos ou normas superiores
para a sua perfeita realização. Falar desta maneira aos candidatos sem lhes
mostrar ao mesmo tempo, de modo concreto, que o trabalho é fácil e está ao
alcance das próprias forças, serviria apenas para intimidar e afastar. O
sistema de conferência produz o teórico e também os homens que pensam converter
o mundo com a atividade da inteligência. Tais pessoas perderiam o desejo de se
consagrar aos serviços humildes e ao prosseguimento dedicado dos contatos
individuais dos quais tudo depende, e que o verdadeiro legionário, diga-se de
passagem, abraça prontamente.
A formação, no entender da Legião, deverá ser feita
conforme o método mestre e aprendiz. É este o processo ideal de formação usado
em todas as profissões e artes, sem exceção. Em vez de longas conferências, o
mestre coloca a obra dian-
[Capítulo
10 Apostolado da Legião página 66]
te do
aprendiz e, por demonstração prática, indica-lhe como se faz, explicando cada
ponto à medida que o trabalho prossegue. Depois, sob o olhar do mestre que lhe
corrige os desacertos, o aprendiz tenta por si mesmo, o trabalho. De tal método
de formação surge o homem competente, o profissional. As palestras hão de
basear-se, por conseqüência, no próprio trabalho, e cada uma das palavras se
referirá a uma ação concreta, senão pouco fruto se há de colher. É estranho,
mas há pouco aproveitamento de conferências, mesmo por parte de estudantes,
regularmente aplicados!
Acrescente-se que, propor a pessoas desejosas de se iniciar
numa organização apostólica, o sistema de conferências, seria afastar inúmeros
candidatos. Poucos estariam dispostos a sujeitar-se a semelhante prova. A maior
parte, ao deixar os bancos escolares, prometeu a si mesma, não voltar. Gente
simples do povo fica apavorada diante da idéia de ter que voltar às aulas,
mesmo “santas”. Daqui, a fraca atração exercida sobre as almas pelos métodos de
estudo da estratégia apostólica. O processo legionário é mais simples e
psicológico. “Venham conosco e trabalharemos juntos” – dizem os legionários.
Convidam-nos não para uma aula, mas para o trabalho que eles mesmos estão
fazendo. Certos de que a tarefa não excederá as suas energias, os novos
operários alistam-se com entusiasmo na organização, tornando-se em breve
apóstolos competentíssimos. Além de verem como os outros membros trabalham, os
candidatos tomam parte nas atividades comum, e aprendem pelos relatórios e
respectivos comentários, o melhor meio de os levar a bom fim.
“A Legião é muitas
vezes criticada por falta de membros especializados ou por não insistir a que
se dediquem a longos períodos de estudo. Digamos pois a este respeito: a) A
Legião utiliza sistematicamente a contribuição dos seus membros mais bem
qualificados. b) Evitando, embora, dar extrema importância ao estudo,
esforça-se por preparar cada um dos seus membros, por métodos apropriados, para
o seu apostolado particular. c) O objetivo dominante, porém, é apresentar uma
estrutura com a qual a Legião possa dizer ao católico comum: ‘Venha, traga seu
pouco talento e nós lhe ensinaremos a desenvolvê-lo e a usá-lo, por intermédio
de Maria, para glória de Deus’. Não devemos esquecer que a Legião existe tanto
para os humildes e desvalidos, como para os sábios e poderosos” (Padre Tomás
O’Flynn, C.M., antigo Diretor Espiritual do Concilium Legionis Mariae).
[página 67]
11
O PLANO DA LEGIÃO
O meio comum e essencial de que a Legião de Maria se serve
para atingir o seu fim, consiste na execução de um serviço pessoal sob o
impulso do Espírito Santo, isto é, tendo como princípio motor e apoio, a graça
divina e como último objetivo, a glória de Deus e a salvação das almas.
A santificação pessoal é assim não só o fim da Legião de
Maria, mas, também o seu principal meio de ação: “Eu sou a videira, vós os
ramos. O que permanece em Mim e Eu nele, esse dá muito fruto, porque sem Mim
nada podeis fazer” (Jo 15, 5).
“A nossa fé crê
que a Igreja, cujo mistério, o sagrado Concílio expõe, é infalivelmente Santa.
Com efeito, Cristo, Filho de Deus, que é com o Pai “o único santo”, amou a
Igreja como esposa, entregou-se por ela, para a santificar (cf. Ef 5, 25-26) e
uniu-a a Si como Seu corpo, cumulando-a com o dom do Espírito Santo, para
glória de Deus. Por isso, todos na Igreja, quer pertençam à Hierarquia ou quer
por ela sejam pastoreados, são chamados à santidade, segundo a palavra do
Apóstolo: “esta é a vontade de Deus, a vossa santificação” (1Ts 4, 3; cf. Ef 1,
4). Esta santidade da Igreja incessantemente se manifesta, e deve
manifestar-se, nos frutos da graça que o Espírito Santo produz nos fiéis;
exprime-se de muitas maneiras em cada um daqueles que, no seu estado de vida,
tendem à perfeição da caridade, dando bom exemplo ao próximo; aparece de um
modo especial na prática dos conselhos chamados evangélicos. A prática destes
conselhos, abraçados sob o impulso do Espírito Santo por muitos cristãos, quer
particularmente, quer nas condições ou estados aprovados pela Igreja, leva e
deve levar ao mundo, admirável testemunho e exemplo desta santidade” (LG 39).
2. Um sistema perfeitamente organizado
As grandes fontes de energia natural, se não forem
canalizadas, perdem-se. De modo semelhante, o zelo sem método e o entusiasmo
sem direção nunca produzem grandes resultados, quer interiores quer exteriores,
e mesmo assim, a maior parte das vezes, são de pouca duração. Consciente disso,
a Legião apresenta aos seus membros mais um modo de vida do que uma simples
tarefa a realizar. Baseia-se, para tal, num sistema perfeitamente
[Capítulo
11 O Plano da Legião página 68]
organizado,
no qual, tem força de regra aquilo que em outras organizações é apenas
aconselhado ou simplesmente sugerido, impondo, mesmo no que se refere a cada
pormenor, a mais exata observância. Promete, como prêmio, a perseverança e um
visível progresso nas virtudes da perfeição cristã, especialmente a fé, o amor
a Maria, a intrepidez, a imolação de si próprio, a fraternidade, o espírito de
oração, a prudência, a paciência, a obediência, a humildade, a alegria e o
espírito apostólico.
“O desenvolvimento
do que comumente chamamos apostolado dos leigos é uma das manifestações
especiais do nosso tempo, tendo por si, se atendermos unicamente ao número dos
que a ele se podem dedicar, possibilidades ilimitadas de expansão. Apesar
disso, como nos parecem insuficientes as disposições tomadas para a manutenção
e progresso deste movimento colossal! Quando se compara o grande número de
congregações religiosas tão admiravelmente concebidas para atender às
necessidades daqueles que abandonam o mundo, com a maneira pela qual estão
organizados os que no mundo permanecem, – que contraste impressionante! De um
lado, que escrupuloso cuidado e que sábia precisão – para fazer render ao
máximo a atuação de cada um! Do outro, como são elementares e superficiais as
disposições empregadas! A organização exige dos seus membros, inegavelmente, a
realização de uma tarefa; mas esta, para a maior parte deles, não passa, na
roda da semana, de simples distração, que dificilmente chegará a representar
algo mais importante. Devemos ter, quanto a este serviço, o mais elevado
conceito. Não deveria ele constituir, para cada um dos membros, a base de toda
a sua vida espiritual, e ainda ser o seu bordão de peregrino na caminhada para
o céu?”
Sem dúvida, as
congregações religiosas devem servir de modelo aos leigos que trabalham
[Capítulo
11 O Plano da Legião página 69]
“O fim que se
pretende atingir é este e não outro: levar a uma organização eficiente as
pessoas que têm uma vida comum – como nós a conhecemos – e nas quais devemos
ter em conta as diferenças de gostos e ocupações, que nem sempre são de caráter
puramente religioso. A regulamentação a impor não deve ultrapassar aquilo que
possa ser aceito pela maior parte das pessoas, a que a organização é destinada,
mas, também não deve ficar aquém” (Padre Miguel Creedon, primeiro Diretor
Espiritual do Concilium).
Segundo a Legião, a perfeição dos seus membros deve
avaliar-se, não pelo prazer causado pelos êxitos reais ou aparentes, mas pela
fidelidade exata ao seu método. Só merecem o nome de legionários na medida em
que obedecem ao sistema.
Exortam-se os Diretores Espirituais e os Presidentes dos
Praesidia a relembrar constantemente este ideal de perfeição àqueles que lhes
foram confiados. Constitui o ideal que todos podem atingir e que não está no
êxito nem na consolação conquistada pelo trabalho. Só na sua realização
encontrar-se-á o remédio eficaz contra a monotonia, o trabalho enfadonho, a
falta de êxito real ou imaginário que, aliás, podem reduzir a nada, no campo do
apostolado, as mais prometedoras esperanças.
“Devemos notar que
os nossos serviços à Sociedade de Maria se avaliam, não pela importância do
cargo que nessa sociedade desempenhamos, mas pelo grau de espírito sobrenatural
e de zelo por Maria, com que nos dedicamos ao dever que nos é imposto pela
obediência, – por mais humilde e apagado que seja” (Pequeno Tratado de Mariologia,
por um Marianista).
Como primeira obrigação e a mais importante no seu sistema,
a Legião de Maria impõe aos seus membros a participação das reuniões. O que a
lente é para os raios solares é a reunião para os membros: foco que os
concentra, os incendeia, e inflama tudo quanto dele se aproxima. É a reunião
que faz a Legião. Ela é o vínculo: se esse vínculo for partido ou relegado ao
abandono, os membros desertam pouco a pouco e a obra desmorona.
[Capítulo
11 O Plano da Legião página 70]
Pelo
contrário, quanto mais a reunião for respeitada, tanto mais se intensificará o
benéfico poder da organização.
As seguintes palavras, traçadas nos primeiros tempos da
Legião, representam ainda hoje, como outrora, o seu modo de pensar sobre o
organismo e, conseqüentemente, sobre a importância fundamental da reunião, –
foco, como acima se disse, do sistema: “Numa organização, o indivíduo, por mais
categorizado que seja, desempenha o papel de dente numa roda. Cede, em parte, a
sua independência à máquina, isto é, ao conjunto dos seus associados que deste
modo produzem cem vezes mais. Um sem-número de indivíduos que, de outra
maneira, permaneceriam inativos ou inferiores à sua tarefa, entram em
movimento; e cada um deles trabalha, não mais com a sua reduzida força pessoal,
mas com o ardor e a potência incalculáveis que lhe são transmitidos pelas
melhores qualidades de cada associado. Reparem em um bocado de carvão caído por
terra, e o imaginem depois, transformados em brasa, em uma fornalha ardente.
Assim é com os homens.
A organização possui, desta maneira, independentemente dos
indivíduos que a compõem, uma vida própria. Mais que a beleza ou a necessidade
do trabalho realizado, esta característica parece ser, na prática, o ímã que
atrai os novos legionários. O organismo estabelece uma tradição, gera a
lealdade, impõe o respeito e a obediência, e inspira poderosamente todos os
membros. Interroguem-nos e verão que eles confiam na Legião como em uma mãe
cheia de sabedoria e de prudência. E tem razão. Não é ela que os defende de
todas as armadilhas: das imprudências do zelo, do desânimo nas dificuldades, do
orgulho no êxito, da hesitação na defesa de idéias rejeitadas por todos, da
timidez na solidão e, em geral, da areia movediça onde se afunda a
inexperiência? É ela que se apodera da matéria bruta da boa intenção,
trabalha-a e a transforma; é ela, enfim, que empreende a ação num plano regular
e lhe assegura a expansão e a continuidade” (Padre Miguel Creedon).
“Considerada em
relação a nós, seus membros, a Sociedade de Maria é a extensão, a manifestação
visível de Maria, nossa Mãe Celeste. Maria recebeu-nos na Sociedade, como em
seu amoroso seio maternal, para nos formar à imagem e semelhança de Jesus e
assim nos tornar seus filhos prediletos; para distribuir a cada um de nós uma
tarefa apostólica, e associar-nos dessa maneira à sua missão de corredentora
das almas. Para nós, a causa e os interesses da Sociedade identificam-se com a
causa e os interesses de Maria” (Pequeno Tratado de Mariologia, por um
Marianista).
[Capítulo
11 O Plano da Legião página 71]
O
Praesidium reúne-se semanalmente, numa atmosfera sobrenatural de oração, de
práticas de piedade e de suave espírito fraterno. Nesta reunião, é marcada uma
tarefa especial a cada membro e recebido o relatório do trabalho realizado. A
reunião semanal é o coração da Legião, de onde jorra, para as veias e artérias,
o sangue, que garante a vida, a fonte da luz e da energia; é um tesouro inesgotável
que provê a todas as necessidades. É o grande exercício de comunidade, onde o
Salvador, segundo a Sua promessa, assiste invisível, no meio dos Seus, e onde
graças especiais são derramadas sobre o trabalho de cada um. É aí que os
legionários são formados no espírito de religiosa disciplina que os leva,
primeiro, a agir no propósito de agradarem a Deus e de se santificarem a si
próprios; em seguida, a recorrer à organização como o meio mais apropriado para
atingirem estes fins; e, por último, a entregar-se inteiramente à tarefa que
lhes foi confiada, sem jamais a subordinar aos seus gostos pessoais.
Considerem os legionários a assistência à reunião semanal
do Praesidium como o primeiro e mais sagrado dever para com a Legião. Nada a
pode substituir. Sem ela, o trabalho será como um corpo sem alma. A razão
mostra e a experiência comprova que o descuido no cumprimento deste dever
primordial será seguido de um trabalho ineficaz e, em breve, de inevitáveis
desistências.
“Àqueles que não
marcham com Maria aplicam-se as palavras de Santo Agostinho: ‘Bene curris, sed
extra-viam’: corres bem, mas por fora do caminho. Aonde irás assim parar?” (Petitalot)
12
FINS EXTERNOS DA LEGIÃO
1. O trabalho atualmente em curso
A Legião não se propõe este ou aquele trabalho especial:
tem como objetivo principal a santificação dos seus membros. Para atingir esta
finalidade apóia-se, em primeiro lugar, na assistência às diversas reuniões, em
que a oração e outras práticas de
[Capítulo
12 Fins Externos da Legião
página 72]
piedade
estão tão unidas e entrelaçadas que moldam com suas características toda a
atividade legionária. Mas a Legião procura desenvolver a santidade de um modo
peculiar, dando-lhe o caráter de apostolado, aquecendo-a até o ponto de sentir
a necessidade de se comunicar. Esta difusão não é apenas o aproveitamento de
uma força em desenvolvimento, mas, por uma espécie de reação, é um elemento
necessário ao desenvolvimento dessa mesma força: nada contribui mais para o
progresso do espírito apostólico do que o exercício do apostolado. Daí, o
motivo por que a Legião impõe a cada membro uma obrigação essencial da máxima
importância: a de realizar semanalmente um trabalho ativo, determinado pelo
Praesidium. A execução desta tarefa constitui um ato de obediência ao
Praesidium. Salvas as exceções adiante indicadas, o Praesidium pode aprovar
qualquer trabalho ativo que satisfaça a referida obrigação. Todavia, a Legião
exige que o trabalho obrigatório seja orientado para reais necessidades e,
entre estas, as mais graves, pois a intensidade do zelo que a Legião se esforça
por inflamar nos seus membros exige um objetivo digno. Um trabalho
insignificante provocará reações desfavoráveis: corações prontos a
sacrificar-se pelo próximo, a pagar a Jesus Cristo amor com amor e, em
reconhecimento pelos Seus trabalhos e por Sua morte, prontos a dar-Lhe o seu
esforço e o seu sacrifício – acabarão por instalar-se na pobreza de uma rotina
e na perda de entusiasmo pelo trabalho apostólico.
“Eu não fui
recriado com a mesma facilidade com que fui criado. Deus disse uma palavra – e
tudo foi feito; mas, se isto bastou para me criar, já para me recriar disse
muitas palavras, obrou muitas maravilhas e sofreu muitas dores.” (São
Bernardo).
2. O fim mais remoto e mais elevado: o fermento da
comunidade
Por mais importante que seja o trabalho que esteja sendo
realizado, a Legião não o considera como o fim último ou mesmo principal do
apostolado de seus membros. O trabalho pode consumir uma, duas ou mais horas da
semana do legionário; para a Legião, porém, que olha mais longe, cada hora deve
constituir a irradiação do fogo apostólico aceso no seu lar. O sistema que
inflama assim as pessoas lançou no mundo uma força poderosa. O espírito
apostólico domina como senhor e tudo governa: pensamentos, palavras e ações. As
suas manifestações externas não
[Capítulo
12 Fins Externos da Legião
página 73]
são
limitadas pelo tempo nem pelo espaço. Os indivíduos mais tímidos e os menos
dotados adquirem uma capacidade especial para influenciar os outros, de modo
que, onde quer que estejam, e mesmo sem terem a intenção de exercer apostolado,
conseguem dominar o pecado e a indiferença. É a experiência universal que no-lo
ensina. Tal como o general que contempla, satisfeito, a sólida ocupação dos pontos
estratégicos, a Legião vê com alegria os lares, as oficinas, as escolas, os
estabelecimentos comerciais e os lugares dedicados ao trabalho e ao recreio,
onde um verdadeiro legionário foi colocado pelas circunstâncias. Mesmo onde a
falta de religião e o escândalo se encontram fortemente entrincheirados, a
presença desta nova Torre de David impedirá o seu avanço e fará com que recuem.
A Legião nunca dará seu apoio à corrupção: antes, deverá se esforçar em
remediá-la, tornando-a objeto das suas orações, lamentando-a com mágoa,
combatendo-a contínua e decididamente, em busca de um êxito que certamente há
de alcançar.
Assim, pois, a Legião começa por reunir os seus membros a
fim de que, perseverem em oração, juntamente com a sua Rainha. Envia-os em
seguida aos lugares de pecado e de aflição, para aí praticarem o bem e para que
fazendo-o, se inflamem na vontade de realizar maiores coisas; e, finalmente,
estende o seu olhar para os largos caminhos e pequenos atalhos da vida de cada
dia, a fim de neles descobrir campo de ação para missões, cada vez mais
gloriosas. Conhecedora das realizações operadas por pequeninos núcleos
legionários; ciente das possibilidades ilimitadas de recrutamento; e convicta
de que o seu sistema, se vigorosamente utilizado pela Igreja, constitui um meio
extraordinariamente eficaz para purificar o mundo pecador, a Legião deseja
ardentemente que os seus membros se multipliquem e se tornem Legião no número,
como o são no nome.
Unindo os legionários ativos, os auxiliares e aqueles que
estão sob sua influência, a Legião conseguirá abranger uma população inteira e
erguê-la do nível de negligência e da rotina a uma entusiasmada fidelidade à
Igreja. Imagine-se o que isto significa numa aldeia ou cidade! Os fiéis deixam
de ser um peso morto na Igreja, para constituírem uma força motriz, cujos
impulsos, diretamente ou através da comunicação dos Santos, atingem os confins
da Terra e, até os lugares mais sombrios. Uma população inteira organizada pela
causa de Deus – que ideal sublime! Ideal não apenas teórico, mas possível e
prático no mundo dos nossos dias, se todos resolverem levantar os olhos para o
alto e a pôr mãos à obra.
[Capítulo
12 Fins Externos da Legião
página 74]
“Sim, o laicado é
uma ‘raça escolhida, um sacerdócio santo’, chamado a ser o ‘sal da terra’, e
a ‘luz do mundo’. A sua missão
específica é exprimir o Evangelho na vida pessoal e, desta forma, colocá-lo
como fermento, na realidade do mundo, em que vive e trabalha. As grandes forças
que moldam o mundo – a política, os meios de comunicação social, a ciência, a
tecnologia, a cultura, a educação, a indústria e o trabalho – são precisamente
as áreas em que os leigos gozam de uma especial competência no exercício da sua
missão. Se estas forças forem guiadas por verdadeiros discípulos de Cristo, que
sejam ao mesmo tempo inteiramente competentes nos conhecimentos humanos,
podemos estar seguros de que o mundo será transformado, a partir de dentro,
pelo poder redentor de Cristo.” (João Paulo II, Irlanda, Limerick, outubro de 1979).
“Procurar primeiro o Reino de Deus e a Sua justiça” (Mt 6,
33), ou seja, trabalhar diretamente na salvação das almas, eis a preocupação
maior da Legião de Maria. Não se deve esquecer, no entanto, que outras coisas
lhe foram dadas por acréscimo, como, por exemplo, o seu valor como elemento
social. Torna-se, assim, a Legião de Maria um tesouro nacional para o país onde
se encontra, e converte-se, para os seus habitantes, em um valioso elemento de
riqueza espiritual.
O exercício frutuoso da máquina social exige, como qualquer
outro mecanismo, a cooperação harmoniosa de todas as suas peças. Cada uma, isto
é, cada indivíduo, deve cumprir rigorosamente a função que lhe foi confiada
causando o menor atrito possível.
Aliás, se o indivíduo não cumpre com a sua obrigação, surge o
desperdício de energia, o bom andamento é perturbado e os dentes da roda da
máquina social deixam de se ajustar uns aos outros. Reparar o mal é impossível,
pois torna-se dificílimo descobrir-lhe a extensão ou as causas. Por isso, o
remédio a adotar consiste em aumentar a força motriz ou lubrificar a máquina
com mais dinheiro. Este remédio leva a um fracasso progressivo, pois diminui a
noção de serviço ou de colaboração espontânea. Há sociedades com tal vitalidade
que podem continuar a funcionar mesmo quando metade de suas partes se encontram
mal engrenadas. Mas à custa de quanta pobreza, de quanta frustração e
infelicidade! Não se poupam dinheiro nem esforços para pôr em
[Capítulo
12 Fins Externos da Legião
página 75]
ação
peças que deviam mover-se sem dificuldade ou ser, até mesmo, fontes de energia.
Resultado: problemas, desordens, crises.
Ninguém ousará negar que isto se passa mesmo nos Estados
mais bem governados. O egoísmo é a regra da vida individual; o ódio converte a
existência de muitos em forças puramente destrutivas, e cada dia que desponta
traz consigo uma nova e universal demonstração da verdade que pode ser expressa
rigorosamente nestes termos: “Os homens que negam Deus, que Lhe são traidores,
atraiçoarão igualmente todas as pessoas e tudo quanto existe abaixo de Deus –
no Céu e na Terra” (Brian O’Higgins).
A que alturas podemos esperar que se eleve o Estado, se ele
não é mais que a soma das vidas individuais? Se as são um perigo e um tormento
para si próprias, que poderão oferecer ao mundo senão uma parte da sua própria
desordem?
Suponhamos agora que uma força nova surge na sociedade,
comunicando-se de indivíduo a indivíduo, como que por contágio, e converte em
centro de atração os ideais generosos de abnegação e de fraternidade: – que
transformação não seria operada! As chagas vivas cicatrizam-se e a vida passa a
ser vivida num nível superior. Imagine-se ainda o aparecimento de uma nação em
que a vida se ajuste por estas elevadas normas e apresente perante o mundo o
exemplo de um povo inteiro que pratica unanimemente a sua Fé, e resolve, em
conseqüência, todos os seus problemas sociais. Quem põe em dúvida que tal nação
passaria a constituir, para o mundo, um farol luminoso, a cujos pés se sentaria
a Terra para alimentar-se da luz dos seus ensinamentos?
Ora é indiscutível que a Legião possui a força capaz de
interessar os leigos na sua própria religião, de forma vital e também de
comunicar um idealismo ardente aos que vivem sob a sua influência, fazendo-os
esquecer as divergências, as distinções e as rivalidades e fazendo com que se
resolvam a amar o gênero humano e a servi-lo devotadamente. Este idealismo, que
se encontra enraizado na religião, não é um simples sentimento, não se evapora:
disciplina o indivíduo, educando-lhe a vontade de servir; anima-o a
sacrificar-se e torna-o capaz de maiores heroísmos.
Por quê? A razão está na causa motriz. A energia deve ter
uma fonte. A Legião dispõe de um motivo que força a servir a comunidade. E o
motivo é este: Jesus e Maria eram cidadãos de Nazaré. Amavam a sua aldeia e o
seu país com religiosa devoção, pois para os judeus a fé e a pátria estavam tão
divinamente enlaçadas que formavam apenas uma só coisa. Jesus e Maria viveram
perfeitamente a vida comum de sua localidade. Cada pessoa, cada coisa ali era
para eles objeto do mais profundo interesse. Se-
[Capítulo
12 Fins Externos da Legião
página 76]
ria
impossível imaginá-los indiferentes ou descuidados sob qualquer aspecto.